PARA ONDE VOU?

(TEMA TRABALHADO PELOS ALUNOS DA 3a SÉRIE DO ENSINO MÉDIO EM SALA DE AULA AO LONGO DO ANO)

 

Antes de começar a escrever este material, visitamos algumas escolas e conversamos com jovens que estão no último ano escolar. Ansiedade para o ano seguinte acúmulo de tarefas e estudos, necessidade de desabafar, vontade de viver cada segundo como se fosse o último… eram tantas as questões, mas escolhemos as mais recorrentes entre os grupos entrevistados e chegamos aos seguintes temas: bagagem, profissão, tempo, corpo, cuidado, solidão, grandes mitos, interesses e despedida.

No início, o tema bagagem busca incentivar os alunos a reconhecerem as suas conquistas até o momento, além de propiciar uma reflexão sobre o que desejam manter e levar para o futuro.

Já a questão da profissão é trabalhada ao longo do ano sob diversos ângulos. Um deles é a apresentação dos variados tipos de carreira que existem, informação importante para o processo de escolha profissional. Afinal de contas, esse panorama já mostra que, dentro de uma mesma profissão, é possível ter diferentes caminhos e categorias de trabalho.

Por outro lado, o tempo se mostra um grande aliado no processo de cura das dores, mas parece escasso quando se tem muito a fazer. A ideia aqui é acalmar a ansiedade com o passar das horas e aprender a se organizar melhor.

Também escolhemos incluir a temática do corpo, já que ele é a nossa casa. Poder sensibilizá-lo e despertá-lo para o mundo é ajudar a abrir tanto os canais cognitivos quanto os intelectuais. Nessa fase, a preocupação com os estudos é tanta que o corpo pode ficar em segundo plano, por isso reservamos um espaço especialmente para ele.

Nessa mesma lógica, trazemos o tópico sobre cuidado e o ampliamos para inúmeros aspectos. Afinal de contas, o cuidado pessoal e com os outros pode ficar comprometido nos momentos de tensão e ansiedade.

Em paralelo, a solidão é outro sentimento constantemente relatado pelos jovens, e, na etapa de escolha profissional, pode ganhar uma intensidade ainda maior. Em vista disso, abordamos o tema nas aulas, com toda a delicadeza e a seriedade que ele pede.

Outro item a ser trabalhado são os grandes mitos, nome dado àqueles conselhos e perguntas que os estudantes tanto recebem e, muito provavelmente, já estão cansados de ouvir. Com esse bombardeio de dicas e questionamentos, fica difícil selecionar o que realmente faz sentido e pode ser útil. Nossas aulas pretendem ajudá-los nisso.

Entretanto, não é só da escola que se alimentam as cabeças pensantes e sonhadoras dos jovens. Para que eles desenvolvam suas habilidades criativas e críticas, é necessário mergulhar em outros mares. Nesse sentido, os dias reservados aos interesses vão explorar aquilo que ganha sua atenção instantaneamente e faz seus olhos brilharem. Colocaremos sob o holofote aquilo que inspira e alimenta suas ideias, a fim de que compartilhem suas paixões, seus hobbies e suas curiosidades.

Enfim, quando o grande ciclo escolar se encerra, chegamos

ao último tema, a grande despedida.

Os estudantes são convidados a relembrar os bons momentos, deixar o seu legado para os próximos que virão e colocar o que desejam levar consigo na sua bagagem.

Mas, assim como os jovens, suas famílias vivem inseguranças e incertezas nesse momento. De que forma amenizar o estresse e, ao mesmo tempo, incentivar os estudos e exercitar mais as responsabilidades da vida adulta?

De fato, os sentimentos da família afetam diretamente os processos dos jovens e vice-versa. Nesse contexto, as relações afetivas são nossas principais estratégias de fortalecimento e apoio, por isso é importante que todos que participam dessa jornada tenham a oportunidade de refletir e acolher uns aos outros.

Nós, do LIV, não nos esquecemos de vocês. Nesse sentido, trouxemos um pouquinho de cada tema que os estudantes trabalharão ao longo do ano, com o objetivo de pensarmos juntos e construirmos caminhos mais potentes para todos.

