Padrões de beleza inatingíveis acentuam transtornos alimentares entre os jovens

Por Priscila Teixeira, Psicóloga, e Isabella Carvalho, Assistente Social

Vivenciamos no dia a dia em nossa cultura uma supervalorização da magreza e rejeição à gordura: “Ela tem um rosto lindo, ficaria tão bonita se emagrecesse!”, “Você tá precisando perder uns quilinhos, né”. Essa cultura acaba causando, por exemplo, a distorção da visão que o jovem tem sobre seu próprio corpo, pois somente aquilo que está nos padrões da indústria da moda geralmente é considerado bonito. Quando o “ser magro” se torna o objetivo de vida de muitas garotas e garotos, cria-se uma grande pressão – que estimula o aparecimento de alguns transtornos.

A exemplo disso estão os transtornos alimentares, que têm como característica principal a desordem na alimentação e no corpo, sendo capazes de levar ao extremo do emagrecimento ou à obesidade, entre outras severas alterações físicas e mentais, como a depressão. Esses transtornos vêm ganhando lugar na mídia, abordados por novelas, séries, filmes, jornais etc., e para compreender como se apresentam, podemos abordar inicialmente a bulimia nervosa, a anorexia nervosa e a ortorexia nervosa.

A bulimia se caracteriza por um impulso irresistível de comer em excesso, seguido por um comportamento de evitar o ganho de peso, como a indução de vômito ou o uso de laxantes. Esse comportamento pode gerar diversas complicações para o organismo, como inflamação na garganta, sangramentos, problemas intestinais e gástricos, desidratação e destruição do esmalte do dente.

Já a anorexia é marcada pela busca excessiva da magreza e envolve uma distorção de sua própria imagem. A pessoa se olha no espelho e se enxerga “gorda” mesmo estando extremamente magra, e, por consequência disso, exagera na atividade física, realiza jejum prolongado, ingerindo poucos alimentos ao longo do dia, ou induz o vômito.

A ortorexia é um transtorno menos conhecido: a pessoa possui uma dieta extremamente restrita e rígida, ingerindo somente alimentos puros e naturais. Olhando por esse lado, algumas pessoas até questionam: “Mas isso não é uma coisa boa?” Pois bem, precisamos sim ter hábitos saudáveis, mas a pessoa que possui ortorexia transforma esse hábito em obsessão no comportamento e no pensamento, e até mesmo tomar um sorvete está fora de cogitação. Passa grande parte do seu tempo planejando sua alimentação e acaba sentindo certo desprezo por aqueles que não possuem o mesmo comportamento, o que causa certo isolamento. Tanto anoréxicos como ortoréxicos fazem uma enorme restrição alimentar – a diferença é que na ortorexia está presente uma ideia de “alimentação saudável”, disfarçando e dificultando o diagnóstico da doença.

Existe também o transtorno de compulsão alimentar, em que a pessoa sente a necessidade de comer de forma compulsiva e sem controle, mesmo não estando com fome. Esse comportamento geralmente é motivado por ansiedade ou depressão. Pode causar o isolamento do jovem pela vergonha ou culpa da quantidade de comida ingerida e, frequentemente, pela baixa autoestima.

É importante destacarmos que todas essas disfunções precisam de diagnóstico e tratamento de especialistas como médicos, psicólogos, nutricionistas – uma rede de profissionais. Contudo, ressaltamos a extrema importância que a família possui, uma vez que é dentro de casa que os sintomas começam a aparecer e precisam ser observados. Por mais difícil que seja reconhecer um transtorno alimentar, é no ambiente familiar que a pessoa se sente acolhida para lidar com ele e superá-lo e para lidar com esses sentimentos. Alguns sinais podem ser baixa autoestima, ansiedade, humor depressivo, isolamento e descontentamento excessivo com o corpo, e são diretamente afetados pela pressão da mídia, podendo se apresentar já mesmo na pré-adolescência. O cuidado com as crianças e com os adolescentes começa em casa: dialogar e escutar o jovem com atenção é essencial para enxergar e intervir nesses casos, pois é pela rede de apoio que o cuidado pode se transformar em cura.