Plano de voo

Por Christine Lourenço, Gerente Pedagógica do Pensi

 

Como ensinar autonomia e preparar os jovens para o mundo
Felicidade, escolhas sábias, pensamento crítico e ação para perseguir os sonhos – quatro grandes desejos de nós, responsáveis, aos nossos jovens. Todos nós torcemos para que “tomem as rédeas” da própria vida, se entendam enquanto protagonistas de suas escolhas e persigam a sua felicidade com afinco. Quem não gostaria de vê-los negar as más escolhas e más companhiasno percurso da vida, compreendendo-se como seres autônomos e independentes? Entretanto, a pergunta de um milhão de reais é como, de fato, fazer isso. De que maneira promover essas complexas habilidades neles?

A resposta pode estar em Montreal. Com 78 mães e filhos, um estudo feito na cidade canadense revelou que, quando elas dão autonomia às crianças, há um impacto positivo em sua função executiva – um dos pilares do desenvolvimento cognitivo. Saindo do “tecniquês”, tal função engloba não só o raciocínio, mas competências de planejamento, resolução de problemas, execução de atividades e flexibilidade nas tarefas.

A pesquisa consistiu em duas visitas às famílias; a primeira quando as crianças tinham pouco mais de um ano, e a segunda aos três anos de idade. Na tarefa inicial, solicitou se à mãe que ajudasse o pequeno a completar uma atividade com nível de dificuldade alto, e os pesquisadores, sem que ela soubesse, analisaram o tipo de suporte materno – se encorajava, era flexível, incentivava e respeitava o ritmo do filho.

Quando as crianças completaram três anos, os cientistas avaliaram a força da memória de trabalho e a capacidade de pensar sobre vários conceitos simultaneamente. Quais obtiveram as melhores pontuações? As que tinham mães que ofereciam um suporte consistente ao desenvolvimento de sua autonomia!

Portanto, cá encontramos uma palavra-chave para que as crianças (ou não mais tão crianças assim) obtenham êxito em serem as suas melhores versões: a autonomia! A seguir, vamos destrinchar melhor esse conceito nas diferentes fases do crescimento.

Autonomia na infância
Começando pelos pequenos, é vital entender que incentivar o progresso dessa independência não significa simplesmente deixá-los tomar decisões, fazer escolhas por conta própria. Para um desenvolvimento psicológico saudável, faz-se necessária uma interação com o ambiente à volta, e que este o desafie; é propor situações, à criança, que estimulem a busca ativa por soluções. Essa dinâmica requer que você esteja ao lado dela, orientando no que for possível, incentivando a realização de tarefas e propondo novos desafios, sempre permitindo a superação dos limites e as descobertas ao redor – dentro do que for seguro.

É precisamente este último item que representa o maior obstáculo dos responsáveis nesse contexto: vê-los lidar com o erro e a decepção sem interferir. É difícil e doloroso; todo mundo quer ver os mais novos felizes e realizados. Contudo, o desprendimento surge quando os adultos permitem que a criança lide com a frustração.

A partir desse entendimento, questione a si mesmo se todas as decisões que toma no seu dia a dia, envolvendo sua família, precisam absolutamente ser tomadas por você. Não há uma única situação na qual poderia conferir poder de escolha a eles?

Vamos a algumas dicas que podem ajudar nisso:
Aos poucos, envolva a criança em pequenas escolhas da rotina. Permita-a decidir qual será a sobremesa do almoço de sábado, por exemplo. Dê opções de trajes para que escolha o que prefere vestir, apresente livros diferentes a fim de que decida pela leitura de um deles. Inclusive, limite o número de opções para que ela não se sinta perdida.
Deixe o pequeno ciente dos ônus e dos bônus de cada escolha, de modo que haja tempo para ele refletir antes que opte pelo que quer.

Se a criança se arrepender da opção que fez, ensine-a a lidar com a frustração. Explique que é assim mesmo, que haverá outras oportunidades e que ela fez o que achou melhor naquele momento. Não a critique ou diga frases como “Eu te avisei!”.

Todos os dias, separe 30 minutos para brincar com os pequenos e, neste período de tempo, se proíba de guiar a brincadeira, corrigi-los ou repreendê-los. Faça aquilo que eles indicam como a própria vontade, desde que não os coloque em risco.