ADAPTAÇÃO ESCOLAR, PARA QUEM?

Por Lais Fontenelle, Psicóloga

É sabido que o ser humano tem uma capacidade inesgotável de adaptação, sobretudo nas situações mais adversas. Vivenciar de perto, e sem sofrimento, a adaptação escolar de nossos filhos não é tarefa fácil ou isenta de culpa para os responsáveis – seja quando os bebês precisam ir para creches a fim de que a família restabeleça sua rotina de trabalho, ou até mesmo quando decidem mudar as crianças de escola. E quando somos transferidos para trabalhar em outra cidade ou país?

Nosso coração aperta porque sabemos dos laços que nossos filhos terão de deixar para trás a fim de construir novos, e compartilhamos dessa dor. Todo processo de separação é sofrido porque nos faz crescer, e crescer dói. Na fase do estirão, por exemplo, os adolescentes não reclamam de dores nas pernas e no joelho? É a “dor do crescimento”, os especialistas nos acalmam. Quando os dentes rompem a gengiva, preparando o bebê para o desmame e a introdução de uma alimentação mais sólida, temos noites insones com o choro de nossos rebentos. E por quê? Porque dói. E lá vêm os especialistas novamente para nos acalmar e relembrar que, com o desmame, ganharemos mais liberdade na rotina e na autonomia de nossos filhos.

Queridos pais e responsáveis, a tarefa de educar sujeitos fortes emocionalmente é hercúlea e pode causar sofrimento para ambas as partes. Para que nossos pequenos cresçam saudáveis e amadureçam para o ingresso na vida adulta, eles precisarão de separações, além de frustrações. Nossa proteção é uma forma de amor e, de fato, tem a melhor das intenções.

Porém, as tentativas de fazer nossos filhos não sofrerem não valem de nada. A vida é feita de desafios e, inexoravelmente, eles vão sofrer para que possam crescer. Agora, voltemos às adaptações e enturmações escolares e seus desafios. O ingresso em um novo ambiente escolar, considerado por muitos o segundo espaço de socialização da criança depois da família, é uma experiência que traz sentimentos ambíguos aos pais e às crianças. É por isso que muitas escolas chegam a dizer que a adaptação escolar é para os pais, e não para as crianças – colocação que tendo a discordar.

A adaptação é, aos meus olhos, para todos: pais, que revivem ali sua experiência escolar; crianças, que precisam se sentir seguras para criar vínculos; e o próprio educador em relação àquela nova família e à criança que está recebendo e conhecendo. Sendo assim, o início de cada ano letivo é um momento importante para toda a comunidade escolar e que requer cuidado, olhar, escuta e, muitas vezes, paciência.

E não podemos falar somente sobre as primeiras adaptações ao ingresso no universo escolar. As crianças que mudam de escola, de segmento e de turmas de origem também passam por adaptações que exigem tempo de convívio com o novo professor e entre pares para ter êxito. Na chegada ao ambiente escolar, tendo a dizer que a confiança e o tempo ditarão o êxito da adaptação dos pequenos. Confiança na escolha da escola, no potencial de nossos filhos, na competência dos docentes, e, acima de tudo, confiança de que nós ficaremos bem dividindo o cuidado de nosso bem mais precioso com a escola.

Há exatos cinco anos, experimentei, pela primeira vez no outro lado, o papel de responsável adaptando a filha de dois anos, e confesso que não foi fácil para ninguém, mesmo com todo apoio e carinho que recebi da instituição escolhida na época. Apesar de já ter passado por inúmeras adaptações nos nove anos em que fui professora pré- -escolar, não estava preparada para minha hora de dizer “tchau”.

