QUANDO O BULLYING APARECE

Por Lourdes Atié, Socióloga e educadora

Justamente quando os estudantes do Ensino Fundamental estão adquirindo uma identidade psicossocial e quando necessitam da aceitação do grupo de amigos, fica mais intensa a prática do bullying. Essa ação pode se prolongar para os anos seguintes, ganhando mais força à medida que crescem e se tornam jovens.

Antes de conversarmos sobre esse assunto, é preciso explicar que nem toda “brincadeira de mau gosto”, deboche ou provocação é bullying. Crianças implicam, brigam, são injustas, e isso faz parte da vida. O mesmo acontece com os jovens. Quem teve a oportunidade de brincar na rua sozinho durante a infância sabe que isso acontecia o tempo todo, sem o rotularmos com o nome de bullying, e mais: os “adultos não se metiam em briga de criança”. Aprendíamos a nos defender entre amigos e inimigos, e isso fazia parte do processo de socialização. Aprendíamos na prática a nos defender e sobreviver na coletividade para que conseguíssemos ser felizes em grupo.

Em um dia, ficávamos de mal com quem nos fazia sofrer, e, no dia seguinte, virávamos melhores amigos. Tudo era negociado; às vezes, tínhamos de sobreviver a muitas injustiças, e, em outras vezes, morríamos de felicidade por ter nosso valor reconhecido pelos amigos. Era assim que aprendíamos a viver.

Só que os tempos mudaram, e as crianças não estão mais nas ruas, pois estas se tornaram mais perigosas. Agora, passam a maior parte do tempo em alguma instituição, prioritariamente a escola, além de outras instituições de educação complementar. Nesses espaços, as crianças e os jovens têm sua liberdade vigiada, e tudo é protocolado e rotulado, podendo ficar mais dramático do que realmente é. Então, vamos elucidar alguns pontos.

Nem tudo o que se pratica em termos de confrontos físicos e psicológicos se caracteriza como bullying. De acordo com a especialista Cléo Fante, “bullying: palavra inglesa, presente nos estudos sobre o problema da violência escolar, é adotada em muitos países para definir o desejo consciente e deliberado de maltratar outra pessoa e colocá-la sob tensão”. O bullying se refere a práticas recorrentes e sistemáticas de intimidação, como agressões físicas e verbais e constrangimentos psicológicos, que podem ser cometidas por estudantes, professores e outros profissionais da comunidade escolar. É um comportamento cruel nas relações interpessoais, em que os mais “fortes” convertem os mais “frágeis” em objeto de diversão e prazer, maltratando-os.

O fenômeno é mundial e acomete escolas de várias partes do mundo, trazendo consequências graves, como transtorno de ansiedade, depressão, déficit de atenção, entre outras patologias. Crianças e jovens vitimados pelo bullying sofrem terrivelmente ao longo de anos, muitas vezes de forma silenciosa, sob a vista de professores e funcionários. Em situações extremas, as vítimas de bullying são capazes de provocar atos trágicos, como os assassinatos em série nas escolas.

O combate ao bullying começa em casa, na família. A postura dos pais no relacionamento com as pessoas em geral serve de exemplo, para o bem e para o mal, pois “ensina” aos filhos como devem tratar os colegas de escola. Além de mostrar exemplo, é preciso também conversar com eles sobre os danos irreparáveis que as atitudes imediatistas do bullying podem causar.

Com as mídias sociais e a proliferação do uso do celular, o fenômeno se agravou, e passou a existir o cyberbullying. A publicação de vídeos ou mensagens de voz que debocham de um colega ou veiculam uma situação constrangedora são exemplos de cyberbullying. As escolas perderam a capacidade que possuíam antes da internet de proteger os estudantes.

Para solucionar o problema do cyberbullying, deve haver uma parceria da família com a escola que reforce um compromisso participativo, para que possam, juntas, buscar a proteção das vítimas. É preciso evidenciar aos jovens que, quando estiverem sendo vítimas de agressões, devem denunciar sem medo. Orientem para que eles procurem um adulto imediatamente para pedir ajuda, sem se sentirem culpados por não terem contra-atacado. E lembre-se: se os pais sentirem que não têm condições de proteger seus filhos, será preciso buscar ajuda especializada, como a de psicólogos, que saberão como ajudar.

Ainda melhor que proteger é conseguir evitar que os casos de bullying aconteçam. E a palavra-chave para isso é “cooperação”, pois prevenir é sempre melhor do que punir. Um caminho possível para isso, na escola, é a implantação de projetos coletivos que possam gerar mudanças na forma de pensar e agir de toda a comunidade.

Será a partir da conscientização e da busca de soluções conjuntas para esse fenômeno – por meio do desenvolvimento de ações que visem à interiorização de valores como solidariedade, empatia e tolerância – que o compromisso com a proteção de todos se traduzirá nas práticas diárias. Para a construção de um ambiente de paz, não basta saber se proteger individualmente; é preciso que todos tenham a devida consciência de suas responsabilidades.

Vale lembrar que é possível identificar mais do que dois personagens no bullying – não apenas a vítima e o agressor. Na verdade, é essencial que ampliemos esse olhar para as pessoas que testemunham cenas de bullying e nada fazem para impedi-las. Por isso, esse assunto deve ser tratado com delicadeza dentro de casa, pois, mesmo que os filhos não sejam os atores principais do bullying, eles podem ajudar a mudar essa dinâmica.

A escola e a família podem colaborar, evitando situações de repetição de maus tratos entre os estudantes, mas tendo cuidado para não rotular todos os confrontos como bullying, pois o excesso de proteção pode transformar uma brincadeira normal em algo extremamente negativo, por confusão ou precipitação. Seria um avanço entender que há atitudes erradas que podem ser facilmente contornadas, até com um simples e sincero pedido de desculpas. Do contrário, estaremos cerceando os estudantes de aprender a se relacionar; eles passarão a ter medo de desenvolver relações sociais ou manifestar suas opiniões, quando, pelo contrário, precisam aprender a exercer a liberdade com ética, dentro dos limites do respeito. Isso só se aprende praticando e errando, em clima de confiança e solidariedade.