Como falar de luto com as crianças?

Como falar sobre luto com as crianças?

Por Juliana Hampshire, consultora pedagógica do LIV.

Caro educador,

Propor uma aula que trabalhe intencionalmente os temas do luto e das perdas pode parecer uma tarefa muito ousada. E talvez seja mesmo, já que muitos de nós temos essa dificuldade. Mas entendemos que é fundamental falar sobre eles na escola.  

Sabemos que cada um lida à sua própria maneira com as adversidades da vida e muitas vezes tentamos proteger as crianças de assuntos mais delicados, como a morte, por exemplo. Acontece que a morte aparece de maneira escancarada em desenhos animados, filmes, noticiários, e também na vida.  Quando pelas telas, ora a perda é entremeada por assuntos que nada têm a ver com o contexto, como propagandas, ora ela não se apresenta de maneira concreta, com a finitude que lhe é própria. Usar metáforas para falar da morte pode dificultar o luto.

O que é o luto? Como ele se manifesta?

O luto é entendido como um processo de elaboração das perdas vividas. Ou seja, é um trabalho que cada um de nós precisa fazer para seguir vivendo da melhor maneira possível. Culturalmente, fomos acostumados a não falar sobre a morte e a guardar nossos sentimentos para nós mesmos. Com isso, vemos muitas perdas não elaboradas e pessoas experimentando sofrimentos intensos. 
Pode parecer uma construção óbvia: não falar sobre um acontecimento não faz com que ele desapareça. Mas quantas vezes não usamos a frase “o que os olhos não veem, o coração não sente” como diretriz para alguma dificuldade que queremos evitar encarar? 
As crianças são atentas e sensíveis e percebem quando algo está diferente do habitual. Quando nós, adultos, estamos experimentando um luto, ainda que tentemos esconder, nosso corpo dá sinais de que não estamos bem. Nossa feição muda, alguns de nós franzimos a testa quando estamos preocupados ou tristes, por exemplo. Sem nos darmos conta, ficamos aéreos, com os pensamentos num lugar e o corpo no outro e, por mais que nos esforcemos, não conseguimos esconder que tem algo que eu não estou compartilhando. Por isso, dar sinais contraditórios pode dificultar as tentativas de compreensão e elaboração da criança. 

Estratégias para falar sobre o luto na sala de aula

Para começar qualquer atividade que envolva temas que sejam sensíveis para nós, adultos, primeiro é importante entender como ele nos afeta. Onde está a dificuldade para cada um de nós? Nenhuma parte do luto é fácil de experimentar, mas é ele que garante que alguma coisa em nós não vai se despedaçar ou ir embora junto com o que ou quem se perdeu. 
Assim, um dos caminhos mais importantes a seguir é construir, junto com os estudantes, a ideia de permanência. Apostamos que, a partir de um espaço seguro de fala e de acolhimento, podemos elaborar a ideia de que, mesmo quando não encontramos mais fisicamente o objeto (pessoa, situação) perdido, através da nossa memória o que vivemos permanece como uma parte importante de quem nós somos.
Aqui é muito importante não trazer eufemismos e metáforas como sono eterno, virou estrela, cumpriu sua missão, entre outros. Esses entendimentos variam de acordo com crenças individuais, rituais e valores familiares. O que podemos trabalhar é justamente o lugar da saudade, da importância que aquele evento tem, e poder abrir espaço para que as crianças possam se emocionar.
Com a pandemia de COVID-19 a morte ficou mais flagrante para todos.  Ou perdemos alguém, ou conhecemos alguém próximo que perdeu. Isso vai deixar marcas, ainda mais quando pensamos naqueles que não puderam sequer se despedir. É importante acolher e poder suportar acolher o sofrimento. Não existe nada que possa justificar uma perda, e podemos nos desapegar da necessidade de dar respostas. O que podemos fazer é estar junto. Se interessar por quem foi essa pessoa e que lugar ela tinha na vida do estudante. Valorizar o que foi construído.
Assim, nas lembranças, encontramos possibilidades de seguir vivendo bem. O que eu quero lembrar sempre? O que eu quero que outras pessoas saibam de quem foi essa pessoa ou situação, ou animal de estimação? Como registrar isso? É através do afeto, no encontro com os outros, que podemos ir costurando nossas histórias, que passarão por perdas, sim, mas também por memórias gostosas que podem ser revividas e acessadas. Esse seria o processo final de elaboração do luto. 
E lembre-se, aqui no LIV estaremos disponíveis para pensarmos juntos caminhos  e estratégias para situações difíceis que possam vir a surgir!