 

BAGAGEM

 

Para saber aonde ir e como ir, é essencial saber o que se carrega – quais são nossos pontos fortes, que histórias nos constituem e que pontos precisamos melhorar.

Foi uma vida inteira dedicada aos estudos escolares. O que foi possível construir ao longo dos anos? Realmente aprenderam a resolver os seus problemas?

Para quem está na 3a série, a sensação pode ser contraditória; diante dos colegas dos anos anteriores, a impressão é de que se sabe mais do que todo mundo. Contudo, é possível que, mesmo sem admitir, pensar nos próximos passos – para fora do muro protetor do lugar conhecido – pode dar a sensação de que ainda não se está preparado.

Para nós, talvez ainda falte a eles aprender muita coisa para se situar no mundo. Como ensinar esse caminho? Como garantir uma boa bagagem para que os jovens possam seguir viagem?

Não adianta buscar a resposta em páginas ou palavras amigas, afinal, nem tudo se aprende nos livros, nas conversas com a família ou nas aulas da escola. Nossa vida nos dará oportunidades de aprender, e só vivendo é que podemos ampliar a nossa bagagem.

Contar com companhias nessa travessia é fundamental, mas existirão momentos em que o caminho será estreito, e cada um terá que passar sozinho. E tudo bem. É assim que se ganha coragem e que a gente reconhece as próprias potencialidades.

Nós podemos ajudar nesse reconhecimento, elogiando, incentivando e acreditando na conquista dos próximos passos.

Como disse a psicopedagoga Ana Macarini, “vamos colecionando olhares, registrando paisagens, experimentando sabores estranhos, até que entendemos, por fim, que uma grande jornada se faz com pequenas e profundas incursões para dentro de nós. Então, que a sabedoria nos alcance antes de nos tornarmos excessivamente sérios, a ponto de não sermos capazes de compreender que quase nada está sob controle. Ainda bem… Ainda bem!”.

 

Pare. Respire. Reflita.

Antes de seguir para o próximo tema, gostaríamos de convidá-lo(a) para uma reflexão: Como está sua bagagem até aqui?

Nesse momento de transição, assim como os adolescentes se desprendem do Ensino Médio, você também fecha um ciclo como responsável.

Permita-se revisitar sua história e perceber tudo que foi construído até aqui. Quais habilidades você desenvolveu? O que deixou para trás? O que gostaria de incluir nessa bagagem e ainda não teve a oportunidade?

Reserve um tempo para pensar sobre a bagagem que carrega e como ela pode ajudá-lo(a) em seus próximos desafios. Se sentir vontade, escreva como foi esse momento.

 

PROFISSÃO

 

Chega-se ao Ensino Médio, e a hora de escolher a profissão se aproxima a passos largos. Ainda com pouca experiência, mas passando por milhões de sentimentos complexos, os adolescentes são convocados a escolher entre caminhos e áreas de trabalho sem a possibilidade de experimentá-las. Acrescente a isso a constante exigência de “boas notas” nas provas, além de um desempenho no Enem e demais vestibulares que garanta uma chance na disputa pela vaga na faculdade – disputa esta em que muitos de seus concorrentes são colegas e amigos. Quanta pressão!

Para ajudar a entender melhor esse momento e pensar em estratégias para uma escuta mais sensível desses jovens, entrevistamos Raul Spitz e Renata Ishida, consultores pedagógicos do LIV.

 

  • Quais fatores podem afetar os candidatos nessa fase?

 

São diversos os fatores e as pressões que influenciam os candidatos nessa fase. A primeira – e, talvez, a mais óbvia – é a própria escolha da profissão. A variedade de trabalhos e possibilidades de carreiras pode deixar os jovens confusos e indecisos. O modo como, culturalmente, lidamos com essa escolha carrega consigo um caráter determinista e definitivo, ou seja, algo deverá ser assumido para o resto da vida. Esse aspecto pode assustar e tornar o processo ainda mais penoso.

Além disso, muitos estudantes sofrem pressão familiar, que pode ser explícita ou velada. Por exemplo: “Minha família toda é formada por médicos e médicas; será que, se eu não quiser fazer Medicina, vou decepcionar meus pais?” ou “Minha família tem uma empresa e a responsabilidade de gerenciá-la será minha no futuro, mas eu gostaria de seguir outro caminho. O que faço?”.

