Como escutar as mensagens por trás das lesões autoprovocadas por adolescentes

Por Edson Sassege, Psiquiatra e Psicanalista

Ao contrário do que se propaga com frequência, o ato de se cortar superficialmente – que se tornou bastante difundido, sobretudo entre adolescentes do gênero feminino – não é, na maioria dos casos, indicativo de uma tentativa de suicídio. As mais recentes classificações psiquiátricas denominam esses atos como nonsuicidal self-injury (automutilação não suicida), o que inclui o cutting (cortes) e outras modalidades de ações que, deliberadamente, provocam dor e lesões nos tecidos corporais (queimaduras, mordidas etc.) sem a intenção de suicídio.

Essas lesões autoinflingidas podem ter diversos significados. Podemos dizer que, hoje em dia, reverberam como uma forma de alívio da ansiedade ou para dar visibilidade ao sofrimento psíquico. Isso não quer dizer que sejam ações sem consequências – pois apontam para algum tipo de sofrimento – ou que não devemos dar importância a elas. Contudo, antes de indicar o que é possível fazer para ajudar os jovens que apresentam esse tipo de comportamento, é interessante pensar nos problemas que atingem a juventude no mundo contemporâneo como um todo.

Em um contexto de mudanças sociais aceleradas, questões como gênero, precarização do trabalho, revolução digital, questionamento do processo de educação e das relações familiares devem ser levadas em conta se quisermos falar da saúde mental dos adolescentes.

Atualmente, os mais novos participam de um campo privilegiado de experimentos, com descobertas positivas, mas também com a novidade de estarem em um mundo no qual algumas estruturas sociais foram ressignificadas. Em paralelo, os adultos têm uma difícil tarefa ao desviar os jovens dos percalços das gerações anteriores, pois os desafios contemporâneos são diferentes. Existe, no panorama atual, a exigência de educá-los livres de problemas emocionais e sociais, para que possam ser capazes de obter sucesso e bem-estar.

Sem surpresa, essas considerações nos levam a encarar os crescentes obstáculos na travessia da adolescência, o que não quer dizer que a maioria dessas dificuldades deva ser chamada de “doença mental”. Há uma tendência em considerar os empecilhos da vida como questão médica. Entretanto, a definição de “medicalização” compreende a expansão do controle da medicina sobre problemas relacionados à vida em geral, como crises evolutivas, excesso de esforço no trabalho, hábitos de consumo, tristeza etc.

Além dessa conceituação mais ampla, pode-se acrescentar medicalização como o uso excessivo de medicamentos, seguindo a lógica de expandir diagnósticos e tratar, com remédios, esferas de problemas antes resolvidas sem a participação médica. Ainda assim, o objetivo dessa observação não é minar a confiança nas intervenções dos profissionais que lidam com problemas emocionais e comportamentais dos adolescentes.

Paralelamente, acreditamos na importância de compreender o alcance e os limites da ajuda que o campo da saúde mental consegue prestar, entendendo que os problemas inerentes à complexidade da vida contemporânea não podem sempre estar restritos às respostas médicas. Por outra via, quando essas respostas são muito afirmativas, fornecendo diagnósticos psiquiátricos rápidos e indicando soluções medicamentosas que parecem resolutivas, em geral, estamos diante de simplificações. Não buscamos retirar a esperança dos responsáveis em encontrar auxílio e alívio às dificuldades que passam ao lidar com os jovens quando eles parecem sofrer, fracassar ou desafiar leis e regras. Diante da descoberta de que os mais novos estão se machucando fisicamente de forma deliberada, é importante que os adultos busquem ajuda especializada de psicólogos, psiquiatras ou psicanalistas. Além dessa possibilidade, ou em paralelo, recomenda-se que considerem alguns aspectos referentes aos jovens:

• Mesmo com boas condições materiais, eles podem sofrer conflitos subjetivos ligados à transformação das suas vidas com a chegada da adolescência.
• Conversar com eles e se interessar pelos seus problemas pode ser muito útil, porém, deve ser feito respeitando o tempo de cada um, uma vez que vivenciam períodos de retraimento (quando querem ficar sós) – como caramujos que se recolhem na concha para se protegerem do mundo exterior.
• O amor dos responsáveis continua a ser importante por toda a vida dos jovens, porém não substitui a procura por aceitação e amor que eles fazem entre seus pares. Isso lhes traz alegrias e tristezas, não importa o quanto você os ame.
• As redes sociais adquiriram uma enorme importância para as novas gerações, e os mais velhos não conseguem controlar totalmente como eles as usam, inclusive porque essas redes também se tornaram importantes aos próprios responsáveis.
• A troca de experiências entre os jovens por meio da internet inclui modos de lidar com a ansiedade, e se cortar aparece com frequência entre as táticas preconizadas para amenizar o sofrimento psíquico a partir da dor física.

Diante desse contexto, o ideal seria que nossos adolescentes passassem incólumes por todos os riscos da descoberta de um mundo mais vasto do que aquele que conheceram quando crianças, sob a supervisão dos adultos. As escolas deveriam poder sempre cuidar para que não só aprendessem conteúdos regulares, mas para que também fossem saudáveis, livres e organizados. Um cenário utópico, já que, ao mesmo tempo em que as novas gerações têm oportunidades mais amplas, possuem desafios mais complexos do que os enfrentados pelos seus pais na juventude.