Precisamos falar sobre a culpa

Por Paula Salaverry, Psicóloga e Consultora Pedagógica do LIV

Não é fácil ter filhos, não mesmo. Junto com o nascimento desses pequenos seres e do enorme amor que eles trazem para a vida das famílias, muitas vezes nasce também outro sentimento, que vai mudando de forma, mas que, de um jeito ou de outro, parece estar sempre lá: a tal da culpa. Ao nos tornarmos pais e mães, quase que automaticamente somos invadidos pelo fantasma de que estamos errando, faltando de alguma forma, deixando de fazer ou fazendo demais.

Não teve o parto que queria, não conseguiu amamentar, teve babá, trabalha demais, entregou o celular para poder jantar, foi muito rígido, ou, ao contrário, muito liberal, gritou, desejou que eles sumissem por um tempo, ou, quem sabe, até se arrependeu de tê-los por um momento.

Tudo o que acontece na vida dos filhos, principalmente suas escolhas erradas e suas dificuldades, parece apontar para os culpados: os pais. Por que a responsabilidade de cuidar e educar se reflete em tanta culpa? De onde brota esse sentimento que parece nascer junto com a parentalidade, na nossa cultura, mais especificamente com a maternidade? Por que, apesar das mudanças nas estruturas familiares nos últimos anos, com homens cada vez mais participativos e dividindo as tarefas, a realidade ainda é bem mais pesada para as mulheres? Ainda somos consideradas as grandes responsáveis pela criação e felicidade dos filhos, e essa alta conta chega por todos os lados – são cobranças sociais que, internalizadas, se tornam cobranças das próprias mulheres.

Em nossa cultura, há a idealização e a romantização da mãe como um ser forte, que tudo aguenta e de tudo abdica em nome da realização e da felicidade do filho, que completará sua existência. Ainda falamos em instinto materno, como se o destino biológico de toda mulher fosse necessariamente a maternidade, e ai de quem questione a natureza! Quando essa mulher, já mãe, se depara com as enormes dificuldades dessa função – como exaustão, tédio, solidão e inseguranças –, um grande sentimento de fracasso pode tomar conta.

Em manuais sobre como criar filhos perfeitos, são vendidas as fantasias sobre crianças que não dão trabalho, que sempre se comportam e não fazem manha. Essas fórmulas e receitas não levam em consideração a experiência singular de cada um dos responsáveis na relação única com aquele filho que é o seu. Em meio a cobranças e comparações, o sentimento de incompetência acaba se tornando inevitável e deixamos de perceber tudo o que estamos de fato dando e provendo para eles.

E eles, os filhos, será que nos culpam também pelas nossas imperfeições? Afinal, do que necessitam para se desenvolver e crescer? O psicanalista inglês Donald Winnicott traz um conceito interessante para pensarmos a relação com os filhos: o de mãe suficientemente boa. Para ser suficientemente boa, não é preciso estudo, manual, teoria; também não é necessário, e nem desejável, que a mãe (ou pai, importante frisar) sejam perfeitos, sem falhas. Tão fundamental quanto os momentos de proteger, prover e oferecer, são também os momentos de olhar para o lado, para a própria vida, para o companheiro, para o trabalho e o lazer, sem achar que, com isso, estamos faltando com “as crianças”.

Ao nos libertarmos da culpa pelas nossas escolhas, liberamos também nossos filhos para construírem seus próprios caminhos. Porque ser tudo para alguém é muito pesado, exigente e gera culpa. Como se lançar no mundo, percorrer seus sonhos e estradas de independência se o medo de magoar e desapontar os responsáveis é tão grande que pode paralisar as ações? Assim caminha o ciclo da culpa. A culpa não nos faz educar melhor, nem ser os melhores pais. Ela, ao contrário, pode se tornar uma herança pesada demais para nossos filhos carregarem.