Mesmo que vocês apoiem os jovens e demonstrem apreço pela liberdade de tal decisão, a pressão ainda pode, sim, ser sentida de alguma forma, principalmente por meio do medo de decepcionar.

Inclusive, ainda que a preferência do(a) adolescente não seja bem o que ele(a) acha que a família sonhou, dificilmente a alternativa será uma profissão não reconhecida ou valorizada socialmente. Essa já é outra pressão.

Depois de feita uma escolha que agrade a família e o mundo, é necessário enfrentar a concorrência. Ou seja, não adianta apenas saber o que quer (o que já é bem complicado); é preciso

entrar na melhor universidade/curso da área para garantir um lugar no mercado de trabalho. Então, além de dar conta de terminar o Ensino Médio, seus resultados no Enem e outros processos seletivos não podem desapontar.

A partir desse entendimento, arriscamos o seguinte resumo: o que mais afeta os jovens é a ideia de que tudo o que for feito agora determinará o resto de suas vidas, o que traz um grande peso em cada passo dado e o medo terrível de fracassar.

 

  • E essa pressão toda pode causar consequências mais graves, como transtornos de ansiedade e depressão?

 

É importante ressaltar que o Enem ou os vestibulares em geral, isoladamente, não são responsáveis pelo adoecimento dos jovens. Precisamos pensar que todo o sistema educacional, o contexto histórico, econômico e social, as mudanças físicas e hormonais e a própria família formam um conjunto que pode aumentar ou diminuir a probabilidade de o(a) jovem adoecer.

De qualquer forma, a extrema competitividade e a pressão por um bom desempenho podem alimentar o estresse vivido nesse período de vida.

Os sintomas de ansiedade são os mais frequentes: agressividade, alteração no sono e no apetite, crises de choro, dores, falta de concentração, inquietação, tremores no corpo e vômito.

 

Mas é preciso ter cuidado, porque nem todo sintoma significa necessariamente o desenvolvimento de uma doença. Muitas vezes, é apenas um sinal de que algo não vai bem e precisa ser olhado e cuidado, a fim de que não se torne crônico (ou seja, transforme-se em uma doença).

Aliás, somente criticar o(a) jovem por essa mudança de comportamento não ajuda. É importante abrir espaço para o diálogo e entender que uma palavra atravessada pode, em algum momento, significar a existência de um sofrimento, e não necessariamente uma atitude de desrespeito.

 

  • Mas, então, como evitar a ansiedade nesse momento?

De fato, ansiedade e angústia não podem ser evitadas. Elas fazem parte do ser humano, assim como inúmero outros sentimentos. Esse é um momento de definições e encaminhamentos pelo qual os jovens passam, portanto, é altamente recomendado que eles sejam capazes de frequentar ambientes que favoreçam a escuta dessas tensões. O melhor caminho é desenvolver uma comunidade que englobe a escola, as famílias e os amigos a fim de criar e estimular as trocas, nas quais todos possam falar o que sentem sem medo de serem julgados. Isso facilita que os sentimentos sejam mais bem elaborados e que, dessa ótica, decisões mais saudáveis consigam ser tomadas.

 

Pare, reflita e respire

 

  • Você consegue se lembrar de como foi o processo de escolher uma profissão?
  • Quais foram as angústias vividas?
  • Quais foram as principais cobranças dos familiares e das pessoas próximas?
  • Houve alguma mudança no meio do percurso? Isso prejudicou o lugar que você alcançou hoje?
  • Naquela época, quais tipos de ajuda seriam bons?

 

CORPO

 

Ainda que não sejam considerados doenças, a exaustão e os pequenos incômodos que o corpo manifesta já se tornaram parte do nosso dia a dia. Tomamos um remedinho aqui, outro ali, e acabamos anestesiando o sentir e tudo aquilo que abastece a intuição. Deixamos de ouvir aquela voz de tom suave e certeiro, que sempre nos assopra uma direção, para confiar em um outro alguém – não em nós mesmos.

Daí, de uma maneira bem duvidosa, passamos a acreditar que “ouvir o próprio corpo” era muito hippie para a sociedade do século XXI. Não cabia na agenda atribulada um espacinho para se conhecer melhor; era mais fácil terceirizar esses serviços de tempos em tempos ou toda vez que o corpo começasse a apitar.

