O ADULTO SABE TUDO 

Por Joana London, Psicóloga

“O adulto sabe de tudo”, pensa a criança. “Já sou vivido. Passei por muita coisa. Sei de tudo um pouco”, pensa o adulto. E o que não sabe, descobre-se rapidamente em seus aparelhos. “A criança não sabe de nada”, pensa o adulto. A criança sabe de tanta coisa, eu te digo. Mas o lugar que ela acessa para descobrir o que não sabe é um terreno que muitos adultos deixaram de lado faz tempo: a imaginação, a qual, recheada de experimentação, pode se tornar um grande saber. Ter a chance de assistir a uma criança encontrando algo pela primeira vez é fascinante. O encantamento nos olhos, a curiosidade nas mãos, os pontos de interrogação que começam a emergir a sua volta, as hipóteses que passam a ser construídas. São pequenos gestos que simbolizam a ampliação do mundo, o retrato de uma poesia. 

 

“Olha o que eu encontrei”, elas se aproximam entusiasmadas. É nesse momento que costuma entrar o adulto que, em vez de investigar e mergulhar junto na busca de sentido, já chega trazendo um conhecimento concreto e emoldurado, mais especificamente dando nome. E, junto com a nomeação da coisa, vêm todos os seus significados e funções. E, em poucos segundos, um pinho deixa de ser uma castanha que só os gigantes podem comer e passa a ser apenas parte de um pinheiro, um pincel deixa de ser uma varinha mágica e passa a ser um objeto para pintar, e a panela deixa de ser um instrumento essencial em uma banda de rock e passa a ser apenas um utensílio de cozinha que não pode ser pego para brincar, senão vai estragar. É nessa hora que toda aquela animação de ter descoberto algo novo no mundo cai por terra e percebe-se que era mais um dos elementos que todos os adultos já conhecem, assim como tudo que existe. De fato, em algum momento será importante que essa criança compreenda o que é cada um desses objetos. Mas que tal, antes de dar o nome e a função exata, a gente passar a explorar com ela quais são as múltiplas histórias que eles podem carregar? A intenção de ensinar aos filhos é positiva, com certeza. Mas será que o inverso é verdadeiro? Será que há uma disponibilidade das famílias para aprender com suas crianças? 

 

Tente responder à seguinte pergunta imaginando uma cena: Vocês chegam juntos a uma exposição. Quem conduz e quem é conduzido nessa experiência? Quem aponta e acena – “Olha isso! Olha aquilo!” –, é você ou são eles? Não existe só uma forma de viver essa experiência, sem dúvida, mas a dica é: permita-se ser levado. Deixe que a criança amplie os seus horizontes e lhe faça ver o que você já não enxerga mais, seja por meio de sua imaginação fértil ou mesmo pela sua altura. Os campos de visão são diferentes e, ao se permitir embarcar em uma nova dimensão, certamente você não vai se arrepender. Muitas vezes, para a criança, o mais interessante de uma mostra não é o quadro daquela grande artista que está por tempo limitado no museu, mas a sombra que se formou com as luzes batendo nas pessoas olhando a obra. Deixe que ela lhe mostre essa nova perspectiva do mundo – e permita-se “desviciar” o olhar –, sem tentar forçá-la a enxergar apenas o que você está vendo. Dar voz à criança é parte fundamental de uma relação de confiança e um grande passo para conhecê-la de forma mais genuína e profunda. O exercício de escutar suas explicações sobre o mundo, como ela enxerga as coisas e suas criações, é parte da construção de um vínculo potente que se expande conforme as partes se entregam. Quando se cria um terreno para a espontaneidade da criança, muito se ganha. E é também nesse lugar que ela se sentirá confortável para viver suas emoções, por estar segura de que não será julgada pelo que é certo ou errado, mas acolhida na sua experiência. 

 

Além disso, estimular o processo criativo da criança ajuda no seu desenvolvimento cognitivo e na sua capacidade de conectar ideias e assuntos aparentemente diferentes entre si, despertando sua curiosidade e vontade de conhecer o mundo. 

 

Para encorajar os adultos a preparar esse terreno para a criança florescer, uma boa indicação de leitura é o livro Casa das estrelas – o universo contado pelas crianças, de Javier Naranjo, um professor colombiano que convidou suas crianças a definir palavras já conhecidas pelos adultos. Seguem aqui duas delas para despertar a curiosidade, mas a recomendação é de que se faça a leitura completa. Adulto: “Pessoa que, em toda coisa que fala, vem primeiro ela” (André Felipe Bedoya, 8 anos). Lar: “Calor de onde vem toda a família” (Carlos Gómez, 12 anos).