Cyberbullying: violência na palma da mão

Por Joana London, Psicóloga

Zombação, deboche, brincadeira, chacota, implicância ou zoação, independente da região do País, da geração ou classe social, você já teve contato com alguma dessas palavras ou com algum outro sinônimo para essa ação. Provavelmente se lembrará, com facilidade, de alguma vez que passou por essa desagradável experiência de ser sacaneado. Também não será muito dificil lembrar de alguma vez que praticou esse ato, que pode ser lembrado com arrependimento ou com graça.

Por mais que, no senso comum, esses termos pudessem ser usados independente da intensidade da ação, eles dizem sobre um movimento natural e, às vezes, até saudável, das pessoas se relacionarem. Depois do ápice da brincadeira e da inicial insatisfação, muita gente lembra dessas histórias com alegria e até com saudosismo. São brincadeiras que depois viram história pra contar e lembrança para resgatar nos encontros dos velhos amigos.

Todo esse cenário pode ser harmônico, se todas as partes estão verdadeiramente se divertindo. Mas, quando a brincadeira ganha aspas e passa a ser algo repetitivo, violento, humilhante e intencional, é importante usar o termo técnico, estudado e fundamentado, para nomeá-la, o tão conhecido Bullying; pois é necessário levar o assunto a sério.

Com a grande difusão desse conceito, é comum ouvir adultos reclamando que “na sua época não tinha essas frescuras” ou que “o bullying sempre existiu e que todo mundo lidava com isso”. Para começo de conversa, é necessário saber o seu real significado, que segundo a Lei nº 13.185, em vigor desde 2016, classifica o bullying como intimidação sistemática, quando há violência física ou psicológica em atos de humilhação ou discriminação. A classificação também inclui ataques físicos, insultos, ameaças, comentários e apelidos pejorativos, entre outros. Além disso, é importante entender que esse ato, sempre está associado a uma afirmação de poder interpessoal por meio da agressão.

Talvez o fato de haver uma lei ou um dia mundial de combate ao bullying, 20 de Outubro, faça algumas pessoas levarem esse problema mais a sério. Pois as instituições de ensino não devem ser só cobradas de controlar e solucionar esse aumento gritante de violência em seus espaços físicos, elas precisam ser incentivadas e receber apoio de toda comunidade escolar, para que a cultura institucional tenha o olhar atento para reconhecer essas situações e estar pronta para acolher as pessoas envolvidas.

A questão é que essa problemática ultrapassou os muros da escola e a nova preocupação pode estar na palma da mão. Com o exponencial crescimento da acessibilidade à internet, as barreiras de comunicação quebradas, a aproximação das distâncias físicas, a comunicação e interação tomaram proporções inimagináveis. É inevitável reconhecermos os pontos positivos desse feito, porém é preciso olhar com atenção para os efeitos colaterais apresentados.

Os nativos digitais, ou seja, pessoas cujo seu desenvolvimento social e biológico se deu em contato direto com a tecnologia parecem ter mais facilidade de lidar com tanta mudança, o que muitas vezes pode gerar um conflito geracional dentro de casa. Mas nem sempre ter mais facilidade significa fazer do melhor jeito, ainda mais porque não é possível denominar uma maneira certa de se comportar no ciberespaço.

Dentro desse ambiente virtual pouco se fala sobre limite e com isso, muitas fronteiras são invadidas, principalmente quando trata-se das relações interpessoais. Nessa junção de falta de limite e pessoas desorientadas, abre-se um espaço para o cyberbullying. Que seria a utilização das ferramentas tecnologias de comunicação para realizar o bullying, nesse espaço virtual, de forma intencional, repetida e excludente.

Esse movimento pode aparecer de algumas formas, como: as ameaças, ou seja, com mensagens intimidadoras; o assédio virtual, que tem como objetivo insultar a vítima; a identidade virtual, onde a pessoa se aproveita da internet para se fazer por outra, usando seus dados pessoais com intuito de constranger; entre outras.

Por mais que o bullying, em alguma medida, continue acompanhando a vítima independente dela estar próxima do agressor, pois o sofrimento não deixa de se fazer presente, há alguma possibilidade de respiro em outros ambientes saudáveis que essa criança possa estar rodeada. Mas um dos grandes desafios do cyberbullying é que a humilhação pode continuar acompanhando a pessoa, independente dela estar trancada sozinha em seu quarto. Além disso, com a possibilidade de anonimato que a internet viabiliza, fica mais difícil reconhecer o agressor, gerando ainda mais ansiedade na pessoa que está em sofrimento.

Por mais que o caminho mais comum para evitar o envolvimento dos filhos em situações como essas seja o da censura e limitação de diversos acessos, o tiro pode sair pela culatra, pois eles podem, justamente, encontrar no ciberespaço um lugar para descumprir combinados e romper regras. É importante pensar nessa limitação com cuidado e colaborativamente, para que eles além de uma regra, compreendam o sentido dela e entendam a seriedade do problema.

Além da preocupação com as relações físicas e pessoais, as famílias de hoje precisam ter a preocupação com as relações virtuais. Porém, o principal ponto de atenção continua sendo o filho, a sensibilidade de reconhecer possíveis mudanças de comportamento, o excesso de qualquer aparelho eletrônico, a importância de criar espaços de diálogo onde se sintam seguros para que exponham o que estão sentindo, todas essas são ótimas formas de prevenir qualquer vivência mais desagradável.

Mas caso o jovem sofra em alguma situação de violência, reflita sobre algumas dicas que podem ser úteis para lidar com a situação:

– Reconheça a coragem dele falar sobre o que está vivendo
– Escute-o com atenção sobre os detalhes e como está se sentindo frente a situação, tentando descobrir o máximo de informação.
– Estabeleça um vínculo de empatia com ele, mostre que o que estão fazendo é errado e se coloque a disposição para ajudá-lo
– Não culpe nem repreenda seu filho por estarem vivendo a agressão.
– Use esse desafio como uma oportunidade de reflexão a dinâmica familiar, entenda como vocês podem ajudar nesse processo.
– Não incentive qualquer reação violenta, isso não acabará com o problema e pode agravar a situação.
– Por mais difícil que seja, regule suas emoções. Os institutos protetores podem falar mais alto nesse momento, mas eles devem ser cuidados para não agravar o problema. Fale com a escola ou outras instituições envolvidas para colaborar nessa resolução.