Não é o ideal. O corpo é a nossa única e verdadeira casa, pela qual nos comunicamos, sentimos o mundo e aprendemos sobre ele. Ou seja, o corpo não é só um organismo físico; ele é o nosso mediador em relação a tudo que está à nossa volta, guardando a nossa história e acumulando as experiências. ,

Veja só: quando o seu corpo está cansado ou adoecido, você consegue trabalhar com a mesma eficiência do que quando ele está disposto? Em contraste, nas ocasiões em que você tem uma bela noite de sono, consegue se alimentar de maneira balanceada e pratica alguma atividade física, sua atenção, sua postura e a própria percepção do mundo mudam.

Se é assim com você, imagina com um(a) adolescente?

Lidar com o próprio corpo de maneira saudável é fundamental para um desenvolvimento mais potente nos diversos âmbitos da vida. Entretanto, na adolescência, essa relação costuma encontrar muitos desafios no caminho. Para além das diversas e inevitáveis mudanças físicas, os jovens tendem a sofrer também com as exigências estéticas de padrões impostos pela mídia, pelos colegas e pelo mundo.

Especialmente no terceiro ano, esse trato com o corpo pode ganhar uma tensão específica, considerando que a maior preocupação no momento é a capacidade de ampliar e decorar informações e conhecimentos necessários, de modo que o desempenho do(a) jovem no vestibular supere o de outros tantos concorrentes.

Por consequência, o corpo é punido por horas mal dormidas, refeições feitas às pressas, mil horas ininterruptas em frente ao computador e aos livros, etc. Ele é castigado por não representar a imagem de que seus donos gostariam e acaba escondido de alguma forma. Também é punido quando serve de válvula de escape para questões emocionais que não conseguem ser escutadas, as quais se transformam, então, em alergias, bruxismo, dores, enjoos, oscilações de pressão e quedas de cabelo.

Outro fator que exige atenção é quando a fala do(a) adolescente destoa do que é transmitido corporal e afetivamente. As palavras podem ser um meio de se proteger diante da dificuldade de entrar em contato com seus sentimentos e poder expressá-los. Nessa dinâmica, as frases surgem esvaziadas afetivamente, desvitalizadas, e apenas parte de um discurso racional e cheio de justificativas.

Diante de tudo isso, ouvir o corpo é um outro canal de comunicação que se abre entre vocês, e cuidar dele já não é mais um capricho ou uma vaidade estética. Cuidar do corpo é uma oportunidade de proporcionar um desenvolvimento integrado.

 

Para, respire e reflita

 

Perceba como está seu corpo hoje.

 

  • Alguma parte dói?
  • Há algum incômodo?
  • Já deixou de fazer algo por conta disso?

 

TEMPO

 

A sensação de que o tempo nunca é suficiente para tudo o que temos que fazer parece uma marca da nossa geração. “Ah, se o dia tivesse 36 horas!”. Mas será que isso realmente resolveria os problemas?

Em nossa sociedade, tornou-se um prestígio fazer cada vez mais coisas de forma cada vez mais rápida. Somos avaliados por meio da quantidade de tarefas que executamos, do número de línguas que falamos e dos diplomas que acumulamos.

Ao não questionarmos essa mentalidade produtiva, aceitamos que, se alguém é visto como “improdutivo”, o problema é que a pessoa não sabe administrar seu tempo, quando, na verdade, está com demandas demais.

Para os estudantes do terceiro ano, o desafio temporal é conciliar a infinidade de estudos escolares e voltados para os vestibulares com seus interesses pessoais e suas obrigações gerais, até aquelas que incluem seus responsáveis.

Apesar de ser “a única obrigação” de boa parte dos jovens dessa geração, estudar não é algo tão simples assim, tendo em vista o volume enorme de conteúdo para assimilar. Por isso, o lazer, o compromisso familiar ou até mesmo uma refeição são deixados de lado pela sensação ilusória de que “os outros estão estudando mais” ou de que é “errado parar para descansar”.

