Bett Brasil 2022: Caio Lo Bianco e Vera Iaconelli falam sobre saúde mental no maior evento de educação da América Latina

Bett Brasil 2022: Caio Lo Bianco e Vera Iaconelli falam sobre saúde mental no maior evento de educação da América Latina

16 de maio de 2022

Caio Lo Bianco e Vera Iaconelli conversam sobre saúde mental e prevenção do suicídio no evento Bett Brasil 2022, considerado o maior encontro de educação e tecnologia da América Latina

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Para o educador e diretor do LIV – Laboratório Inteligência de Vida, Caio Lo Bianco, e também para a psicanalista e colunista da Folha de São Paulo, Vera Iaconelli, boa parte do sofrimento que afeta crianças, adolescentes e adultos na atualidade é causado pela ausência de espaços de escuta.

A dupla de especialistas falou sobre esse tema na plenária da Bett Brasil 2022, quando abordaram sobre as causas do sofrimento na juventude e o papel das famílias e das escolas na abertura de espaços de acolhimento a esses sofrimentos.

A seguir, você pode saber tudo sobre o encontro e conhecer mais sobre o evento!

  • Saúde mental: o que é ser saudável mentalmente?

Bett Brasil 2022: Caio Lo Bianco e Vera Iaconelli falam sobre saúde mental no maior evento de educação da América Latina

Um dos pontos citados por Caio Lo Bianco é a dificuldade que muitos adultos ainda têm de iniciar conversas sobre temas ligados à saúde mental. “São temas difíceis de endereçar e acho que é um compromisso nosso, como educadores e educadoras, enfrentar essas questões com comprometimento e entendendo nosso papel…é difícil sustentar e lidar com a angústia do outro”, destacou Caio.

Para Vera Iaconelli, parte dessa dificuldade recai na maneira como o conceito de saúde mental tem sido interpretado. “A gente supõe que o normal e o patológico são escritos em pedra, uma questão da natureza humana dada em qualquer época da história. Isso não é verdade. Há comportamentos considerados como normais em um período da história, mas que, em outros, são considerados como patologia. A gente já achou coisas normais que não acha mais”, observou a psicanalista, e destacou:

“Hoje, supomos que, para ter saúde mental, existe um lugar a ser alcançado, um lugar no qual a gente estaria sempre bem, sempre feliz, sem sofrimento. É isso que muitos pais têm desejado para os filhos, a suposição de que nós podemos alcançar um determinado fator de felicidade. A saúde mental está sendo suposta como um estado sem sofrimento, mas isso não é saúde mental. Ela deve estar ligada ao fato de como a gente consegue lidar com o sofrimento inerente à vida. Saúde mental não é ausência de sofrimento”.

Já Caio Lo Bianco aponta como os conceitos de normalidade e patologia são relativos e como vêm crescendo anualmente o número de transtornos mentais catalogados, sendo, portanto, necessário questionar se não estaríamos diante de mais pessoas adoecidas ou de uma sociedade que “patologiza” o viver. “Há casos de escolas que têm mais de um quarto de alunos com transtorno de déficit de atenção (TDAH), levando a mudar toda a estrutura da escola. Como lidar com essa problemática? O que está em jogo aí?”, pontuou.

  • O sofrimento na adolescência e o suicídio

Bett Brasil 2022: Caio Lo Bianco e Vera Iaconelli falam sobre saúde mental no maior evento de educação da América Latina

O tema do sofrimento e suicídio na faixa etária da adolescência é uma das grandes preocupações mundiais, afetando diretamente as escolas e as famílias. Nesse sentido, Vera destacou que “suicídio é um acontecimento que pode vir de diferentes lugares”, ou seja, não é causado por um único fator e sim por um conjunto de situações que afetam o indivíduo.

O suicídio envolve um gesto desesperado onde falta a possibilidade de nomear o sofrimento. Uma possibilidade de evitá-lo, ainda que não garantida, é estar disponível para o sujeito na urgência subjetiva, com canais anteriormente abertos aos quais ele possa se dirigir para pedir ajuda. Esses canais têm que ser abertos antes, pode ser o professor, o assistente da escola, uma tia, o pai, a mãe, um amigo.  O que precisa é abrir essas portas para as crianças e estar ali para eles para quando isso venha a acontecer”, disse a psicanalista. 

