EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DA LIBERDADE – PELO RESPEITO À DIVERSIDADE E PELO DIREITO DE AS CRIANÇAS SEREM QUEM ELAS SÃO

Por Gina Vieira Pontes

Se pararmos para pensar por alguns minutos sobre tudo o que nos cerca, vamos ficar surpresos com o quanto o mundo é diverso. A natureza é diversa: cada espécie de planta, cada bioma, cada animal e cada ser vivo trazem peculiaridades que os tornam únicos. E nós, como parte desse grande universo que compõe a natureza, também somos diversos. Somos brancos, negros, indígenas, de silhueta longilínea, de cabelos lisos ou cacheados, de madeixas encaracoladas ou crespas, com olhos puxados ou bem arredondados – cada um de nós traz uma existência única, tanto pelas características físicas, quanto pelas especificidades emocionais, psicológicas, afetivas e sociais. Todos nós somos um universo singular.

 

E é essa diversidade que nos constitui que pode tornar a vida muito mais interessante, rica e vibrante. O fato de sermos pessoas física e emocionalmente diferentes nos desafia, todos os dias, a ter sempre algo novo e surpreendente para aprender sobre nós mesmos e com o outro. E, ao contrário do que possamos imaginar, isso não é algo peculiar apenas aos adultos. Para cada criança, antes mesmo de nascer, quando ela está em processo de formação, cada nova célula que a constituir vai torná-la, desde o primeiro minuto de sua existência, um ser único.

 

Ao longo dos meus 28 anos como professora, conheci tantas crianças, e tão diversas! E percebi que a nossa maior responsabilidade, como adultos e educadores, é respeitar exatamente quem elas são, sejam quem forem. Temos a tendência de padronizar as pessoas. Tendemos a categorizar, classificar ou hierarquizar as características das crianças, principalmente quando elas estão em grupos, em sala de aula, ou quando têm irmãos e primos. O que muitas vezes é apontado como “diferente” em uma criança apenas representa o que ela é. A maneira como as pessoas do convívio daquela criança nomearem e significarem a característica dela terá uma enorme influência em relação a como ela vai olhar para si mesma.

 

Eu, por exemplo, algumas vezes fui vista como uma criança “esquisita” porque ficava muito absorta nas tarefas escolares. Passava horas sozinha, entretida com os meus brinquedos imaginários e os meus livros. Às vezes, quem estava por perto não compreendia. Com o passar dos anos, descobri que eu era apenas uma criança muito curiosa, cheia de perguntas e de vontade de aprender, e que, às vezes, em nome de aprender, ficava mergulhada no meu mundo particular. No entanto, a maneira como essa característica foi nomeada poderia ter me feito acreditar que eu não era uma criança suficientemente boa para os critérios dos adultos.

 

Se os sujeitos são únicos e diversos, imagine o efeito disso em nossa cultura. Sobretudo em um país de dimensões continentais como o Brasil, que recebeu influência de tantos povos diferentes na sua constituição, imagine como a nossa cultura é diversa, variada e rica, e quão importante é que, desde cedo, os mais novos aprendam a lidar com essa cultura e com pessoas que sejam diferentes deles.

 

Isso é importante principalmente porque, durante muito tempo, as diferenças entre as pessoas muitas vezes foram (e infelizmente ainda são) transformadas em desculpas para que determinados grupos sofressem violações de direitos. É o caso dos indígenas e dos negros, por um longo período, foram considerados desprovidos de alma, desumanizados e explorados. Essas crenças na superioridade de certos grupos em detrimento de outros tiveram tanta força que definiram toda a geopolítica e a história do mundo. O mundo que somos hoje, do ponto de vista político, econômico, social e cultural, também é resultado do fato de que determinados grupos foram categorizados por outros como inferiores e subjugados a partir disso.

 

Por esse ângulo, se o que queremos é promover uma educação que permita a cada criança viver em plenitude o que ela é, tendo o direito de exercer a sua singularidade, sejam quais forem as suas características, precisamos refletir isso desde cedo no ambiente que estamos proporcionando a elas. No caso das crianças, as palavras convencem, mas o exemplo arrasta.

 

Quando nós, adultos, nos relacionamos com a diversidade de forma adequada e respeitosa, os mais novos tendem a fazer o mesmo. Quando a criança se sente valorizada e incentivada a ser quem é e tem as suas características respeitadas, ela entenderá, pela vivência, o quanto todos nós ganhamos ao construirmos um mundo em que a diversidade seja celebrada como nosso maior bem e riqueza.