A arte da escuta: uma conversa com Claudio Thebas sobre empatia

13 de fevereiro de 2020

 

Para Claudio Thebas, a escuta é uma arte e a empatia é uma competência necessária para que ela se torne possível. Escritor, palestrante, palhaço e educador, ele foi um dos convidados a participar da 1ª Formação de Tutores LIV+, realizada no início deste ano pelo Laboratório Inteligência de Vida (LIV).

 

 

 “Boa parte da escuta é assumir o risco que o outro pode mudar você. Isso pode ser extraordinário, mas abrir mão de algumas coisas é muito duro, por isso é tão difícil escutar às vezes. E faz parte do escutar você abdicar das certezas. Certeza é exercício do seu ego.”

 

 

Para nos ajudar a entender melhor esse tema, convidamos Thebas para uma entrevista ao nosso blog, que você pode conferir a seguir. Após o vídeo, você ainda pode saber mais sobre a carreira do escritor e sobre sua palestra durante o evento.

 

 

 

Vida de palhaço

Uma das grandes surpresas para quem ainda não conhece a carreira de Thebas é descobrir que, além da escrita e da atuação na sala de aula, ele também tem uma carreira de mais de 30 anos como palhaço, participando de encontros em escolas, hospitais e comunidades afetadas por problemas socioeconômicos ou desastres naturais:

“Muita gente tenta adivinhar o que sou, mas pouca gente fala palhaço […]. Eu tenho esse ser em mim. Eu sou um palhaço que escreve, um palhaço que educa. Não é um personagem. Na linha que eu investigo, palhaço trabalha profundamente investigando a si mesmo […] e se torna um escutador por natureza. O palhaço é a única pessoa no hospital, por exemplo, para quem a criança hospitalizada pode falar ‘não’. Ela não pode falar não ao médico, à enfermeira, ao medicamento, mas se ele bater à porta e ela falar não, ele não entra. Nessa hora cria-se um vínculo profundo entre eles, porque o palhaço nessa circunstância pode se dar ao trabalho de escutar a pessoa que está paciente, a necessidade daquela pessoa. Ele se conecta com suas necessidades e emoções e tenta encontrar o melhor no outro. Isso é ser palhaço”.

Brincar primeiro

Durante uma palestra cheia de dinâmicas e reflexões oferecida ao grupo de educadores de escolas parceiras do LIV+, o autor destacou a importância de retomar para a vida cotidiana o ato de brincar, mostrando como essa atividade se apresenta de maneira tão simples e direta às crianças, mas se perde no crescimento para a vida adulta. Contou, então, uma história do início de sua carreira como escritor, que acabou o inspirando ao longo da vida:

Eu tinha acabado de lançar meu primeiro livro infantil [chamado Amigos do Peito], há uns 25 anos. A editora me ligou e contou que uma escola havia adotado o livro [no currículo]. Era a primeira vez que isso acontecia. Eu me senti muito orgulhoso, me sentindo o Machado de Assis [risos]. A editora me levou a uma escola, pois parecia que algumas crianças tinham perguntas a fazer. Foi muito marcante. Eu fui para a escola e, no carro, comecei a antecipar o que ia acontecer. Todas as perguntas que as crianças poderiam fazer eu refiz na cabeça […]. Assim eu chegaria preparado. Cheguei preparadíssimo. As crianças estavam com o livro na mão, foi emocionante […]. Como eu estava ‘muito preparado’, eu falei ‘Alguém tem uma pergunta para me fazer?’. Um menino levantou a mão […] e falou: ‘A gente pode brincar primeiro?’. Eu achei aquilo demais e devolvi para ele: ‘Mas por que você quer brincar primeiro?’. E olha a sabedoria da resposta! Ele disse: ‘Eu quero brincar primeiro porque depois que a gente brinca a gente fica amigo’. Trinta anos depois eu investigo o brincar e a escuta, e acho que ninguém conseguiu traduzir uma coisa tão complexa de um jeito tão simples.”

Segundo o educador, a brincadeira tem relação direta com a arte da escuta, algo que os adultos precisam resgatar para ampliar sua capacidade de escuta lúdica. “A escuta lúdica emerge quando você se permite escutar com o coração e com o corpo”, e essa é característica da infância, afirma. “A palavra criança vem de criar. Se a gente lembrar quando a gente era criança, o que fazíamos? A gente criava e recriava o tempo inteiro”.

Quando crescemos, afirma Thebas, “silenciamos nossa criança e nossa capacidade de criar o mundo que queremos, nos condenando a viver no mundo que outro nos deu”. E completa:

“Quando entramos num estado de escuta de si, nos permitimos entrar em contato com nossas necessidades fundamentais. Se formos educados para escutar nossas necessidades, talvez comecemos a criar na escuta um campo de empatia com o outro, porque eu começo a perceber que o outro talvez não tenha sido educado para isso e talvez precise da minha ajuda para entrar em contato com suas necessidades essenciais”.

Será que escutamos ou estamos no piloto automático?

Pesquisando o tema da escuta atenta há oito anos, Thebas realizou uma série de vídeos com o objetivo de questionar se as pessoas realmente escutam umas às outras ou se estão em piloto automático. Ele concluiu até o momento que existe uma lacuna entre as pessoas, como se elas não escutassem completamente o que é dito. 

O educador acredita que essa escuta vazia vem de um histórico de educação que priorizou a fala em detrimento da escuta: “Fomos educados para falar, não para escutar”. 

“Normalmente, o professor em sala pede para levantar a mão exatamente quem deseja falar. Quem já passou por isso como aluno sabe que o professor escolhe um para falar e os demais não escutam, porque ficam pensando no que dizer. Nessa hora cria-se um vazio relacional, porque quem está falando está feliz por falar, e não por ser escutado”.

Uma possibilidade de promover empatia e escuta

De acordo com Thebas, não existem respostas prontas nem um caminho único para promover esses dois aspectos, mas é sempre importante lembrar que a aproximação requer espaço para que cada um possa falar de si. Para isso, ele destaca, é necessário perguntar antes de mais nada como o outro está:

 “Perguntar permite que eu me aproxime do outro, e quando eu me aproximo eu encontro no outro uma coisa que me pertence. Quando a gente pergunta, trocamos a competição pela cooperação, na qual que meu papel é compor e ser componente. Na cooperação somos convidados a sermos melhor do que somos. Trocamos a exaustão do debate pela maravilha do diálogo”.

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