“Quando estou comendo, sinto que é uma justificativa para eu não estar estudando. Sinto que estou fazendo algo de errado se não estou fazendo nada”, disse um aluno do 3o Ano. “Em qualquer outra situação em que esteja me divertindo muito, não estou totalmente presente. Me sinto distraído e, algumas vezes, não me envolvo totalmente, porque me sinto culpado por não estar estudando”.

Toda essa exigência gera um cansaço generalizado que não encontra nenhum lugar no qual possa se esparramar e tirar uma soneca, porque sair para se divertir ou ficar de barriga para cima sem fazer nada só gera culpa e não faz o pensamento parar. Você deve saber como é. Afinal, ser adulto é esse mar de tarefas e boletos sem fim.

Que tal, então, ajudar nesse gerenciamento do tempo e convidar o(a) jovem para momentos de descompromissos? A vida de todos pode ganhar muito mais tempo, aquele que gostamos de chamar de memória.

 

Pare. Respire. Reflita.

Faça a você mesmo(a) as seguintes perguntas:

 

  • Como eu tenho administrado meu tempo?
  • Tem sido fácil conciliar todas as demandas?
  • Quais escolhas tenho feito?

 

SOLIDÃO

 

“O que você tem? Por que não fala nada? Por que fica tanto no seu quarto?”.  Solidão tem essa cara assustadora para muita gente, que foge só em ouvir a palavra. No III Congresso Socioemocional do LIV, em 2019, perguntamos qual era o maior medo das pessoas, e ela ganhou disparadamente entre as diversas respostas colocadas ali.

As pesquisas mais recentes contam que, entre os jovens, esse é um sentimento frequente. Mas como é possível que, em uma época na qual a conexão com o outro está em seu auge, mais da metade dos jovens se sente excluída, isolada e sem alguém para conversar?

A resposta não está exclusivamente nos smartphones, mas sua capacidade de potencializar isso tudo é compreensível. Não há dúvida de que as redes sociais amplificam os sentimentos de insegurança e o medo de ser excluído, além de dar a falsa impressão de conectividade com as pessoas. Ou seja, “para que vou sentar com meu amigo e falar sobre minha reprovação em Física se ela já foi contada por um post no Instagram?”.

A exposição virtual parece ter ocupado o lugar dos encontros, no qual a real escuta e troca acontecem. Por isso, saber da vida privada de alguém não garante que haja uma relação de intimidade. Ver uma publicação sobre alguém escovando os dentes com o cabelo despenteado não nos permite acessar as angústias daquela pessoa.

Entretanto, em que momento os adolescentes vão encontrar outras pessoas para conversar, se a vida no 3o Ano é uma avalanche de compromissos, tarefas e deveres? O tempo reservado ao cultivo das relações tem sido prejudicado.

Em casa, por sua vez, nem tudo é compartilhado, ou porque somos de outra geração e não merecemos saber sobre o mundo jovem, ou simplesmente porque ainda não há palavras capazes de traduzir esse contexto. É preciso digerir.

O silêncio e o recolhimento parecem assustadores, ainda mais em tempos em que vemos mais e mais jovens adoecendo e deprimidos. A vontade que dá é saber o que se passa ali naquela cabeça para poder ajudar, dar respostas.

Mas o silêncio, a solidão e o recolhimento têm uma função: é justamente a de poder entender, consigo mesmo, aquilo que é novo ou que incomoda. É poder se conhecer.

Temos a mania de encurtar os caminhos e acabamos atropelando o outro, invadindo seu espaço. Tememos o que pode ser ou acontecer e temos muita dificuldade de sustentar a espera. Queremos achar um culpado, uma razão e, obviamente, uma explicação para todos os comportamentos que surgem “do nada”. Nada vem do nada. Por

que aquela pessoa iria querer ficar sozinha justo hoje que tem sua comida favorita? Só pode ter acontecido alguma coisa grave.

Pode ser que sim, porém pode ser que não. Como dissemos, nem tudo será compartilhado, e outras tantas coisas deixaremos escapar. É impossível suprir todas as necessidades de outro indivíduo, por mais que a gente leia, estude, perceba. Ainda assim, trata-se de uma outra pessoa, que pensa por si e, de certa forma, será sempre inacessível.

O importante é manter a porta aberta para a escuta e o acolhimento, sem querer derrubá-la e atravessá-la sem permissão. É lógico; o olhar atento a uma situação mais grave é sempre necessário. Por isso, conte sempre com a parceria da escola e de profissionais para ajudar.

