Convite ao inesperado

Por Amanda Mussauer, Mestre em Neurociências e professora, e Rani Cocenza, Professora

Domingo a noite, dia frio, família reunida em casa… ótima oportunidade para todos estarem ao redor da TV vendo um programa de entretenimento e jantando uma boa sopa de legumes. Mas de repente surge uma voz, adolescente, que diz que sopa não é janta, e que é muito melhor reunir todos ao redor da TV para assistir uma série sobre zumbis. Mas então, pergunto a vocês, alguma das duas vozes está errada?! Podemos dizer que não.

Realmente sopa em um dia frio cai bem, mas não para todo mundo. E séries também são ótimas, mas para alguns, séries de zumbis são aterrorizantes, talvez seja melhor uma de romance. Esse exemplo demonstra uma das tantas situações enfrentadas em casa onde os jovens começam a demonstrar suas preferências.

É bem verdade que a discussão sobre qual programa assistir em um domingo a noite talvez não tenha sido tão calorosa quando crianças pequenas. Mas conforme o tempo passa e eles começam a vivenciar o mundo de forma cada vez mais independente, seus gostos, desejos e sua singularidade são mais evidentes. Nesse momento você pode se perguntar: Quando ele começou a gostar disso? De onde surgiu esse hobby? Como não percebi que ele não gosta mais do mesmo estilo de música?

 A convivência em família é um desafio diário. São pessoas diferentes, que compartilham a casa, as responsabilidades, os sonhos e os obstáculos de suas trajetórias. Balancear os nossos desejos com os de outra pessoa já é complexo. Isso se amplifica com mais pessoas compõem essa família, todos (pais, mães, filhos, avós,…) precisam compreender e conviver com os interesses dos outros. Essa tarefa, às vezes, pode se apresentar de forma mais complicada, como quando o adolescente expõe uma opinião de maneira mais dura ou quando escolhas dos outros atravessam nossos valores ou expectativas.

Um ponto a se refletir é quantas vezes não nos frustramos com os gostos dos nossos filhos, não pelo interesse em si, mas pela a quebra de expectativa que vem junto dele. É comum que imaginemos aquela criança crescendo e optando por alguma profissão, esporte, referência artística, e o fato ela não ser concretizada, muitas vezes assusta. Lidar com a surpresa do filho se apresentar de forma diferente pode ser trabalhoso. Mas como será que estamos nos relacionando com essas diferenças? O quanto temos nos esforçado para buscar uma harmonia entre nossas singularidades? Ou eles precisam continuar seguindo os interesses, gostos e planos que nós imaginamos?

Não estamos aqui buscando uma resposta correta para esses questionamentos, e sabemos bem o quanto essa dualidade, entre reforçar nossas expectativas e dar liberdade para que os filhos sejam o que são, pode gerar uma angústia maior nessa etapa da vida. E tudo bem. De repente o seu filho não gosta mais das mesmas músicas que você, não compartilha mais da sua comida preferida, não anda mais com os filhos dos seus melhores amigos, aqueles que ele conheceu por intermédio seu. Ele passa a te apresentar novas bandas, um prato de comida mexicana que você nunca tinha experimentado antes, novos amigos que ele conheceu em uma festa ou ainda um filme que lançou a pouco tempo. Tudo novo de novo.

Não existe nenhum problema em os filhos apresentarem gostos e preferências diferentes da dos seus pais. Até porque, como falamos anteriormente, em uma família nós estamos lidando com pessoas diferentes (por mais que ele ou ela seja o seu bebê de 15 anos). O que talvez gere algum problema é a forma como essas divergências são recebidas em casa. A rejeição ou negligenciamento daquilo que o jovem traz de novo ou diferente para casa é um dos principais motivos do afastamento entre pais e filhos. Um livro que conta a história de vampiros talvez não fosse a sua preferência quando adolescente, mas nem por isso deixa de ser uma ótima forma de introduzir seu filho(a) no mundo da literatura. Aquela série do Netflix que ele assiste direto no quarto pode não ser tão agradável como o filme que você queria que vissem juntos na sala. Mas você já demonstrou interesse alguma vez pela série dele? Pediu que contasse sobre o que é ou propôs assistirem uma vez juntos? A convivência em casa se torna muito complicada quando essas pequenas nuances não são reconhecidas.

E ainda pensando em vivência e convivência, e visando evitar esse afastamento, podemos assumir algumas posturas. A primeira é se permitir experimentar esse mundo novo. Permita-se ouvir a música que seu filho mais escuta, ler parte do livro que ele tanto gosta ou até mesmo comer um hambúrguer domingo a noite. Essas pequenas atitudes podem te fazer transitar no ambiente dele e pode ser o primeiro passo para que vocês possam voltar a compartilhar algumas coisas em comum. Volte a viver essa experiência de buscar o meio termo entre pessoas diferentes, assim como no início do casamento.

Essa busca por um ambiente comum, ou mesmo o entendimento das diferenças, abre um espaço que demonstra o quanto o amor é um sentimento tão importante nas nossas relações familiares. Até porque é muito fácil amar e conviver os semelhantes, mas é com o diferente que a gente mais cresce e aprende.

Entender e conviver com as diferenças é um espaço de aprendizagem tanto para os pais como também para os filhos. Como diria Marcel Proust, “a verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos”, pois ainda que com gostos diferentes, os filhos serão sempre os filhos. Você tem se permitido conhecer novas coisas sob o olhar de seus filhos? Tem mergulhado no universo deles? Até porque, ser responsável de alguma criança ou adolescente nada mais é do que isso, um convite ao inesperado.