Gina Vieira

“Professores que têm espaços coletivos para falar das suas experiências pedagógicas adoecem menos”, defende Gina Vieira

15 de setembro de 2021

Para a convidada do 3º Congresso LIV Virtual, um educador realiza bem seu trabalho quando se conecta afetivamente aos estudantes. Em entrevista, ela falou sobre os desafios da docência e como vê a situação da saúde mental nas escolas. Saiba mais!

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Cuidar da saúde mental dos educadores deveria ser um ponto central da educação contemporânea. É o que defende a professora Gina Vieira Ponte, graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e mestra em linguística, com ênfase em análise de discurso crítica, pela Universidade de Brasília. 

Atuando há mais de 30 anos na rede pública de ensino, ela foi idealizadora do Projeto Mulheres Inspiradoras, agraciado com um total de 13 prêmios. Com o destaque, passou a ser conhecida nacionalmente e hoje dialoga com grupos de professores nas mais diversas cidades. Deles, diz ter escutado relatos sobre uma piora generalizada na saúde mental e uma busca crescente por mais apoio emocional.

Gina concedeu uma entrevista à psicóloga e consultora pedagógica do programa LIV, Roberta Desnos, durante o 3º Congresso LIV Virtual, ocasião na qual falou sobre essa temática e defendeu melhores condições de trabalho para a categoria:

“Falar da saúde mental do professor é pensar nas questões estruturais. As condições de trabalho são decisivas para que ele tenha qualidade pedagógica, e não há qualidade pedagógica se eu sacrifico a qualidade humana das relações […]. Professores que têm espaços coletivos para falar das suas experiências pedagógicas adoecem menos”, pontuou.

No texto a seguir, você pode conferir os principais pontos da entrevista. E, ao clicar no vídeo, poderá também assistir ao evento completo.

 

 

“Eu escolhi ser professora para ser agente de mudança”

Em uma entrevista permeada por emoção e relatos pessoais, Gina Vieira iniciou contando sobre sua própria experiência na busca por maior apoio emocional. “Essa temática da saúde mental me toca muito pessoalmente, porque eu tive, ao longo da minha trajetória de vida, alguns episódios de adoecimento mental e um que foi muito marcante ligado ao meu trabalho como professora, em 2003”, revelou.

Em seu relato, ela explicou como a sobrecarga de trabalho e a dificuldade de engajar seus alunos na época a abalaram emocionalmente: “Eu escolhi ser professora para ser agente de mudança, não foi uma escolha aleatória. Mas quando eu entrava na sala de aula e tentava fazer os estudantes aprenderem, isso não reverberava. Somado às questões estruturais da sobrecarga de trabalho, eu tive um episódio grave de depressão que me obrigou a ficar um ano afastada da sala de aula. […] Esse episódio me mostrou que ser uma professora significa ser uma professora que atenta à sua saúde mental, porque adoecido ninguém vai ensinar bem”.

Ao comentar o panorama nacional, Gina citou a alta recorrência de adoecimento psíquico entre professores com os quais ela tem contato:

“Eu completei, em abril, 30 anos como professora e eu não me lembro de ter vivido uma experiência tão intensa, tão marcante, como essa da pandemia. De repente, todo mundo se vê obrigado a cumprir isolamento social em um contexto muito desafiador, sob ameaça permanente de ser contaminado por um vírus letal, de perder alguém próximo, e com a intenção de fazer um trabalho à distância sem ter sido preparado para fazer isso. E do outro lado, um estudante que não contava com as condições materiais, sociais e culturais necessárias para que esse trabalho fosse levado a termo”.

Para a educadora, esse contexto gerou novas cobranças e nem sempre a atenção pela saúde mental foi priorizada. “Eu fiquei muito perplexa em perceber que, mesmo no momento de profunda crise humana, as pessoas esquecem da necessidade do acolhimento. Não estou desprezando a importância de olhar para continuidade do fluxo da aprendizagem. Trata-se de dizer que, sem acolhimento, sem escuta e sem construção coletiva, ninguém vai aprender. A aprendizagem não é um processo neutro, é um processo atravessado por questões sociais, históricas, políticas e econômicas”, defendeu.

“Não há qualidade pedagógica se eu sacrifico a qualidade humana das relações” 

Ao problematizar os fatores que influenciam o adoecimento psíquico dos professores, Gina Vieira comentou sobre estudos do campo da formação de profissionais que apontam as questões estruturais da educação como cerne dos problemas:

“Precisamos lembrar que a base histórica da nossa educação é a base de uma educação autoritária, colonial, instrucionista e bancária, que supõe que o professor vai entrar em sala de aula e encontrar quem não sabe. Ele vai ensinar e quem não sabe será reduzido à espectador. Esse paradigma educacional está em desconstrução. Na origem da nossa educação, há a ideia de que nós somos apenas um cérebro, há um desprezo pela dimensão emocional afetiva. […] O papel mais importante do professor não é entregar um conteúdo, o conteúdo já está gravado. O papel mais importante do professor é criar situações de aprendizagem adequadas ao perfil de cada estudante e para isso eu tenho que conhecer aquele estudante, conhecer sua história e me conectar afetivamente.” 

Nesse sentido, ela diz que, embora saibam dessa importância, muitos educadores são impedidos de praticar uma mudança devido a questões estruturais como salários baixos e alta carga horária, fatores que prejudicam sua qualidade de vida:

“Provavelmente, o professor vai fazer esse trabalho com qualidade na primeira década. Porém, estudos apontam que depois dessa primeira década, o professor começa a acumular problemas que passam desde processos ligados à coluna, à voz, à saúde mental e ao esgotamento. A questão central para a gente falar da saúde mental do professor é pensar nas questões estruturais, que são decisivas para que ele tenha condições de fazer um trabalho com qualidade pedagógica. Não há qualidade pedagógica se eu sacrifico a qualidade humana das relações”.

Ao exemplificar o que seria essencial melhorar, ela citou desde a necessidade de mais tempo hábil para preparar as aulas e fazer planejamentos, como a importância de professores não serem reduzidos a “cumpridores de tarefas”, como explica: “Quando o professor se sente parte dos processos, a saúde mental dele tem mais chance de ser mantida em dia. Quando a gente é reduzido a um cumpridor de ordens de terceiros, o nosso trabalho perde potência. […] É muito ruim quando você trabalha em um ambiente onde você não se sente respeitado, onde você não se sente ouvido, onde há um tratamento privilegiado para uns em detrimento de outros, onde são cometidas injustiças”.

“Professor tem que ser alguém que transborda”

Durante a explanação, Gina falou ainda sobre o autocuidado e como ele é necessário para a manutenção da saúde mental ao longo dos anos de profissão, e completou dizendo:

“Nós temos um limite humano e se a gente não tiver cuidado de fato, podemos entregar nossa alma e não será suficiente, porque as estruturas estão jogando contra. Obrigada, aos professores e as professoras que se doaram e que se doam, mas é importante dizer: sejam gentis com vocês, tirem tempo para descansar, para estar com a família, para se desligar do trabalho, para ler um bom livro, ver um bom filme, para se nutrir. 

Eu costumo dizer que professor tem que ser alguém que transborda, de alegria, de inspiração. Mas a gente só transborda quando a gente está cheio, e quando a gente fica focado só no trabalho, a gente vai se tornando árido, vai ficando vazio. É fundamental lembrar que, antes de sermos professores e professoras, nós somos seres humanos e isso impacta a aprendizagem. Crianças e adolescentes aprendem mais com aquelas pessoas que eles admiram, e fica muito difícil admirar um professor ou uma professora que está triste, angustiado.”

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

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