Manual de instrução para uso da liberdade

Por Equipe Liv

Atenção 1: Por conta da complexidade do “produto” em questão, advertimos que as instruções não garantem resultados precisos, mas auxiliam no seu alcance. Leia atentamente o manual e busque refletir a respeito com pessoas que também estão experimentando o uso da liberdade.

Atenção 2: A sensação de liberdade pode ser maravilhosa, mas sua má utilização pode acarretar a perda da mesma. Faça uso da liberdade com cuidado, e ela se ampliará. “Ser livre não é fazermos aquilo que queremos, mas querer aquilo que se pode.” Jean-Paul Sartre

Fascínio e medo. Talvez sejam duas das principais sensações que vêm à tona quando pensamos em liberdade. Fascínio pela possibilidade de fazer o que quiser e medo (talvez nosso, talvez da nossa família) justamente pelo mesmo motivo. Mas será que a liberdade é isso mesmo? Será que é poder fazer o que eu quiser?

Imagine entrar em um restaurante cheio de dinheiro no bolso, sem qualquer restrição alimentar, e ver aquela longa lista de diferentes refeições do cardápio sabendo que pode comer o que quiser… Uau! Liberdade! Mas, veja bem, é fisicamente impossível comer tudo o que quiser. Um ou mais pratos poderão ser selecionados, mas, provavelmente, não todos. E assim é a vida; o número de possibilidades que a gente tem é muito maior que o número de coisas que, de fato, a gente faz. Então, “ter liberdade” é diferente de ser livre, porque ser livre implica fazer escolhas. Com isso, chegamos à primeira grande e importante consideração para o uso da liberdade: é preciso escolher.

Com esse passo concluído, já seguimos imediatamente para o segundo: para escolher um prato, vou ter que deixar de lado todo o resto do cardápio. Ou seja, para ser livre, é preciso abrir mão das demais escolhas possíveis. Por isso, é muito complicado, dolorido e, às vezes, frustrante. É como ter duas festas no mesmo dia e no mesmo horário. Se escolho uma e fico pensando na outra, não tenho nenhuma das duas. Não aproveito a escolha que fiz, muito menos a que não fiz. Fico aprisionado no “e se?”.

Então, para fazermos um uso proveitoso da liberdade, é recomendável que deixemos um pouco de lado as outras opções e permitamos que o caminho escolhido possa nos apresentar suas paisagens, mesmo que passemos por dias nebulosos. Ou, quem sabe, podemos até aprender a dançar na chuva e no frio!

Um uso proveitoso da liberdade não é a pessoa só fazer o que gosta (uma hora isso se esgota), mas aprender a gostar do que faz. Dar-se tempo para descobrir o prazer de algo é permitir que aquilo possa crescer. Restringir a liberdade por um tempo permite que ela se expanda depois. Imaginemos uma criança diante de um piano pela primeira vez; ela cheira, passa a mão pela sua superfície e aperta as teclas de todas as maneiras que conseguir, produzindo sons diversos. Mas, certa hora, ela cansa e passa para outra distração. E assim vai, de galho em galho.

Um dia, um pouco mais crescida, ela decide abdicar da sua total liberdade para se dedicar ao estudo do piano. Por meio da disciplina, ela começa a dominar as técnicas, as notas e os acordes e, finalmente, passa a fazer música, começa a libertar a música e, consequentemente, se libertar. Com esse domínio técnico, adquirido com tempo, disciplina e restrição de liberdade, a chance de se entediar diminuiu, e sua liberdade diante do instrumento aumentou consideravelmente.

Mesmo com tudo isso, a obrigação de fazer uma escolha e ter de abdicar de outras parece não ser uma situação muito libertadora, não é mesmo? Mas a liberdade é contraditória assim mesmo; sem limites, ela não existe. Estranho? Então leia esta história: Um Sultão, após ficar preso durante muitos dias no labirinto de Creta a mando do Rei Minos, resolve se vingar. Captura o Rei e o deixa no meio do deserto, “o labirinto da Arábia”. Minos olha para todos os lados; nenhum limite, nenhuma parede. Sem saber para onde ir, começa a andar em qualquer direção e, depois de um tempo, se depara com algumas pegadas na areia. Para seu espanto, eram as suas próprias pegadas!

Onde não há limites, não há referências, e, portanto, não é possível fazer escolhas. E, assim, concluímos mais uma característica importante: a ausência de limites também aprisiona. Mas será que os limites sempre estarão presentes? Sim. Mas nem sempre eles são identificáveis. Voltemos a Creta e ao seu labirinto. Dédalo e Ícaro, seu filho, estão presos há 10 anos no labirinto que o próprio Dédalo construiu. Sabendo que seria impossível sair de lá porque, a pedido do Rei Minos, o tal labirinto deveria ser construído de tal maneira que a saída jamais fosse encontrada, Dédalo constrói dois pares de asas com as penas de pássaros e a cera de abelhas coletadas ao longo dos anos por lá. Depois de prontas, o arquiteto fala para o filho: “Ícaro, quando experimentar essas asas, você vai entrar no gozo do uso de uma liberdade muito grande, vai poder voar suficientemente alto para ultrapassar os muros do labirinto, e, para todos os lados, o mundo estará aberto, sem muros. A experimentação de liberdade será euforizante. Nessa travessia, porém, tome cuidado; se você voar baixo demais, é provável que os respingos do mar encharquem as penas, tornando-as pesadas e fazendo você cair na água e morrer, por não saber nadar. Por outro lado, se voar alto demais, o calor do Sol pode derreter a cera e as penas podem se desprender, deixando-o cair também. Só que esse ‘alto demais’ ou ‘baixo demais’ varia, se o mar estiver agitado ou calmo, se o dia estiver quente ou nublado. Os limites estão lá; só não são visíveis como os muros do labirinto.”

Na vida, os limites podem estar invisíveis, impalpáveis ou, pior, inconstantes. Por isso, fixemos mais uma dica valiosa neste manual: não tente adivinhar onde o limite está, pois só saberemos exatamente quando o ultrapassarmos. E, nesse momento, será tarde demais. Por outro lado, quando percebemos nossos limites e os respeitamos, temos a oportunidade de saborear a conquista de ampliá-los aos poucos – como na história em que a criança supera os limites ao aprender a tocar piano.

Ser livre é poder escolher com o que quero me comprometer, e tenho certeza de que o maior medo que bate nessa hora é o de se arrepender das escolhas feitas. A gente nunca pode ter certeza; a liberdade sempre comporta um risco. O que podemos fazer é escutar, o máximo possível, os outros, o mundo, o tempo das oportunidades e a nós mesmos. Além disso, perguntar quais são as possíveis consequências da minha escolha (sonho ou desejo) e se ela cabe neste mundo. Mundo que é compartilhado, que é de todos. E, se não der certo, começar novamente; por que não? Sempre ouvindo a si e ao mundo. Todos. Os outros. Nós mesmos.

Você deve estar achando estranho que, neste manual, não contemplamos aquela famosa frase: “Minha liberdade termina quando começa a do outro”. Talvez porque queiramos trazer a perspectiva de que o outro não precisa necessariamente ser aquele que me limita, mas também o que me liberta. Se somos capazes de ouvir e ter empatia, somos capazes de estabelecer acordos. E isso é libertador. Se minha liberdade é limitada e a sua também, a nossa, conjuntamente, pode se ampliar e nos ampliar. Compartilhar sonhos e dividir limitações pode nos levar a lugares incríveis e tornar os muros cada vez mais distantes. Experimente!