LIV entrevista Alexandre Coimbra

Entrevista com Alexandre Coimbra: “O professor é o primeiro que precisa ser acolhido em sala de aula”

4 de fevereiro de 2022

A convite do LIV, o psicólogo Alexandre Coimbra concede entrevista em áudio sobre saúde mental, autocuidado e a exaustão que abate muitos profissionais da educação na atualidade. Confira!

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Com que frequência você se sente exausto? Para Alexandre Coimbra Amaral, a exaustão é o resultado de uma vida que combina aceleração e dificuldade de construirmos pausas sem culpa. Ou seja, “de fazermos pausas pelo direito de pausar, e não pela possibilidade de performar ou de produzir melhor depois”. 

O psicólogo do programa Encontro com Fátima Bernardes e colunista da Revista Crescer e do Portal Lunetas, trabalha esse tema em seu novo livro, A Exaustão No Topo Da Montanha. Ele afirma também que essa questão afeta diretamente os professores, algo que já acontecia muito antes da pandemia.

E foi com essa abordagem que Alexandre Coimbra palestrou na “Implantação LIV 2022 – Ensinar é Sentir”, onde ofereceu uma formação exclusiva para escolas parceiras do programa. Clique e confira um trechinho dessa apresentação no nosso Instagram

Na implantação, os educadores também puderam ver todo o material do programa, vivenciar a dinâmica das aulas, conhecer as novidades e planejar ações para o fortalecimento do pilar socioemocional. 

Após o encontro, o psicólogo concedeu uma entrevista ao nosso blog e que você pode conferir em primeira mão a seguir, em áudio e em texto:

LIV Entrevista Alexandre Coimbra

  • No seu livro mais recente, você transforma a exaustão em uma personagem que vê nossa vida do topo de uma montanha e, em outubro, você chegou a escrever para os professores uma carta assinada por essa exaustão. Considerando esse contexto, o que você acha que mais exaure os professores no cotidiano escolar?

Alexandre Coimbra – “Eu criei essa personagem no livro porque eu acho que ela é parte de nós. Ela não é uma ficção completa. Ela é ficção do jeito que ela foi construída, mas ela é uma semificção, porque está entre nós como uma característica da forma como estamos levando os dias. A exaustão é o resultado de uma vida que combina um tanto de aceleração, uma dificuldade de construirmos pausas, de a fazermos sem culpa, pelo direito de pausar, e não pela possibilidade de performar e de produzir melhor depois dela.

A exaustão é o resultado da sincronicidade de vários elementos das vidas ocidentais, que não têm a ver só com vidas urbanas, nem só com pessoas de 30, 40, 50 anos, ou nem só professores. Mas os professores estão muito envolvidos nisso, sobretudo depois da pandemia, porque precisaram se adaptar com muita velocidade a um esquema que foi o único que pode acontecer durante muito tempo da virtualização do ensino, e que tem a ver com adaptabilidade rápida a coisas que seriam muito contrárias aos métodos que as pessoas estavam acostumadas.

Mas o que exaure os professores no cotidiano escolar, independentemente da pandemia, e vamos falar agora deste momento, por exemplo, é a possibilidade de eu sempre fazer algo a mais. Assim as horas dos professores são horas que não se encerram na sala de aula.

O professor tem sempre a cabeça ligada como uma carga mental de mãe, que nunca desliga, que ele está sempre pensando em uma forma de melhorar a pedagogia dele, de acessar melhor a sala de aula e as pessoas que aquele professor atende.

É uma cabeça que está sempre ligada. Fora toda parte de planejamento e de correção de prova. Isso é um trabalho em muitos momentos não remunerado, mas mesmo que seja remunerado, ele invade o tempo que poderia ser, para um professor, o tempo do seu descanso, o tempo do seu lazer, o tempo de outras coisas”.

  • Quais caminhos você sugere para fugir dessa exaustão?

Alexandre Coimbra – “Para fugir da exaustão, não tem jeito, a gente não tem como fugir. A gente lida com ela, porque a gente está construindo uma vida e nós somos pressionados a vários formatos de vida que contribuem para a construção desse panorama exaustivo.

Então, fugir é impossível. A gente lida com essas consequências e lida com a capacidade de desenhar outro formato, outro desenho para existência que seja palatável, que seja possível de ser menos adoecedor para a pessoa. A gente precisa construir uma contracultura à cultura que gera a exaustão.

