CADA PASSO, UMA CURIOSIDADE: A sexualidade ao longo da vida

Por Roberta Desnos, Coordenadora pedagógica do LIV

A sexualidade é parte inerente da vida. Nascemos graças ao encontro de dois seres que puderam compartilhar um momento de troca e intimidade tão potente, que foi capaz de gerar a vida. Nascemos de um ato sexual, e nosso desenvolvimento sexual se dá desde os primeiros instantes de vida e se manifesta de diferentes formas em cada etapa do desenvolvimento humano.

É preciso pontuar que, quando falamos de sexualidade, não estamos falando apenas de sexo ou de uma estreita ligação com os órgãos genitais. A sexualidade seria uma função corpórea mais abrangente, tendo o prazer como a sua meta, e, só secundariamente, vindo a servir às finalidades de reprodução.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), “a sexualidade faz parte da personalidade de cada um, é uma necessidade básica e um aspecto do ser humano que não pode ser separado de outros aspectos da vida. Sexualidade não é sinônimo de coito e não se limita à ocorrência ou não de orgasmo. Sexualidade é muito mais do que isso, é a energia que motiva a encontrar o amor, contato e intimidade, e se expressa na forma de sentir, nos movimentos das pessoas e em como estas tocam e são tocadas. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações e, portanto, a saúde física e mental. Se saúde é um direito humano fundamental, a saúde sexual também deveria ser considerada um direito humano básico”.

Como qualquer outro conhecimento, a sexualidade é construída a partir da troca e da interação com o meio social e a cultura em que o indivíduo está inserido. Os adultos servem de modelos para essa aprendizagem e impõem os limites aos comportamentos sexuais das crianças. Nem sempre é fácil compreender as manifestações da nossa sexualidade, assim como as das outras pessoas, especialmente quando nos referimos às crianças. É preciso paciência e muito respeito para orientarmos nossos filhos e filhas, afinal, a descoberta de quem somos passa pela exploração do nosso corpo e das áreas que promovem prazer.

Refletir de maneira honesta se estamos tratando o tema com naturalidade ou repassando dificuldades, medos e receios presentes em nossa própria sexualidade é fundamental. Isso pode diminuir os riscos de uma comunicação confusa, com orientações contraditórias e facilitadora da construção ou manutenção de mitos, medos e tabus. A combinação entre honestidade e tranquilidade sempre será uma boa aliada nesse momento. Para compreendermos as diferentes formas de expressão da sexualidade infantil, é interessante recorremos à contribuição de Sigmund Freud, médico neurologista e psiquiatra criador da Psicanálise. Segundo Freud, a sexualidade evolui de acordo com etapas de desenvolvimento que seriam organizadas em fases: oral, anal, fálica, latência e genital.

De acordo com essas fases, seria possível reconhecer as manifestações naturais de cada idade e, assim, adotar posturas adequadas frente ao desenvolvimento psicossexual das crianças. Essas etapas não são rígidas, havendo certa fluidez e interpenetração entre elas, e, por isso, as idades são apenas referências, não marcos exatos.

De 0 a 1 ano:

Nesse período, a criança descobre o mundo por meio da boca e encontra prazer e satisfação em fazê-lo. Podemos observar o interesse da criança em levar objetos e partes do corpo à boca, assim como na satisfação encontrada ao ser amamentada. Seria o correspondente à fase oral.

Nesse estágio, normalmente os adultos tratam essas descobertas com naturalidade e até mesmo estimulam essa exploração do corpo. É importante estar atento às necessidades físicas e emocionais das crianças. Brincar, tocar o corpo, estar realmente presente durante a execução dos cuidados, higiene cotidiana, é fundamental para o bom desenvolvimento do bebê.

De 2 a 4 anos:

Neste período, a criança pode estar sendo desfraldada e está descobrindo como controlar os esfíncteres: o ânus passa a ser uma zona de satisfação, e ela experimenta a ambivalência ao controlar as fezes que sai do seu interior; a noção de higiene começa a ser introduzida. A partir dos 3/4 anos, a criança pode demonstrar curiosidade em entender de onde vêm os bebês, assim como passar a manipular as áreas genitais, descobrindo o próprio corpo. As birras podem ser frequentes nesse período. Seria o correspondente à fase anal.

Nesse momento, é fundamental tratar os temas mais recorrentes – como xixi, cocô, manipulação dos genitais com a naturalidade que eles merecem, ou deveriam ter. Muitas vezes, como adultos, damos uma carga a certos temas por partirmos das nossas experiências, que podem ser repletas de dores e frustrações. No caso das excreções, evite fazer associações negativas. O uso de uma linguagem simples e acessível, adequada à capacidade de compreensão da criança, é muito importante. Esse não é o momento para dar uma aula sobre sexo ou biologia.

Manipular o próprio corpo é algo natural: a criança está se descobrindo, é preciso fazer o exercício de olhar para o que acontece sem posturas rígidas ou moralistas. Aproveite a oportunidade para apresentar conceitos como privacidade, respeito pelos corpos e a importância do consentimento.

De 4 a 6 anos:

Nesse período, as crianças começam a questionar as diferenças anatômicas entre meninos e meninas, e a atenção passa a ser direcionada para a região genital, focando na existência de pênis ou vulva, de fazer xixi sentado ou em pé.

