Bebidas e Droga

Raul Spitz, Psicólogo e Consultor Pedagógico LIV

Fazer a palavra circular. Essa é uma das premissas do LIV que visa a construção de maneiras mais saudáveis para conseguirmos lidar com a complexidade de sermos humanos. Dessa forma, entendemos que falar sobre as possíveis relações entre adolescência e o uso de álcool e drogas se faz fundamental desde o âmbito escolar até o ponto de poder inspirar o diálogo dentro das casas dos alunos. Não temos a intenção nesse texto de colocar as drogas como sendo um problema de ordem individual ou caso de polícia. Nossa ideia é abordar essa temática como um fenômeno social complexo que acomete as diferentes culturas ao redor do mundo dando ênfase na fase da adolescência.

Estatisticamente, cada vez mais cedo as crianças têm experimentado álcool e drogas. Saber que elas possuem efeitos possivelmente nefastos todos nós já sabemos. Em alguns casos elas podem fazer eclodir problemas psiquiátricos, em outros podem causar dependência química ou psicológica, podem desequilibrar o sono e a atenção, muitas vezes podem despedaçar famílias, chegando até a causar mortes.

A adolescência é uma fase bastante peculiar do nosso desenvolvimento enquanto sujeitos. É durante esse período que as pressões internas e externas começam a se mostrar de forma mais intensa. O jovem agora está se tornando adulto e passa, cada vez mais, a ser convocado a fazer escolhas próprias. O vestibular que vai fazer, os inúmeros objetos que acha que precisa consumir, as pessoas que mais se encaixam em seu estilo de ser. Isso aliado a despedida que, em muitos casos se faz de forma brusca, do corpo infantil. Agora, cada vez menos, papai e mamãe ajudam nos cuidados do corpo, nas roupas que veste, nas decisões a serem tomadas. É na adolescência que os pais perdem também um status de serem “sujeitos perfeitos” e sem falhas, comumente nutrido da etapa infantil pelos filhos. Agora, suas vulnerabilidades e “esquisitices” ficam mais evidentes, o que pode levar o jovem a sentir-se enganado e decepcionado.

Emocionalmente a adolescência nos traz despedidas, perdas e a apresentação de possíveis mundos novos. Diante disso, o grupo social tende a ganhar um peso muito grande na vida do jovem. Formam-se pares, frequentam-se ambientes novos, mais afinados com os gostos do momento. Desse modo, o jovem tenta encontrar meios de ocupar uma vida até então não tão ocupada assim. Com isso, o álcool e as drogas, substâncias que mexem no nosso cérebro ora agitando, ora lenificando, podem entrar em cena como tentativa de solucionar as dificuldades dessa travessia.

Assim como abordado acima, diante da necessidade de ter agora que tomar inúmeras decisões, o adolescente muitas vezes não sabe o que fazer ou a quem recorrer. Pais e responsáveis sentem-se, muitas vezes inibidos e sem jeito para abordar esse momento com seus filhos. Bebidas e drogas podem ocupar aí uma função de esteio para o jovem: podem “desligá-lo” para que ele não precise se deparar com as exigências das respostas rápidas, assim como também podem agitá-lo com o intuito capacitá-lo a se integrar as novas realidades. Vivemos numa cultura que lida de forma muito ambígua em relação a essas substâncias. Por um lado, elegemos algumas delas como vilãs, intensificando seu combate a todo vapor. Por outro lado, tratamos outras de forma complacente, quase que de forma glamorosa. Um bom exemplo disso são os diminutivos “inhas” das cervejinhas, caipirinhas e branquinhas. Esses diminutivos sugerem uma amenização dos seus efeitos, que, dependendo do caso, podem ser devastadores. Segundo um artigo da revista The Lancet, uma das mais respeitadas revistas médicas do mundo, o álcool, embora lícito, é a droga mais perigosa em termos clínicos e também de segurança, uma vez que seus danos não se restringem apenas ao indivíduo, mas também podem afetar o coletivo. Por outro lado, a procura por drogas ilícitas pode causar, além dos danos cerebrais conforme sua utilização, riscos pessoais por se tratar de uma infração a lei. Isso sem contar que mesmo as lícitas, como álcool e cigarro, em nosso país não podem ser vendidas para menores de idade.

Muitas vezes as crianças convivem com algumas drogas desde sempre nas casas onde moram. Para relaxar dos dias estressantes, o pai, habitualmente, abre sua cervejinha quando chega do trabalho. Ou para conseguir pegar no sono, a mãe diariamente, ao se deitar na cama, toma uma pílula que a faz fechar os olhos quase que instantaneamente. Como não há o hábito de se conversar sobre isso, a mensagem que a criança pode captar é de que essa é uma via possível e efetiva para se solucionarem os problemas.

Como estratégia para se abordar esse tema em casa, sugerimos às famílias sempre o recurso do diálogo. O diálogo é o mais efetivo método para imposição de limites. Porém não vá esperando seu filho te procurar para conversar sobre isso, porque quase nunca acontece. Procure percebê-lo e se interesse por ele. Tente deixar a repressão e a rigidez extrema de fora, pois entendemos que elas podem até surtir efeitos imediatos por conta do medo da punição, mas a médio e longo prazos não se sustentam. Prefira apoiar-se nas informações. Informe a ele, de forma amistosa, as leis vigentes em nosso país sobre compra e venda de bebidas e drogas para menores de idade. Se ele for tentar comprar, a responsabilidade recairá sobre vocês, adultos. O que ele pensa sobre isso? Cuidado com o discurso de que drogas fazem mal e ponto, pois tende a não ser suficiente para os jovens. Eles precisam de mais do que isso. Aborde com ele qual é o padrão da família com relação ao uso de álcool e drogas. Isso possibilita que o adolescente, por mais que possa infringir os combinados com vocês, pelo menos tenham maiores noções sobre as possíveis consequências (leis e hábitos familiares). Seja pontual e firme. Fale menos e busque escutar mais. Quanto mais pudermos desenvolver nossa escuta acolhedora, mas estaremos nos aproximando dele, podendo, no final das contas, fazer com que ele tome decisões menos arriscadas e mais saudáveis. A rigidez, muitas vezes, pode fazer com que ele se acanhe e sinta que precisa mentir.

Estabelecer limites com os filhos não é nenhuma garantia de que eles não irão infringi-las. Mesmo assim, melhor transgredir sabendo dos riscos do que fazê-lo sem saber o que esperar.
Vamos pensar mais sobre isso?

Sugestões de leitura: Livro: Que Droga é Essa? Gabriela Carletto
Artigo sobre pesquisa: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(10)61462-6/fulltext