Culpa

Por Lulli Milman, Psicóloga, Psicanalista e Escritora

 

A relação entre pais e filhos vem mudando sem parar com o correr de nossa história. A família antes verticalizada, com os pais lá no topo da linha, virou horizontal, democrática. Filhos opinam, pais escutam, as crianças ganharam respeito e um lugar de fala como nunca houve. Os afetos circulam com mais liberdade e veracidade. E até mesmo os que optam por não ter filhos não são mais vistos como moralmente condenáveis, hoje não procriar é simplesmente a expressão de um desejo, uma maneira como tantas outras de gerir a própria vida. Dentro deste quadro, surgem milhares de estudos sobre a importância dos adultos cuidadores e responsáveis pela criação dos pequenos humanos. Sua construção subjetiva, olhar para o mundo, formação ética, introjeção de uma ordem moral, passam a ser creditadas ao jogo identificatório e à circulação de afetos que se passa entre esses adultos e suas crianças. Muito distante de um tempo onde o jeito de ser de um filho, suas mazelas e descalabros vinham sempre da sorte ou do azar que teriam tido seus pais. Supercomum naqueles tempos comentários do tipo “que azar que deu minha tia, seus dois filhos viraram bandidos” ou mesmo “coitado do Sr. Anastácio, agora velho, sua filha mal fala com ele”.

Hoje não é mais assim que vivemos e a primeira pergunta que nos colocamos assim que surge qualquer senão é – “Ai, o que será que fiz de errado? Ou melhor, o que estou fazendo de errado?” Entre a responsabilidade que assumiram ao terem seus bebês e a culpa paralisante, vivem os pais do início do século XXI.

E, seguindo essa linha, a origem da culpa poderia estar em tanta coisa … Trabalho demais, paciência de menos, muito tempo gasto consigo próprio, academia, corrida, aulas de aprimoramento, chopp com os amigos, afinal ninguém é de ferro, e até o super afetuoso desejo de ter tido mais um filho pode se transformar em uma fonte de culpa, “coitadinho, perdeu seu lugar, vai achar que não gosto dele”. E vão surgindo lá do fundo de nós sentimentos difíceis, será que eu devia ter tido um filho? Será que seguro este rojão? Se eu pudesse, sumia, que inveja do pessoal que vai poder sair hoje e por aí vai. Descobrimos na prática da paternidade que mesmo esse grande amor tantas vezes tremelica, que nada é absoluto e que há momentos em que nossa única paixão é mesmo por umas boas horas de sono.

No tempo da imagem retocada, da alegria total, da felicidade de Instagram, da juventude eterna, nós pais, simples pais, nos cobramos a perfeição que imaginamos em nosso vizinho. O problema é que do ponto de vista dele, nós é que somos os vizinhos!!!

Gritou muito, gritou pouco, grudou muito, largou de lado, detesta sua mania de viver com a mão na boca, não tem a menor paciência para sua dificuldade na escola, ou com sua falta de encanto por comer, não importa! O que podemos ter certeza é que todos tem seus impasses, suas dificuldades, suas pequenas decepções no dia a dia, seja conosco, com os parceiros e mesmo com as crianças. E aquela propaganda, ou aquele profissional a dizer que bons pais não se atrapalham e que devem estar noite e dia disponíveis para as crianças.

Muito facilmente nos paralisamos na culpa, na falta de carinho por nós mesmos, na frustração da ilusão da perfeição. Cedemos em tudo, abolimos nossas vidas, vivemos a um passo (ou dentro) da depressão ou de uma estafa do cotidiano ou partimos para uma guerra doméstica onde se fecham os caminhos do entendimento e do acolhimento.

Na família horizontalizada as crianças ganham voz e os pais ganham vida. Deixam de ser intocáveis, não são mais imagens da perfeição. Ganham a condição de seres humanos, com um estilo próprio de criarem seus filhos, com o orgulho da responsabilidade que assumiram ao decidir tê-los. Responsáveis sim, naufragados na culpa, não. A simples flexibilidade e reflexão que podemos ter com relação aos nossos erros, sejam eles verdadeiros ou imaginários, já nos tiram da paralisação da culpa e nos ressituam no terreno da responsabilidade.

Se não temos mais as garantias formais que uma família hierarquizada nos dava, temos no século XXI a possibilidade de construir garantias baseadas na responsabilidade por nossas escolhas, no respeito pelas crianças que criamos, nos afetos que trocamos, em nosso jeito de estar no mundo. Agora está em nossas mãos!