O diretor do LIV também comentou que não basta pensar nos espaços de escuta, mas também identificar quem são as pessoas de confiança do aluno ou da aluna. 

“Não são apenas espaços de confiança, mas também identificar quem são as pessoas de confiança do aluno, da aluna. Isso é uma coisa que a gente trabalha no LIV ao promover conversas sobre quem são essas pessoas, especialmente os adultos de confiança, para o jovem falar sobre esses temas. O suicídio ocorre quando o adolescente não se faz ouvido por outro. Por isso a importância de criar relações de confiança, que tornam as condições de fala possível, espaços de menos julgamento, que possibilitam que o jovem reconheça as questões que ele está enfrentando”, observou Caio.

Ele disse ainda que o LIV tem um olhar especial para essa questão ao promover conversas e incentivar relações de confiança que possam ajudar os jovens a enfrentar momentos de sofrimento sem recorrer a situações extremas.

“Se eu não encontro na escola um lugar para falar do meu sofrimento, ou sobre o que me deixa alegre, o que eu gosto de fazer, um lugar onde a gente possa se reconhecer no outro, entendemos que aquilo que estamos passando é só nosso. E eu me pergunto por que muitas escolas ainda resistem na criação de espaços como esses ou apostam em propostas mais diretivas, pontuando o que deve ser sentido e o que deve ser evitado, sem abrir para essas questões”, afirmou.

  • O caminho da escuta no retorno presencial às escolas

Bett Brasil 2022: Caio Lo Bianco e Vera Iaconelli falam sobre saúde mental no maior evento de educação da América Latina

Ainda durante o debate, Caio Lo Bianco pontuou que falar sobre os afetos é uma maneira de lidar com eles. “E é nosso papel estar ao lado da criança para ajudá-la a nomear esses afetos, seus sentimentos e emoções”.

Vera ponderou também que o caminho da escuta é o mais efetivo, porém, o mais trabalhoso, ainda mais quando se trata de saúde mental. “Do mesmo jeito que a gente ensina a criança a nomear objetivos, é importante saber ensinar o vocabulário dos afetos que é tão ou mais importante que o vocabulário dos objetos. Os pais ficam impactados diante da manifestação afetiva das crianças, mas esse é um dicionário que a gente tem que ter desde pequeno. E como a gente faz isso? Com literatura, ficção, filmes apropriados, teatros, assim as crianças vão aprendendo, de forma lúdica, a nomear suas experiências”, observou a especialista.

Ela disse ainda que o isolamento da pandemia prejudicou esse aprendizado, e que é preciso tempo para reconstruir novas relações. “Os jovens sabem que estamos no fim de um processo doloroso, muitos lutos ainda a serem feitos, e voltando para um mundo que não será mais o mesmo. […] Existe um processo de recuperar a experiência da sala de aula como uma experiência coletiva. Os estudantes ficaram dois anos em casa sem experiência de coletividade”.

Vera completou dizendo que a escola está em um momento desafiador e sofrido, no qual ela acabou se tornando um dos últimos lugares do exercício da cidadania e do uso coletivo do espaço. E concluiu dizendo: “Onde não existe possibilidade de diálogo, o destino da agressividade é a violência”.

  • LIV na Bett Brasil 2022

Bett Brasil 2022: Caio Lo Bianco e Vera Iaconelli falam sobre saúde mental no maior evento de educação da América Latina

O encontro entre os especialistas Caio Lo Bianco e Vera Iaconelli aconteceu durante a Bett Brasil 2022, considerada o maior evento de educação e tecnologia da América Latina. 

Além do debate, o LIV marcou presença na feira com um espaço de exposição trazendo a  “Escola Que Sente”, reforçando o debate sobre como a educação socioemocional é indispensável para o fortalecimento de relações e aprendizados mais saudáveis nas escolas. Educadores de diferentes partes do país passaram pelo estande interessados em conhecer mais sobre o programa e em criar um pilar de educação integral em suas escolas.

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Veja também:

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

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Comentários
Nelson Ferreira Machado

O assunto da educação é tão complexo. E o país tem tantas crianças e adolescentes fora das escolas que soluções as mais variadas em razão dos desdobramentos desse fato se tornam de difícil equacionamento.