Educar para a vida

Por Lourdes Atié, Socióloga e educadora

A pesquisadora estadunidense Julie Lythcott-Haims, autora do livro Como criar um adulto, apresenta um quadro embasado emum artigo de 2012 de Lindsay Hutton, editora-adjunta da Family Education Network, que contém uma lista de coisas que os filhos devem ser capazes de fazer por conta própria, espécie de guia para que possamos avaliar o grau de autonomia deles. Para garantir uma visão panorâmica, vamos reproduzir o quadro completo aqui, e não apenas a parte que diz respeito à fase que estamos abordando (no caso, a pré-adolescência e o início da adolescência).

AMOSTRA DE COMPETÊNCIAS BÁSICAS QUE AS CRIANÇAS DEVEM DESENVOLVER

De 2 a 3 anos: PEQUENAS TAREFAS DOMÉSTICAS E CUIDADOS BÁSICOS COM A APARÊNCIA
• Guardar os próprios brinquedos.
• Vestir a si mesmo (com alguma ajuda).
• Colocar as roupas no cesto após se despir.
• Tirar os restos do prato após as refeições.
• Ajudar a colocar a mesa.
• Escovar os dentes e lavar o rosto (com ajuda).
• Comer sozinho (inclusão nossa).

De 4 a 5 anos: NOMES E NÚMEROS IMPORTANTES QUE SE REFEREM À SEGURANÇA
• Saber seu nome completo, seu endereço e seu telefone.
• Saber fazer uma ligação de emergência.
• Desempenhar tarefas domésticas simples, como limpar a mesa após as refeições.
• Alimentar animais de estimação.
• Identificar termos referentes ao dinheiro e compreender, de forma rudimentar, como ele é utilizado.
• Escovar os dentes, pentear o cabelo e lavar o rosto sem ajuda.
• Ajudar na lavanderia com tarefas básicas, como guardar as próprias roupas e levar as peças sujas para lá.
• Escolher as roupas que vai usar.

De 6 a 7 anos: TÉCNICAS BÁSICAS DE CULINÁRIA
• Misturar, agitar e cortar com uma faca cega.
• Preparar refeições básicas, como um sanduíche.
• Ajudar a guardar as compras.
• Lavar a louça.
• Usar, com segurança, alguns itens básicos de limpeza doméstica.
• Arrumar o banheiro após a utilização.
• Fazer a cama sem assistência.
• Tomar banho sem supervisão.

De 8 a 9 anos: ORGULHAR-SE DOS PERTENCES PESSOAIS
• Dobrar as próprias roupas.
• Aprender técnicas elementares de costura.
• Cuidar dos brinquedos usados ao ar livre, como bicicleta ou patins.
• Cuidar da higiene pessoal sem que alguém o mande fazê-lo.
• Usar a vassoura e a pá de lixo adequadamente.
• Ler receitas e preparar refeições simples.
• Ajudar a fazer uma lista de compras.
• Calcular e dar troco.
• Anotar recados telefônicos.
• Ajudar em tarefas simples de jardinagem, como regar os canteiros e remover ervas daninhas.
• Levar o lixo para fora de casa.

De 10 a 13 anos: GANHANDO INDEPENDÊNCIA
• Ficar em casa sozinho.
• Ir às lojas e fazer compras sozinho.
• Trocar a própria roupa de cama.
• Usar a máquina de lavar e o secador de roupas.
• Planejar e preparar uma refeição com vários ingredientes.
• Usar o fogão para grelhar ou assar alimentos.
• Ler rótulos.
• Passar as próprias roupas.
• Usar ferramentas manuais básicas.
• Cortar grama.
• Cuidar de irmãos ou vizinhos mais novos.

De 14 a 18 anos: MAIS HABILIDADES AVANÇADAS SÃO APRENDIDAS
• Realizar limpezas e tarefas de manutenção doméstica ainda mais sofisticadas, como trocar o saco do aspirador de pó, limpar o fogão e desentupir calhas.
• Levar o carro para abastecer, encher e trocar pneus.
• Ler e entender rótulos e dosagem de remédios.
• Candidatar-se e conseguir um emprego.
• Preparar e cozinhar refeições.

Ao ler esta lista, os pais vão pensar que estão agindo errado, pois não conseguem enxergar seus filhos nela. Com certeza, sabemos que as crianças e os jovens brasileiros não realizam nem a metade dessa lista. De qualquer forma, isso vale para refletir sobre como estamos preparando nossos filhos para a vida. Porém, cabe, também, um alerta: esse quadro não é uma regra a ser seguida, mas serve para pensarmos que autonomia se constrói ao longo da vida, iniciando cedo. Senão percorremos um caminho gradativo com determinação, fica muito difícil, e, às vezes, impossível, fazer com que um adolescente, por exemplo, arrume seu quarto, se nunca precisou arrumar nada até essa idade.

Em vários países da Europa, no Japão e nos EUA, com exceção dos mais ricos, que dispõem de diversos empregados domésticos, todos que habitam a mesma casa, geralmente, assumem tarefas proporcionais à idade desde muito cedo. No Brasil, onde estamos acostumados a ter diaristas ou empregadas domésticas, nossos filhos não aprendem a fazer nada em casa, sendo educados como se, nela, fossem turistas. Eles não se comprometem com o coletivo, que é viver em família e saber cuidar do que é de todos e daquilo que é específico desta comunidade chamada família. Tudo está pronto para eles; tudo é feito para eles. Todos seus desejos são realizados sem esforço próprio. Caso eles viajem para um intercâmbio internacional, por exemplo, com hospedagem em casa de família, se depararão com um grande problema: não conseguirão se comprometer com tarefas elementares da vida doméstica. Aquilo que fizemos para lhes oferecer conforto acaba se tornando um problema fora de casa. Será esse o caminho correto para sua autonomia e sobrevivência?

Esse assunto fez sentido? Então, comecem hoje a conversar, em casa, sobre o que significa compartilhar um espaço doméstico, e montem um quadro de tarefas para todos. Nesse quadro, coloquem tudo que precisa ser cuidado por todos e distribuam o que cabe a cada um, como responsabilidades semanais ou mensais. Combinem um dia para verificar o que foi cumprido e o que não foi. Determinem coletivamente as sanções pelo não cumprimento das obrigações. Sejam firmes. Isso não é um jogo; é educar para saber viver em qualquer ambiente coletivo. Fazer juntos pode dar trabalho, mas serve para construir responsabilidade.

É difícil, certamente, mas é uma experiência de cuidado que fica para sempre.