Pode entrar!

Por Joana London, Psicóloga e Gerente Pedagógica do LIV

Quando você pensa em um quarto de adolescente, a primeira imagem que vem à cabeça pode ser de uma pilha de roupas, fios de carregadores enrolados ou uma cama desarrumada. Esse pode ser um estereótipo que caiba na maioria das pessoas de 12 a 18 anos, mas se usarmos como referência as clássicas cenas de filme, além da bagunça, é possível ver um quarto com pôster, adesivos e papel de parede. Talvez alguns desses elementos já estejam fora de moda e ultrapassados, mas o que está em questão, é a necessidade de criar espaços que expõem sua identidade, seus desejos e paixões.

Muitas vezes, seu quarto é o único local, tanto do mundo externo quanto da sua própria casa, que o adolescente se sente dono, por isso a necessidade de registrar sua marca, deixar com a sua cara. O fato não está na quantidade de bandas estampadas na parede, mas sim no quanto assumem aquele espaço como seu e o quanto se sentem protegidos nele.

“Fecha a porta!”, “Já pedi para você não entrar!”, “Sai do meu quarto!”, essas e outras frases podem ter sido escutadas por quem convive diariamente com eles, às vezes com mais vogais e intensidade. Mas não comece ignorando o pedido, entenda a importância e o significado que esse refúgio tem na vida desses jovens. Pois parte do processo de aproximação passa pelo (re)pensar a maneira que nós, responsáveis, estamos tentando nos acercar dos nossos filhos.

Os que há pouco tempo eram pequenos e dependentes, agora já tem suas próprias vontades e cada dia deixam mais evidentes as diferenças geracionais ou mesmo da forma de pensar e estar no mundo. Nesse momento, o quarto passa a ser uma grande metáfora, porque na verdade, há uma necessidade mais ampla de pedir licença para entrar em suas vidas, bater na porta antes de entrar. A preocupação, que superficialmente aparece na pergunta “o que tanto ele faz dentro desse quarto?”, ou “nesse telefone”, diz de uma inquietação sobre não ter mais controle de quem seu filho conversa, em que sites entra, que músicas escuta e quem está o influenciando.

A preocupação é extremamente legítima, principalmente porque a internet se apresenta como um buraco sem fundo. Onde, diversas vezes, os jovens têm mais propriedade do que os adultos, ou, pelo menos, acham que têm. E é por ai que passa a angústia, por não saber onde eles podem parar, por não saber que tipo de informação ou novidade podem chegar até eles. O perigo da internet é uma realidade, mas ele não sustenta o argumento para esses jovens romperem com seus aparelhos eletrônicos e redes sociais. Na verdade, nada sustenta.

É preciso pensar em uma zona de equilíbrio, e o primeiro passo para encontrá-la está em sustentar uma relação de confiança. E esse movimento precisa ser iniciado pela família, que não comece invadindo o espaço do jovem, mesmo que na boa intenção, para descobrir o que se passa atrás da porta ou atrás da tela. Se o desejo é por um adolescente autônomo, é necessário fazer por onde, e autonomia começa com confiança.

Se foi indispensável bisbilhotar escondido, é porque antes houve necessidade de estabelecer diálogo. Então ande duas casas para trás e pense a melhor forma de criar um espaço seguro para que, tanto ele possa dizer sobre o que tem feito, quanto você possa dizer sobre suas preocupações e inseguranças com o mundo pelo qual não tem controle. E nesse momento, a sua fragilidade pode ser uma grande virada para humanização dessa conversa. E é desse espaço, que devem sair acordos e combinados que deixam de chegar com tom de imposição e que passam a ser construídos juntos. Mesmo com algumas questões inegociáveis dentro de cada família.

A empatia passa a ser uma aliada nesse processo. Antes de entrar nessa conversa, respire a sua adolescência, relembre seus hábitos e dilemas da época e tente fazer esse paralelo, colocando-se no lugar de seus filhos. Mas lembre-se, não é possível comparar redes sociais com diários, em um as páginas acabavam, não havia mais onde escrever, no outro, é interminável e lidar com essa infinitude dá medo mesmo.