UMA PARCERIA POSSÍVEL E NECESSÁRIA ENTRE ESCOLA E FAMÍLIA

Por Lourdes Atié, Socióloga e educadora

Hoje, os pais já não dispõem de tempo para ficar com os filhos. Lamentam que trabalham demais ou que têm muitos compromissos. Por outro lado, consideram que o mundo ficou perigoso demais para deixar que os filhos exerçam a liberdade. Assim, cabe à escola o desafio de cuidar destes, oferecendo-lhes o máximo de experiências. No entanto, essa relação não é simples e tranquila. O vínculo de confiança não se adquire no ato da matrícula. Ele é construído por um equilíbrio mútuo, por meio da confiança sincera e próxima.

De modo geral, a participação da família na escola ocorre de maneira pontual, nas celebrações e nas reuniões de pais. Fora isso, muitos responsáveis vão à escola para cobrar, como consumidores, um serviço que está sendo prestado e pelo qual eles pagam. Só que não é bem assim. A escola não se limita a prestar um serviço, como qualquer loja, empresa ou consultório. Ela está fazendo algo muito mais importante: em um espaço coletivo, está educando crianças e jovens, não apenas para tirar boas notas, mas para serem cidadãos para a vida inteira.

Estamos na segunda década do século XXI, tempos líquidos, como nos ensina o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em que a educação assume um novo papel, pois nada sabemos sobre o futuro. É nesse tempo de incertezas que precisamos criar novas formas de colaboração entre as famílias e a escola, que envolvam participação e confiança. Hoje, espera-se que os pais deixem de ser “consumidores de um serviço” para se tornarem “sujeitos atuantes”, com o compromisso coletivo de que os estudantes vivam a escola como um espaço em que se pode entender o mundo e se sentir preparado para atuar na vida de maneira positiva. Afinal, as crianças e os jovens fazem parte de ambas as esferas e, por isso, escola e família não podem ser vistas como entidades separadas, mas sim em constante interação. Nesse sentido, é preciso buscar novas possibilidades de conexão entre elas.

Assim, estar mais próximo da escola é fundamental para compartilhar e ampliar responsabilidades, promovendo a cooperação de todos em relação às tarefas educativas e a aquisição de conhecimentos, competências e valores. Da mesma forma que afirmamos que, hoje, não existe um único modelo familiar e sim uma diversidade de contextos familiares, a escola também não pode exigir um modelo único de participação das famílias diante das demandas do mundo do trabalho e das pressões econômicas. Essa conquista só acontece se a relação tiver transparência e maturidade para que todos os envolvidos possam enxergar que família e escola, mesmo sendo diferentes, podem formar um time campeão.

Os pais, diante das transformações pelas quais passam a sociedade e o universo escolar, não podem exigir da escola um modelo compatível com o que viveram na sua infância. Também não podem cobrar um funcionamento dentro do modelo que acreditam ser mais eficiente. As pessoas que trabalham na escola são os profissionais mais gabaritados para escolher os caminhos que promovam mais avanços acadêmicos e sociais para os estudantes. Portanto, é preciso confiar e participar. A família e a escola possuem características específicas de funcionamento, com suas normas e valores, que precisam ser respeitados pelos dois lados. Assim, é possível somar nas diferenças e aprender com elas. O importante é garantir o alto grau de confiança e respeito pelo papel que cada um pode exercer e sempre estar aberto para melhorar. Afinal, foi para isso que nascemos: para aprender sempre e mudar para melhor.

Para que essa complexa relação avance de modo que todos aprendam e cresçam de maneira colaborativa e complementar, é preciso uma escuta ativa e multidirecional, com confiança e gratidão. Assim, será possível construir um reconhecimento mútuo das competências educativas de cada uma delas, estabelecendo os limites de atuação e valorizando e respeitando o trabalho do outro. A escola pode, com isso, ser um importante espaço de encontro. Para que os estudantes se encantem com esse espaço, é preciso acreditar que a escola pode realizar esse papel, e isso começa em casa, pela confiança que a família tem na escola e que a escola tem na família. Daí a importância de substituirmos o verbo “exigir” por “colaborar”. Difícil? Nada é fácil quando o assunto é fazer gente saudável. Esta aventura é fantástica, e, somando forças, seguimos mais fortes. Vamos juntos.