De qualquer forma, na construção dessa ponte, vale poder falar com a gente sobre a gente. O que uma pessoa quer nem sempre é uma resposta ou uma saída – como costumamos querer oferecer –, mas a escuta. Mostrar os nossos medos, fraquezas e fracassos nos torna mais reais e, assim, passíveis de uma escuta mais compreensiva também.

 

Pare. Respire. Reflita.

 

Os sentimentos podem se apresentar de muitas maneiras e participar da construção da nossa história cumprindo os mais variados papéis. O exercício de educar e criar alguém pode ser muito solitário, porque a responsabilidade raramente é passível de ser compartilhada. Mas será que as tarefas do cotidiano seguem a mesma regra? Você está conseguindo dividir com alguém?

 

CUIDADO

 

Uma das principais armadilhas de ser uma pessoa que gosta de cuidar, que se disponibiliza para ajudar os outros é acreditar que temos sempre as melhores respostas, o melhor caminho, que sabemos a solução da maioria dos problemas. Essa percepção é alimentada pelas carências e inseguranças do outro, que também espera (e adora) quando alguém se oferece para resolver as suas questões.

“Era tão bom quando ele ainda era criança; para qualquer questão da vida, eu era a primeira pessoa a ser procurada”; “Tão bom ser essa referência e ter acesso aos sentimentos e dúvidas dele”; “Tão bom saber que meu colo ainda é o lugar que acalma o choro”.

Mas a criança cresce, e parece que aquele colo não serve mais. Os conselhos oferecidos não são mais ouvidos, que dirá seguidos. E, aos poucos, você vai perdendo lugar nas cenas em que era protagonista, seja herói ou heroína.

“Quem é que vai cuidar deles na minha ausência?”, a gente se pergunta. Efetivamente, não houve uma exclusão. Você certamente ainda está lá e é a grande referência para as emergências da vida; a diferença é que, agora, o cuidado também pode e deve ser exercitado pelo(a) próprio(a) jovem.

Sabemos que, na vida adulta, temos que nos virar. A vida cobra, as contas chegam, e, se bobearmos, somos atropelados por mil e um vetores. É preciso saber cuidar de si. Inclusive, “cuidado”, no dicionário, significa demonstração de atenção, zelo, esmero, cautela; implica não fazer algo que poderia prejudicar alguém. É ter responsabilidade. Cuidar também pode ser tratar aquilo que adoece, ou, ainda, fazer as tarefas com capricho. Nesse sentido, autocuidado pode ser entendido como todas essas ações direcionadas para a própria pessoa que as realiza.

Para o filósofo francês Michel Foucault, entretanto, cuidar de si não é uma ação pontual ou uma simples preparação momentânea, mas um estilo de vida, uma prática diária e cotidiana para toda a vida. Foucault acreditava que cuidar de si é dar conta da própria conduta em relação a si mesmo e aos outros. É criar potência, é ser criativo, permitindo-se sentir antes de interpretar. É se ouvir e ouvir os outros.

Assim, não se trata de parar de cuidar do(a) adolescente em sua casa. Nesse momento, o maior cuidado que você pode proporcionar é ajudá-lo na construção do seu autocuidado, esse processo contínuo, interminável, único, sem fórmula certa e intransferível.

 

Pare. Respire. Reflita.

 

  • Como tenho cuidado de mim?
  • Como tenho cuidado de minhas demandas, meus desejos e

meus hobbies para além do meu papel como responsável?

  • O que meu(minha) filho(a) já me ensinou sobre cuidado,

consigo ou com os outros?

 

INTERESSES

 

Falando nisso, o que te inspira? O que faz seus olhos brilharem, seu dia ser mais produtivo? O que alimenta sua alma, seu cotidiano e até o seu trabalho? Independentemente da sua profissão, conhecer o mecanismo do corpo humano ou das máquinas não é o suficiente para definir quem você é, seja no lado pessoal, seja no profissional. Somos formados por aquilo que chama atenção aos nossos olhos, que buscamos conhecer mais, que usamos como alimento e informação.