Isso é um esforço individual, um esforço coletivo, um esforço das instituições. Isso tem a ver com desenhar fronteiras nítidas entre as áreas da vida e perceber o que eu preciso fazer em mim para poder aproveitar momentos de pausa como um direito e não como mais uma tarefa, mais uma performance, mais uma atuação dentro dessa cultura de desempenhar bem as coisas da vida. Isso faz com que eu possa realmente me sentir fluindo a vida. 

A exaustão vai se transformando e deixando de ser o sintoma inevitável da vida quando a gente vai trazendo a beleza para habitar os nossos dias”.

  • Na sua palestra para a implantação do programa LIV, você menciona que o professor é o primeiro que precisa ser acolhido. Por que e como isso se reflete na vida dos alunos?

Alexandre Coimbra – “[O professor] precisa ser muito cuidado, muito acolhido, porque ele sabe que é cobrado no lugar de ser um formador de toda uma geração, de que está nos olhos dele, nos cuidados dele ou dela, sobretudo dela, pois a maior parte são mulheres, que já absorvem esse papel como mais um papel de cuidado para o qual elas naturalmente, pela cultura, estão encaminhadas. 

Além de ser uma escolha profissional, uma vocação, um desejo de construir apoio para as futuras gerações, isso é reforçado por uma cultura que coloca nessas mulheres esse lugar de protagonismo desse cuidado. “Você é responsável por cuidar”. É uma segunda carga mental. 

Pensar que essas mulheres também, no geral, têm essa carga mental de cuidado nos lares delas. Isso reflete na vida desses alunos, porque elas participam dessa construção cotidiana, às vezes com ansiedade, às vezes com irritabilidade, às vezes se sentindo muito pressionadas e projetando essa pressão sobre esses alunos.   

São manifestações muito naturais de um processo coletivo de pressão, está ali dentro de uma sala de aula pressionar por desempenho, por um monte de lados, e se sentindo exaurido por todos esses fatores contextuais. Então, a gente precisa muito abraçar essas profissionais, esses profissionais, sobretudo quando essa professora, esse professor não performar da melhor maneira” .

  • Que recomendações você oferece para os professores cuidarem mais de sua saúde mental em 2022?

Alexandre Coimbra – “Em 2022, como em qualquer ano, mas qualquer ano desta época histórica, que a gente possa entender qual é o nosso limite. E que a gente possa respeitar o nosso limite e construir diálogos dentro das instituições de ensino sobre o respeito aos limites dos professores.

E também, junto de toda a comunidade escolar, em relação às mães e pais, aos grupos de WhatsApp, toda essa nova formação de espaços para acessar o professor, que a gente possa construir com um cuidado mais compassivo com essas pessoas. Que elas tenham o direito ao descanso, que elas tenham o direito também de não performar da melhor maneira o tempo inteiro.

Eu acho que é a construção de uma cultura compassiva nos coletivos em que a gente estiver fazendo a educação acontecer, em todos os espaços em que a gente puder conversar dessas coisas, para deixar todo mundo mais preparado para acolher uns aos outros. 

As professoras já fazem o acolhimento às dificuldades dos estudantes. Mas, assim como a gente usa aquela metáfora da máscara de oxigênio do avião, eu acho que a gente pode usar para as professoras: primeiro as professoras receberem o oxigênio, a gente cuidar delas, apoiá-las e a ampará-las, para depois elas poderem fazer isso com os estudantes”.

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Um olhar para o socioemocional dos educadores na escola!

O LIV compreende a importância de olhar para a educação socioemocional de toda a comunidade escolar, os educadores, a família e os alunos. Não tem como cuidar da saúde emocional de um aluno, sem ter esse olhar cuidadoso também com quem o acompanha todos os dias.

Por isso, o programa do LIV tem com as escolas parceiras de todo o Brasil, o Percurso Pedagógico. Um acompanhamento composto por trilhas de estudos de diversos conteúdos relevantes para a prática docente em variados formatos, fornecendo capacitação para a aplicação do programa além da sala de aula e um olhar especial para o acolhimento dos educadores. Confira um pouco mais sobre esse percurso na imagem abaixo:


Quer saber mais sobre o programa do LIV? Confira todo a nossa proposta que desenvolve o pilar socioemocional nas escolas, desde a Educação Infantil ao Ensino Médio.

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

 

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