Frustração

Por Lulli Milman, Psicóloga e psicanalista

A expectativa e a frustração são companheiras inseparáveis pois, e isso já sabemos, quanto mais esperamos mais nos frustramos pela não realização dessa expectativa.

A decisão de ter um bebê é talvez, um dos momentos mais cheios de expectativas de nossas vidas, que pessoa será nosso filho? Que pais seremos nós? Os sonhos são infinitos, sobre eles, sobre nós. Impossível não sonhar, afinal sonhos também moldam nossos caminhos e nossa relação com as crianças. Esperar o melhor é uma parte importante na construção do melhor.

No entanto, é preciso atenção! A conta dos sonhos, dos desejos realizados, mesmo em uma relação tão especial como a de pais e filhos, nunca se completa. Um filho super ótima pessoa, um pai super legal, tem inevitavelmente aspectos que ficam aquém das tais expectativas e sonhos iniciais.

E se não acontece já no início, seja por um bebê trabalhoso, seja por um casal esgotado com seu cuidado, o desenrolar da vida vai trazendo situações novas que muito facilmente podem nos confrontar com a possibilidade de não correspondermos ao que desejávamos. No nosso caso, mais uma destas novas etapas se coloca – a entrada no ensino fundamental II! Provas mais complexas, construção de uma relação diferente com os professores, puberdade, entrada na adolescência, autonomia ampliada, a demanda é de novos pais para novos filhos. Os filhos “nosso bebê” já se foram, os pais dos “mas ele ainda é um pouco pequeno” também estão partindo. O que não deixa de ser um grande alívio. Chegamos até aqui, passamos agora para uma das últimas etapas da construção de um ser humano, íntegro, dentro das limitações de seu universo humano.

Ótimo nas relações pessoais? talvez meio decepcionante nos esportes. Bom em matemática? péssimo em gramática? Super carinhoso, detesta tomar banho. Só pensa em joguinhos mas como dá alegria à avó! E por aí vai… Eles não darão conta de tudo, e tantas vezes ficam mesmo super tristes com sua própria limitação. Como é bom ter um adulto cheio de empatia ao seu lado nessas horas! Outras vezes, sem tristeza, achando que é isso mesmo, meu estilo, minha forma de ser, minha incapacidade/ limitação, mas que me pertence e não aos meus pais. Distinguir o que é uma expectativa sua e não um desejo ou habilidade dos filhos é a primeira tarefa dos pais para ajudarem seus filhos com suas frustrações, é isso o que ele quer e pode? ou você está apenas a serviço de sua dificuldade com suas próprias frustrações? Ter a sensibilidade de separar um do outro para assim, em sua própria integridade, estar ao lado do filho nos momentos mais difíceis. Não esperar deles o que não podem alcançar, aprender a amá-los como são, acompanhando e apoiando o desenvolvimento de suas habilidades.

Conversar, conversar muito, trocar ideias, falar de si, são atitudes não só fundamentais, mas extremamente prazerosas. Contar seus fracassos, suas frustrações. Seus sonhos quando tinha sua idade, sem sufocar, criando identidades e identificações. Partilhar sua humanidade com seus filhos, um “poxa filho, foi chato mesmo a nota baixa depois de tanto estudo”, “imagina que quando tinha sua idade, troquei de colégio e demorei a me enturmar na nova escola”, “fiquei três dias de castigo porque briguei com meu irmão, o vovô era fogo!” “O melhor dia da minha infância foi quando ganhei minha bike”. Coisas da vida, simples expressões de nossa história, afetos que contrabalançam com alegria as inevitáveis frustrações que nos acompanham.