Nessa perspectiva, costumam dizer que as pessoas mais interessantes são as pessoas mais interessadas. Conversar com alguém que conhece música ou que te dá dicas incríveis de filmes certamente renderá horas de um bom papo. Da mesma forma, receber um convite para jantar de alguém especialmente curioso por temperos e sabores aumenta as chances de uma refeição surpreendente.

Profissionais que bebem de outras fontes parecem muito mais criativos, versáteis e empáticos. Por exemplo, uma musicista com conhecimento matemático pode ampliar suas técnicas com o instrumento. Um empresário que joga vôlei pode conseguir trabalhar melhor em equipe. Uma cirurgiã que faz artesanato aumenta sua sensibilidade e motricidade fina.

De fato, não dá para esquecer que as grandes preocupações, nesse momento da vida, são o término do último ano escolar e a possibilidade de ingresso direto em uma faculdade. A sensação (e medo?) é que, provavelmente, seria uma perda de tempo gastá-lo com coisas “supérfluas”. Será?

Por acaso, o processo de escolha da profissão também não envolve conhecer o mundo? E não só conhecer, mas também querer fazer parte dele? Se deixarmos essa tarefa de apresentação do mundo às crianças e os jovens apenas para os noticiários, é possível que tenhamos pessoas cada vez mais desesperançadas ou desvitalizadas.

Para se encantar com o mundo, é preciso vê-lo com outros olhos pela primeira vez, olhos de estrangeiro. A vida se afirma quando o mundo se torna um lugar passível de se espantar (e se maravilhar) continuamente. Crer em um mundo possível, no entanto, não se baseia apenas na esperança – em outras palavras, não se pode se ancorar em uma atitude passiva. A tarefa é de movimento, busca, devoramento e interesse pelo mundo.

Investir nesse passeio por outros ares, além do currículo básico é investir na curiosidade do(a) jovem. É investir em uma vida que vale a pena ser vivida. E se vocês compartilharem seus interesses? Quais outras janelas podem se abrir? Quais outros mundos serão capazes de enxergar?

 

Pare. Respire. Reflita.

Que tal fazer o seguinte exercício?

  • Quais são os interesses da sua família hoje?

 

GRANDES MITOS

 

“Na sua idade, eu…”.

Quem é que nunca ouviu essa frase de alguém mais velho? Provavelmente não era muito agradável receber esse tipo de comparação, mas agora você pode se ver, de vez em quando, repetindo o tal bordão – mesmo que só em pensamento.

Sim, nós queremos o melhor para nossos jovens. Queremos que eles entendam que a vida não é fácil e que, quando éramos adolescentes, já tínhamos bem mais responsabilidades. Mas como será que esse recado chega aos ouvidos deles?

A partir desse raciocínio, Sidnei Oliveira, autor do livro Conectados: mas muito distraídos, escreve sobre a frustração das últimas gerações (nascidas nas décadas de 1980, 1990 e 2000). O escritor explica que uma de suas causas é exatamente o acesso a mais recursos e privilégios, em comparação à geração anterior, o que gera uma obrigação

de superar seus responsáveis.

Segundo o autor, os jovens de hoje foram mais protegidos e menos expostos a condições desfavoráveis. Consequentemente, criaram uma cobrança e uma expectativa para que não só superem a geração anterior, mas também impressionem na carreira.

De acordo com o psicólogo Jeffrey Arnett, há 40 anos, um indivíduo de 22 ou 23 anos confiava em se tornar adulto, assumindo como ponto de referência o casamento, a paternidade e a obtenção de um emprego estável. Hoje, a faixa etária entre 17 e 33 anos, também chamada de adultos emergentes, vive esse período com base na insegurança, na incerteza e no risco dos novos estilos de carreira, conhecidos como de autogestão. Trata-se de uma concepção bem diferente do modelo tradicional de carreira, em que se entrava em uma empresa almejando progressão profissional apenas por fazer um bom trabalho.

Essas transformações de ordem social, econômica e cultural geraram um aumento consistente na média de idade dos primeiros casamentos; na média de idade do nascimento dos primeiros filhos; nos índices de coabitação com pais e instabilidade residencial; na presença de percursos escolares mais longos e, consequentemente, na inserção mais tardia no mercado de trabalho.