A decisão, o momento ideal e a seleção da escola estavam bastante acertados dentro de mim. Compramos uniforme, conversamos sobre esse novo espaço, vimos filmes que mostravam crianças nas escolas, preparamos o lanche a ser levado, mas, na “hora H”, o coração ficou minúsculo ao ver aquele ser, tão pequenino e que protegemos e amamos tanto, com olhos desconfiados agarrados ao meu colo. Apesar de termos a certeza de que eles vão se divertir, fazer amigos, ter a chance de amar e ser amados por outras pessoas que não são familiares, ficamos péssimos quando eles abrem o choro e se recusam a ficar nesse novo espaço que escolhemos com tanto zelo.

Nessa mesma ocasião, os responsáveis de outras crianças – que, no primeiro dia, deram tchauzinho com suas pequenas mãos e um sorriso estampado no rosto – compartilharam comigo que a facilidade e a rapidez da adaptação também não foram tranquilas de lidar. Quando a criança pulou, de braços abertos, para o colo de outro adulto cuidador, eles se sentiram dispensáveis, e isso doeu. Tudo que tenho a dizer é que separar para construir novos laços não é fácil. Nosso instinto parental e a vontade de colocar nosso rebento debaixo de nossas asas e sob nossos cuidados, protegidos de todo e qualquer sofrimento, é um desejo não só egoísta como uma tarefa interna quixotesca.

Como responsável, com o avanço na escolaridade, comecei a ter de lidar com novas adaptações, a cada ano, que diziam respeito às mudanças de turma. Então, novas dúvidas e inseguranças surgiam. O pedido do melhor amigo será aceito? Será ela, novamente, a mais nova e sofrerá com isso? Aquela menina “má”, que uma vez partiu o coração da minha filha por não a deixar entrar na brincadeira do pátio, ficará na classe dela? Como controlar todas as variáveis? Impossível! Mas seguimos tentando, sempre, com a intenção de não fazer nossos filhos sofrerem. Porém, nessa tentativa, esquecemos primeiro da capacidade inesgotável de adaptação do ser humano e da confiança depositada na instituição que compartilhará conosco a responsabilidade de educar e de cuidar de nossos filhos. Essa instituição sabe sobre as relações que ali se estabelecem e cuida delas para que sejam funcionais e ajudem na aprendizagem.

Não precisamos poupar nossos filhos da experiência de separação de alguns amigos. É importante os encorajarmos a superar as primeiras impressões, ou até mesmo dificuldades, para que possam conviver com diferentes grupos de maneira harmoniosa. Ao final do processo, as crianças e os adolescentes só ganharão com as novas relações estabelecidas. Dessa maneira, estamos ensinando nossos filhos a amar, persistir, ser resiliente e, principalmente, não desistir diante de um primeiro julgamento ou desafio. Colocar nossos filhos no mundo significa ir nos tornando, aos poucos, desnecessários, para que eles próprios consigam seguir, confiantes, seu caminho com a segurança necessária de que estaremos ali dando apoio no que for preciso, na escolha que fizerem. Isso é ser suficientemente bom, como colocou o grande Winnicott sobre as mães. Mas não é fácil tornar-se “desnecessária”, confesso.

A cada fase da vida, precisamos nos separar e nos diferenciar dos sentimentos de nossos filhos para irmos, aos poucos, cortando o famoso “cordão umbilical”. E o que devemos ter sempre em mente é que cada um tem um tempo único e uma forma singular de se adaptar às novidades, e que, a cada nova fase, uma perda e um ganho acontecem. Idas e vindas também fazem parte do processo. Com a adaptação escolar, não tem como ser diferente.

Para os pais de primeira viagem que estão ingressando no universo escolar, relembro que uns chegam de mãos dadas com os pais, logo dizem adeus e seguem confiantes no novo espaço. Outros experimentam aquelas relações em doses homeopáticas e, um dia, passam a ficar seguros ali, sem a presença dos responsáveis. Há, ainda, os que choram e gritam para se adaptar, mesmo demonstrando no olhar e no sorriso que querem ficar ali. Cada caso é um caso, mas, no final, tudo se resolve no tempo certo. Bem-vindos à vida escolar! Tenho certeza de que a integração será linda de ver.