Quando surgirem as tão temidas perguntas, é importante responder com uma linguagem acessível e transparente. Aproveite as situações cotidianas para ilustrar ou explicar algo. Lembre-se de que sexualidade pode ser um tabu para você, mas as crianças estão descobrindo o mundo e o tema estará presente e será interessante, assim como tantos outros (inclua aqui a extinção dos dinossauros, a miséria no mundo, mortes ou doenças etc).

A masturbação é outro assunto que pode deixar responsáveis de cabelo em pé. Algumas famílias experimentam algum grau de desconforto ao ter que lidar com esse comportamento, mas é importante que o adulto possa olhar para isso pelo prisma da criança, e não baseado em suas vivências e experiências adultas. Os especialistas em sexualidade infantil afirmam que a masturbação é algo normal, natural e saudável: manipular seus órgãos genitais está relacionado à descoberta do próprio corpo. A criança faz isso sem nenhum tipo de malícia ou pudor: para ela, essa manipulação é sensorial, como uma brincadeira gostosa e relaxante, basicamente um toque agradável que propicia conforto. Tome o cuidado necessário para não recriminar ou envergonhar essa criança associações a aspectos degradantes, sujos ou imorais no que tange à sexualidade humana podem impactar negativamente o bom desenvolvimento da criança e marcar sua vida adulta.

De 6 a 11 anos:

Por volta dos 6 ou 8 anos, as crianças podem apresentar questionamentos mais complexos, para além do clássico “de onde vêm os bebês”. Nessa faixa etária, as perguntas podem ser sobre relacionamentos e comportamentos. Se você se sentir envergonhado, reconheça suas dificuldades – aproveite que possivelmente a criança já esteja alfabetizada e utilize livros ou outro recurso lúdico, para abordar de forma divertida e mais confortável para você.

 

De 11 anos em diante:

Nesse momento, que coincide com a adolescência e puberdade, há uma retomada dos impulsos sexuais, que estão mais aflorados. A partir de agora, passa a haver um direcionamento do interesse por pessoas fora do grupo familiar. Para Freud, seria o correspondente à fase genital. É claro que existe uma diferença considerável entre alguém de 12 anos e outra pessoa de 18 anos, por isso podemos fazer uma subdivisão baseada na rientação da Organização Mundial da Saúde – (OMS) no que tange a adolescência.

De 10 a 14 anos:

Essa faixa etária estaria vivendo a pré-adolescência. As dúvidas e curiosidades são bem acentuadas. O uso da internet pode ajudar esse pré-adolescente na busca por informação, porém ele poderá ser exposto a conteúdos inadequados à sua faixa etária, além de receber respostas erradas ou enviesadas. Por isso, é fundamental deixar nítido para seu filho ou filha que você está aberto ao diálogo, que se interessa genuinamente pelo que está acontecendo com eles. Reforçar que não existe questionamento bobo e não ridicularizar o comportamento desse pré-adolescente é fundamental para ampliar a conexão entre vocês.

De 15 a 19 anos:

Essa faixa etária seria o que entendemos por adolescência, sendo que, se esse marco for estendido até os 24 anos, podemos caracterizar como juventude. A partir desse momento, a sexualidade, que era vivida de maneira fragmentada, passa gradativamente se organizar e ser vivida de maneira mais integrada, até chegar na fase adulta, na qual a pessoa viveria a primazia sexual. Nesse período, os responsáveis podem ser confrontados pela descoberta das paixões, dos namoros, do “ficar” e das

primeiras experiências sexuais.

Fique atento em escutar empaticamente sem necessariamente dar conselhos. Os adolescentes, por vezes, querem apenas desabafar – ofereça uma escuta empática e, em algum outro momento, dê sua orientação. Uma boa estratégia é contar para seu filho ou filha quais eram as suas dúvidas e dificuldades nessa mesma idade. Isso pode ajudar na aproximação entre vocês e humanizar a relação. Mostrar que você também já passou por momentos de dúvidas e inseguranças pode ajudar no diálogo. A ideia central é oferecer um canal de abertura para que você seja uma referência para situações em que eles precisarem de apoio e explicações.

Essas são algumas orientações que julgamos interessantes e válidas de serem adotadas. A verdade é que, a cada fase, os responsáveis serão apresentados a novas provocações, e, por isso, não há receitas infalíveis quando o assunto é educação.

Prezar pela construção de uma boa relação, pautada em escuta e confiança desde a tenra idade, é fundamental para que essa conexão se mantenha mesmo em períodos mais desafiadores – como no caso da adolescência. No que tange à sexualidade, esse aspecto é algo natural e que compõe a nossa vida. Fingir que nada está acontecendo ou esperar “pelo momento certo”, que pode ser postergado ao infinito, são posturas que não favorecerão a nenhuma das partes.

É preciso assumirmos nossa responsabilidade de orientar as crianças e jovens mesmo nas temáticas que nos parecem mais espinhosas, pois a falta de informação pode expô-los a riscos e, ao contrário do que se pensa, falar sobre sexualidade não estimula a criança a nada, mas oferece recursos para que possam viver uma vida mais saudável – e, no momento oportuno, tomar decisões mais ajustadas e conscientes.