Autonomia: Por que? Quando? Como?

Por Marina Jardim, Psicóloga

Autonomia”: palavra muito discutida hoje em dia nos consultórios, escolas, grupos de WhatsApp, pracinhas… Onde há crianças e adolescentes, surge a ideia de autonomia como uma difícil, porém importante tarefa do desenvolvimento individual. Entre os especialistas da infância e adolescência, diz-se que a autonomia pode ser estimulada desde os primeiros anos de vida. Piaget, por exemplo, caracteriza três momentos para o desenvolvimento moral, em que a autonomia é o último deles, alcançada após experimentações da criança pelas fases de anomia e heteronomia. Segundo esse autor, na autonomia, a pessoa é capaz de questionar, refletir e criar novas formas de interagir com seu meio. Para isso, é fundamental um ambiente que proporcione oportunidades para seu exercício, com os riscos e descobertas que isso implica. Paralelamente, de acordo nos ensina o psicanalista Erik Erikson, a primeira realização social da criança é poder se afastar de seus cuidadores para descobrir, sozinha ou com pares, novas aventuras. Isso se torna possível na medida em que os cuidadores a ajudam a construir uma confiança básica, tanto em si mesma, quanto no ambiente. Isto é, a autonomia está fundada em uma experiência de confiança mútua entre cuidadores e crianças, na qual os mais novos irão, aos poucos, prescindir da proteção e guarda dos adultos para conquistar outros mundos, além daquele que lhes é familiar. Na primeira infância, pequenas tarefas são pontos de partida para uma experimentação autônoma do mundo ao redor. Começar a se alimentar sozinha, vestir-se e dar os laços no sapato, andar na calçada sem segurar as mãos dos cuidadores; pequenos-grandes passos que podem ser estimulados pela família. Com o passar dos anos, tendo experimentado novas situações e fortalecido a confiança mútua, o adolescente poderá advogar pela sua vida. Viajar com amigos, estudar sozinho e, futuramente, ganhar a licença para dirigir, serão desdobramentos naturais para esse sujeito que aos poucos se tornou autônomo e responsável por si. 

 

Nesse sentido, entende-se que a tomada de autonomia é um processo gradual orientado pelos cuidadores. Aos adultos cabem, essencialmente, duas tarefas: notar a possibilidade de a criança avançar rumo a práticas mais autônomas na sua vida e oferecer o espaço necessário para que ela avance sem interferências. Certamente haverá tropeços, equívocos e falhas, afinal, dificilmente atingimos nossos objetivos na primeira tentativa. Porém, na construção da autonomia, as tentativas e erros são fundamentais, e o insucesso inicial pode significar o aperfeiçoamento das práticas. Esse processo é, muitas vezes, angustiante para a família, que teme perder o controle dos hábitos e escolhas dos seus protegidos. É comum os adultos terem receio de que a independência dos pequenos coloque em cheque seu papel de autoridade na vida deles. Com a entrada na adolescência, esse receio ganha proporções ainda maiores. Porém, em contextos em que o diálogo e o respeito pautam as relações, é possível que a família continue no papel de principal referência de valores e práticas para os adolescentes. Assim, tanto na primeira infância quanto na pré-adolescência e na adolescência, possibilitar a autonomia dos mais novos está fortemente relacionado ao vínculo e à confiança mútua. Ao longo do percurso do desenvolvimento individual, outros atores também passam a ocupar um lugar importante na construção da autonomia. A escola, por exemplo, é uma parceria fundamental da família na construção e exercício de autonomia das crianças. Ela é o primeiro espaço extrafamiliar que a criança frequenta, no qual as regras e as trocas a convocarão à prática da autonomia. Em vista disso, os responsáveis confiam seus pequenos à escola como outro cuidador, como um espaço que, também gradualmente, demandará um descolamento na forma como a criança e o adolescente interagem com o meio. Mas, veja: a autonomia é um horizonte, algo construído nos diferentes momentos da vida da pessoa, a partir dos primeiros anos e em diante. As tarefas autônomas da primeira infância diferem em muito das que são vividas na adolescência e na vida adulta. Entretanto, em qualquer momento do desenvolvimento do indivíduo, a autonomia segue como a possibilidade do ser humano ser agente perante os desafios e aventuras da vida. Portanto, mãos à obra!