Junto a isso, há também a vontade de acelerar o ritmo de tudo, outro aspecto que provoca frustração nessa geração; “Ora, se eu tive muito mais oportunidade, é natural que eu colha os frutos bem mais rapidamente”. Só que, na prática, não é bem assim.

Deve-se entender que as situações mudaram, e as novas características das sociedades pós-industriais levaram à definição de novos conceitos e perspectivas, tanto no âmbito do desenvolvimento humano quanto no profissional.

Ainda assim, comparações entre as gerações sempre serão feitas, pois fazem parte de entender os novos cenários, mas é preciso contextualizá-las às mudanças e usá-las a favor das gerações que estão por vir.

No fim das contas, o que se busca é o protagonismo destes novos adultos para que eles tomem as rédeas da própria vida, até porque todas as gerações querem a mesma coisa: ser feliz. E você? As comparações com o passado te fazem se sentir frustrado(a)?

 

Pare. Respire. Reflita.

Quantas histórias chegam até nós como as grandes soluções da vida, e quantas nós reproduzimos por aí? Quais são os grandes mitos que você tem ouvido enquanto mãe, pai ou responsável? Quais são os grandes mitos sobre os quais você tem falado?

 

DESPEDIDAS

 

Este é o dia que parecia tão distante. Não faz tanto tempo assim que olhamos para aquela mãozinha dando tchau ao entrar na escola – às vezes, insegura, com lágrimas nos olhos; às vezes, sorridente e já cheia de felicidade ao encontrar o(a) professor(a) e os colegas. Naquela época, a ideia de futuro se resumia à brincadeira de perguntar “o que você vai ser quando crescer?”, sem nos darmos conta de que esse momento chegava

sorrateiramente.

Futuro era coisa para depois, mesmo que o trabalho diário familiar sempre estivesse direcionado para a sua melhor chegada. Uma boa escola, o curso de inglês e o que mais estivesse ao alcance; tudo para garantir o mais perfeito amanhã. E ele chegou. Um dos poucos ritos de passagem que permanece em nossa cultura ocidental urbana, a formatura traz muitos significados, principalmente sobre o fim da infância e o começo de uma vida adulta cheia de responsabilidades. Apesar disso, o rito também é da família, é aprender a soltar a mão e dar apenas o suporte necessário para que os passos sejam dados sozinhos.

Não há receita pronta, e, ainda que cada um tenha seu tempo, um bom começo é cuidar de como a gente se percebe como responsável, além do entendimento sobre esse papel. Também é preciso querer e, de fato, abrir mão do controle de tudo, até do que o(a) outro(a) – no caso, o(a) jovem – sente. Assumimos a nossa super importância e nos validamos pelo amor de quem cuidamos, e isso nos serve até certo tempo. Depois, chega um desgaste que nos irrita, tira a paciência e nos leva a mostrar a nossa pior versão para aqueles que mais amamos.

Em contrapartida, ninguém tira o lugar do aconchego familiar. Essa relação sempre é recheada de nuances emocionais que só desvendamos aos poucos; por isso, respire. O(a) jovem vai te amar independentemente do tempo ou do tamanho da mesada. Isso deve promover a segurança necessária para que você não só abra espaço para outras pessoas fazerem parte dessa história, mas também para que o(a) adolescente estabeleça

mais laços com o mundo.

A autonomia emocional e futuramente financeira dos alunos tem início no tamanho da segurança que seu responsável sente. Antes de apontar o dedo para o quanto o(a) adolescente precisa de você e como isso te cansa, perceba o quanto você mesmo(a) também precisa dele(a) para se validar. Nessa relação, todas as transformações começam com a gente cuidando das nossas emoções, faltas e sombras. As outras partes

reverberam.

Nessa despedida, vocês podem até se perder de vista, mas o caminho de volta precisa estar muito bem demarcado e aberto para acolher erros, descuidos e novas tentativas. Faz parte do processo de virar gente grande não atender às expectativas dos responsáveis, mas entender que a porta estará sempre aberta é libertador e nos fortalece.

Boa travessia para todos!

 

Finais, começos e recomeços

 

Falando sobre essa travessia, neste último “Pare. Respire. Reflita.”, confira a seguinte reflexão que compartilhamos com vocês:

Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais — a gente levanta, a gente sobe, a gente volta. […] O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

 

Guimarães Rosa