Liderança e empatia: os desafios da gestão escolar em momentos de crise

10 de agosto de 2020

Estar à frente de uma instituição escolar em um momento tão difícil da humanidade, com uma pandemia, nos parece um grande desafio. Escola é um espaço onde as comunidades buscam encontrar respostas e, durante os últimos meses, os gestores escolares em posição de liderança precisaram se redescobrir para superar a crise.

Entre mergulhar na infinidade de documentos, planos, diretrizes, comunicados, circulares, boletins e atender famílias e professores, tiveram ainda, em alguns casos, que tomar duras decisões por causa da crise. Para falar sobre como essas questões podem impactar o futuro das escolas brasileiras, conversamos com a especialista em educação Lourdes Atié.

Professora e socióloga com mais de trinta anos de experiência como produtora de conteúdos e com formação de professores, Lourdes acredita que a pandemia expôs uma necessidade de mudança e que as escolas precisam manter um novo objetivo para conseguir sobreviver a tempos de crise. “O grande desafio do gestor da escola privada é fortalecer a identidade da sua escola, mostrar que ali acontece algo muito especial e que tem princípios inegociáveis”, destaca.

Por telefone, a especialista falou conosco sobre a importância de aprender com os erros nesse momento e sobre desenvolver empatia para com todos da comunidade escolar. A seguir você confere os principais momentos dessa entrevista em áudio e texto.

Reinventar a gestão escolar

Dentre todos os desafios, a questão de gerir uma escola em transformação requer um novo olhar de gestão. Para Lourdes, é nesse sentido que os líderes educacionais precisam se reinventar. “Esse tempo de pandemia foi um tempo de chamar a atenção da gente para essencializar a vida […] Tudo o que a gente está fazendo em excesso, acabou. A gente tem que fazer o justo, o necessário. Aquela escola que funcionava como um restaurante self-service, em que você oferece tudo para atender a demanda, […] após a pandemia, não vai mais funcionar”. 

De acordo com a especialista, essa reinvenção da escola passa pelo questionamento sobre o que é essencial oferecer aos alunos, sem excessos, e o que marca a identidade de cada escola. “Quando o gestor, por medo de perder o público, aceita qualquer coisa, isso vai cair no colo do professor, que vai ficar no piloto automático […], e lá na ponta final tem um aluno que não está aprendendo nada. É essa engrenagem que a gente tem que desmontar”, destacou. 

Ciclo de cobranças

Um dos reflexos da maior pressão sobre as escolas é o aumento na cobrança em relação a atuação dos professores. Durante a entrevista, Lourdes ponderou que isso já acontecia antes e que a configuração de aulas adotada pela maioria das escolas na pandemia impactou tanto escolas da rede privada quanto da rede pública.

“Os professores da rede privada, justamente por uma questão de ordem econômica, tinham que mostrar que a escola não parou, até para justificar o pagamento da mensalidade. Os professores entraram em uma linha de montagem muito intensa e com acessibilidade muito desigual. […] Por não conseguirem relativizar seus pontos de vista, acabam pressionando os alunos, mandando lição demais. Hoje a gente tem professores e alunos esgotados na rede privada”.

Já na rede pública, ficou ainda mais gritante a diferença em relação à qualidade do acesso. “A gente já sabia da profunda desigualdade do Brasil. Um país que é desigual se reflete em uma desigualdade educacional grande. […] Com a pandemia, a gente viu uma coisa muito gritante, pois as redes públicas demoraram muito a entender que fechando as escolas as crianças ficavam sem comer. Também demoraram a entender que a desigualdade no uso de tecnologias é gigantesca, com percentuais de 40% de alunos com acesso à internet. É um dado muito alarmante”.

Para Lourdes, esses novos contextos apenas potencializaram o que já acontecia antes da pandemia. “Os professores da rede privada pressionados a produzir mais e os professores da rede pública pressionados por uma angústia de não conseguir acessar seus alunos. Esse lugar de professor foi um que só potencializou o jeito que pré-pandemia lhe vem. O professor no Brasil é visto como técnico, não como profissional do conhecimento. E ele executa, mas não é ouvido, embora seja ele o condutor de todo o processo de aprendizagem de seus alunos”.

Segundo a educadora, sair da crise causada pela pandemia não será fácil, mas pior seria deixar passarem os acontecimentos sem fazer melhorias na educação. “Eu tenho receio de que a escola volte como se nada tivesse acontecido. A gente vai ter perdido uma grande oportunidade e tanto para os professores terem um protagonismo maior, os diretores fazerem um trabalho que tenha um diferencial maior na comunidade em que estão, e os alunos vão continuar muito mais cumprindo obrigações do que desfrutando do prazer de aprender”, conclui.

 

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Comentários
Tereza Cristina Jovino freire

Muito real do que foi colocado pela professora Lourde.Com uma vasta experiência e formação no campo da educação e da sociologia ela fez uma breve analize bem pertinente dentro desse desses dois campos de atuação responsabilidade da escola ..parabéns a socióloga e educador com também ao instituto LIV pela iniciativa.👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

Maria

Muito interessante a fala da professora Lourdes. De fato, é necessário encontrarmos um meio de tornar o aluno protagonista de sua aprendizagem e não meros receptores de conhecimentos. E o que falar da desigualdade educacional? Gritante!

Romina Xavier Bezerra

É fato que a pandemia trouxe diversos desafios para a educação e o nosso diferencial é ter um trabalho pautado no cuidado, na empatia. Tratar o essencial como prioridade é papel fundamental para os que fazem a comunidade escolar. A Lourdes bem colocou: "fortalecer a identidade da escola." Esse é o momento para fazermos a diferença.

Marlene Ormundo Gonçalves da Motamarlene

Achei uma excelente colocação que reflete a realidade dos acontecimentos.Sou professora da rede pública e me coloco neste lugar de trabalhar todos os dias online e as respostas são mínimas.

Eneida

Fala relevante para minha vida .