Transtornos mentais e sinais de alerta

Por Liga Discente da ATC-Rio da PUC-Rio (Vanessa Sandall, Ana Theresa de Abreu Cavalcanti, Fernanda Alves Fonseca, Mariana Pinheiro de Carvalho, Mariana Lima Cavalcante Gaia do Couto, e Maria Amélia Penido)

Os transtornos mentais são caracterizados por uma combinação de alterações no campo do pensamento, das emoções, dos comportamentos e das relações interpessoais. Dentre eles, está o Transtorno Depressivo, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (2017), atinge mais de 300 milhões de pessoas no mundo todo. Ele é marcado por um humor triste, perda de energia, diminuição da capacidade atencional, mudança no apetite e no padrão de sono, além de sentimentos de inutilidade, culpa e desesperança (APA, 2014).

Os Transtornos de Ansiedade, por sua vez, representam um grupo de transtornos reconhecidos por uma ansiedade excessiva, emoção essa caracterizada por sentimentos de tensão, pensamentos de preocupação e mudanças fisiológicas como, por exemplo, aceleração do batimento cardíaco, aumento da transpiração e hiperventilação. Em muitos casos, a pessoa com um transtorno de ansiedade experiencia também ataques de pânico, isto é, momentos de medo e/ou desconforto intenso que atingem o seu pico em poucos minutos (APA, 2014).

Outro sinal de alerta é a automutilação, que corresponde a comportamentos intencionais envolvendo uma agressão direta ao próprio corpo, como o corte na pele, que tem se tornado mais recorrente entre os jovens. Essa autolesão tem como expectativa obter alívio de um estado de sentimento ou de cognição negativos, resolver uma dificuldade interpessoal e/ou induzir um estado de sentimento positivo (APA, 2014). Ou seja, eles são realizados em momentos de um insuportável sofrimento psíquico com os quais esses jovens não conseguiram lidar ou expressar de outra forma.

Relacionado a vários desses transtornos estão os pensamentos intrusivos,  que podem ser descritos como imagens ou idéias desagradáveis, indesejáveis e ​​involuntárias que, portanto, interferem negativamente na vida de jovens que os possuem. O conteúdo dos pensamentos pode se referir a acidentes, doenças, perda de pessoas importantes ou contaminação e tendem a se tornar mais frequentes à medida que a sua presença vai sendo interpretada como errada e negativa (Torres& Smaira, 2001).

Contudo, deve-se lembrar que emoções como ansiedade, tristeza, medo e raiva são naturais do ser humano e nem sempre a sua manifestação é representativa de um quadro psiquiátrico. Sendo assim, é importante ter em mente que a adolescência é uma fase de muitas mudanças, tanto físicas quanto internas. Isso porque o Ensino Médio é um momento de muita pressão em que os jovens começam a definir quem eles querem ser e o que vão fazer no futuro. Todas essas expectativas e idealizações podem ocasionar em sintomas como insônia ou mudanças de humor, por exemplo. Mas eles não necessariamente são relacionados à uma patologia psicológica ou psiquiátrica, podem apenas ser manifestações passageiras ou até estarem ligadas a questões fisiológicas, como mudanças hormonais.

Nesse período de transição é normal que os pais queiram proteger seus filhos de desapontamentos, frustrações e conflitos, mesmo não sendo possível sempre mantê-los sob cuidados e proteção. Um dos meios possíveis de ajudá-los seria ensiná-los a entender e a lidar com seus sentimentos relacionados a experiências desagradáveis. Cabe aos pais usar a escuta para encorajar os filhos a expressarem e a compartilharem seus sentimentos, pois a criança e o adolescente se sentirá menos machucado e sobrecarregado. Dessa forma, eles desenvolvem uma maior regulação de suas emoções e comportamento e farão escolhas melhores ao se deparar com os desafios e os desapontamentos da vida cotidiana (Clark, 2009).

É necessário que essa escuta seja atenta e sem julgamentos. Isso não significa que precisam aceitar todas as ações e comportamentos dos filhos, mas que reconheçam os sentimentos envolvidos. Geralmente, crianças e adolescentes exageram tanto nos seus sentimentos negativos quanto nas situações desagradáveis, auxiliá-los a entender e a esclarecer esses sentimentos aumenta a probabilidade deles compartilharem outras questões e eventos no futuro (Clark, 2009).

Por esses e outros motivos, é importante que a família, como um todo, busque uma rede de apoio e suporte externo, como os profissionais da saúde mental, quando necessário. O entendimento da atuação de cada um desses profissionais também é fundamental. O psiquiatra, por exemplo, por ser médico poderá prescrever remédios mais adequados e ajustar as dosagens para aliviar ou combater sintomas mais prejudiciais, assim como poderá fazer uma avaliação da gravidade do caso e se há ou não uma patologia envolvida.

O papel do psicólogo, por sua vez, é ajudar o paciente acolhendo esse sofrimento e facilitando o surgimento de novos repertórios de comportamentos mais adequados. Pode ainda reestruturar e flexibilizar a forma de ver e lidar com as situações que lhe trazem desconforto. Contudo, muito além de apenas cuidar do adolescente quando este já se encontra em angústia, o psicólogo pode atuar também prevenindo o aparecimento de sintomas, através dos ensinamentos de resolução de problemas, do aprendizado da regulação emocional e da forma de processar e pensar sobre um evento (Gillham et al. 2006).

 

Referências Bibliográficas:

  1. Organização Pan-Americana da Saúde (2018). Folha Informativa – Depressão. Recuperado em março, 2018, de https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5635:folha-informativa-depressao&Itemid=1095.
  2. American Psychiatric Association (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed.
  3. Fortes, Isabel, & Kother Macedo, Mônica Medeiros. (2017). Automutilaçâo na adolescência – rasuras na experiência de alteridade *. Psicogente, 20(38), 353-367.
  4. Torres, Albina R, & Smaira, Sumaia I. (2001). Quadro clínico do transtorno obsessivo-compulsivo. Brazilian Journal of Psychiatry, 23(Suppl. 2), 6-9.
  5. Cordioli, Aristides Volpato. (2008). A terapia cognitivo-comportamental no transtorno obsessivo-compulsivo. Brazilian Journal of Psychiatry, 30(Suppl. 2), s65-s72. 
  6. Gomes, Cema Cardona, Comis, Thiago Osório, & Almeida, Rosa Maria Martins de. (2010). Transtorno obsessivo-compulsivo nas diferentes faixas etárias. Aletheia, (33), 138-150.
  7. Clark L. (2009). SOS ajuda para pais: um guia prático para lidar com problemas de comportamento comuns no dia-a-dia. 3a ed. Rio de Janeiro: Cognitiva.
  8. Gillham, J. E., Reivich, K. J., Freres, D. R., Lascher, M., Litzinger, S., Shatté, A., & Seligman, M. E. P. (2006). School-based prevention of depression and anxiety symptoms in early adolescence: A pilot of a parent intervention component. School Psychology Quarterly, 21(3), 323-348.