O ócio como aliado da criatividade

Por Maira Maia, Psicóloga e assessora pedagógica do LIV

Acordar cedo, se arrumar, tomar café, ir para escola, aprender matemática, história, geografia e português, ir para o judô ou inglês, voltar para casa, estudar mais um pouco, jantar e dormir. Basta tirar um tempo para observar, com olhar atento, a grade horária dos adolescentes para encontrarmos muitas demandas: escola, aula de dança, esportes, aula de línguas, trabalhos de casa, …. Inúmeras atividades que, independentemente de serem prazerosas, são responsáveis por ocupar todo o tempo do adolescente e garantir que eles sempre estejam produzindo e aprendendo. Apesar de ser legítima essa preocupação de preparar nossos filhos para o mundo competitivo e exigente, até que ponto essa sobrecarga na rotina pode ser prejudicial ao desenvolvimento destes adolescentes?

Essa necessidade de preencher o tempo com atividades e tarefas, garantindo que pareçamos produtivos e cheios de saber, não é restrito aos adolescentes. Nós, adultos, também procuramos completar as lacunas de tempo com aulas, esportes, artesanato ou trabalho. Mas esquecemos de reservar um tempo para o ócio.

Isso deve-se a angústia de tentar dar conta de tudo em uma época que exige rapidez, conteúdo e consumo, e que deprecia o “fazer nada”. Não nos permitimos mais sentar e apenas observar o tempo, o desabrochar da flor ou o canto dos pássaros. Ficar sem fazer nada é um desafio. Sem perceber, logo somos levados a resolver um problema, consertar algo em casa, a postar uma foto. Ficamos com medo de perder alguma informação, de ficar para trás. Queremos acompanhar o ritmo e atender as demandas de um mundo cada vez mais dinâmico e conectado.

Só tem uma questão, não somos computadores. Nosso cérebro é sim supereficiente e multifuncional, e seu potencial muitas vezes nos permite fazer coisas inimagináveis. Mas, assim como as máquinas, ele também precisa recarregar as baterias. A neurociência vem nos avisando, o cérebro não consegue se manter concentrado por mais de 90 minutos no mesmo assunto ou objetivo, necessita de pausas para assimilar e reter conteúdo. Precisa de um tempo para descansar e se distrair, um tempo necessário para a liberdade do pensar. Para isso, como ensinado pelos gregos, temos o ócio como aliado.

O ócio é um tempo vago para fazermos absolutamente nada além de relaxar. É também o lugar da recuperação das energias, da provocação e do convite ao olhar atento. Ele se mostra um importante alimento para a criatividade e promove a manutenção do envolvimento e do prazer nas atividades e criações. Assim como Isaac Newton precisou aproveitar o tempo sentado sob uma árvore, observar e sentir, literalmente, a queda da maçã para elaborar a teoria da gravidade, nós precisamos reservar um momento para esvaziar a cabeça e deixar ser invadido pelas nuances do ambiente.

Tem sido cada vez mais comum nos depararmos com crianças e adolescentes entediados, que enjoam de jogos e brinquedos com facilidade e não buscam criar novos divertimentos. Há algum tempo, bastava deixá-los com uma caixa de papelão que logo navegavam pelos sete mares, viravam um caminhoneiro desbravador de estradas, viajavam pelas galáxias e ainda encontravam tempo para surfar pela grama. O tédio não se manifestava porque no “fazer nada” criava-se e brincava-se de tudo.

Hoje, raramente permitimos que as crianças experimentem esse momento do ócio. Acredito que isso se dá porque não estamos preparados para embarcar no mistério com elas. Crianças livres exigem inovação e demandam atenção e tempo. É lidando com o tempo não ocupado e com a espera que a criança vivencia o brincar e o imaginar de maneira natural e espontânea. Infelizmente, não conseguimos atendê-las em totalidade e optamos pelo mais cômodo: realizar tarefas e atividades programadas. Muitas vezes repetimos essa programação do brincar em casa, na escola, na praça e até nas festas infantis, com animadores e brinquedos.

O desafio se dá em possibilitar momentos e espaços para que as crianças se envolvam no fazer nada. Afinal, eles, assim como nós, também sentem essa necessidade de ter alguma atividade, de se sentir ativo. É importante, portanto, valorizar e incentivar os momentos sem programação, celular ou TV, bem como os devaneios e ideias que eles trazem consigo.

Sabemos que a proposta de se dispor a deixar as crianças e os adolescentes livres para escolher o que e como fazer pode parecer estranha e desestabilizadora. Mas, compreendemos também que, proporcionar um tempo e um espaço para eles serem donos e administradores de seu tempo é um grande passo para a criatividade e para responsabilidade. Permitir que seu filho encaixe o ócio em sua rotina, um momento para ser livre e construir sem cobranças, pode ser libertador e muito motivador. Se possível, permita-se fazer nada junto dele. Acredito que assim construirão muitas ideias, brincadeiras e memórias.