A VIDA DO ADOLESCENTE

Por Raul Spitz, Psicólogo e Psicanalista

 

Muito se fala a respeito de uma crise vivida na adolescência. Não são raras as reclamações direcionadas aos jovens durante esse curto, porém intenso, momento da vida. Dessa forma, achamos importante destacar algumas características normais que costumam se manifestar nessa fase. Sim, normais, pois é fundamental compreender que o período da adolescência não reproduz necessariamente doença ou “frescura”, e sim mais uma etapa normal do desenvolvimento da criança em direção ao estágio adulto.

Também é muito importante salientar que tudo aquilo que será abordado com relação à vida dos adolescentes não abrange 100% deles. São apenas características comuns que tendem a aparecer durante essa idade em suas vidas. Além disso, sempre que nos referirmos a “pais”, pode-se entender, também, responsáveis ou cuidadores diretos, pois sabemos que, hoje, contamos com famílias com as mais diferentes formações.

Segundo os psicanalistas Aberastury e Knobel , durante esse período, algumas perdas bastante significativas tendem a acontecer na vida do adolescente. A primeira que podemos notar e que, possivelmente, é a mais flagrante, é a perda do corpo infantil para o surgimento do corpo adulto. Diante dessa transformação, o que se aponta é o fato de que esse é um momento que não dá alternativas para o jovem, ou seja, mesmo contra a sua vontade, o seu corpo biológico se modifica. Isso pode ser sentido por ele como uma violência, emocionalmente falando. A partir desse momento, o jovem é convocado a realizar mais o cuidado do seu próprio corpo, não mais o deixando sob tutela de seus responsáveis.

Outra perda que acontece durante esse período é a da identidade infantil. Na obra Aprendendo a ser e a conviver, Margarida Serrão e Maria Clarice Baleeiro lembram que “o adolescente se afasta da identidade infantil e vai construindo, pouco a pouco, uma nova definição de si mesmo. É um período de reorganização pessoal e social que se inicia, na maioria das vezes, com contestações, rebeldia, rupturas, inquietações, podendo passar por transgressões, para desembocar numa reflexão sobre os valores que o cercam, sobre o mundo e seus fatos e sobre o seu próprio existir nesse mundo”.

A fase da adolescência é como um estágio cheio de novidades para a vida adulta. O psicanalista Erik Erikson atenta que estabelecer um sentido de identidade na adolescência é criar um vínculo entre o que se foi durante a infância e aquilo que se quer ser. É como se fosse o elo entre o que se pensa ser e aquilo que os outros percebem.

Por último, podemos notar, também, um estranho acontecimento nesse período: a perda dos pais da infância. Mas, calma! Não se trata da perda concreta dos pais, e sim da concepção que habitava as fantasias das crianças de que seus pais eram perfeitos e sem falhas. É nesse momento que o adolescente começa a perceber que seus pais são humanos, possuindo falhas e limitações. Isso, em muitos casos, pode ser problemático, pois há um choque em perceber que aquilo que antes era imaginado e sentido por ele não corresponde de fato à nova realidade.

OS RESPONSÁVEIS E OS JOVENS

É justamente por essas condições adversas, muitas vezes, que a importância dos responsáveis em suportar essa “tormenta” é fundamental. De fato, isso não é tarefa nada fácil. Em muitas ocasiões, essas famílias acabam sendo expostas a certas provações diante da instabilidade dos adolescentes. Críticas e acusações entre todos costumam surgir, o que exige altas doses de investimento amoroso para que o jovem consiga realizar seu descolamento natural. Por medo do olhar depreciativo dos adolescentes, frequentemente os responsáveis tentam manter aquela imagem de perfeição intacta para eles. Porém, é muito importante que, nesse momento, eles consigam sustentar tal mudança, assumindo serem incapazes de suprir tudo para os jovens. Isso será marcante para fazer com que o adolescente possa conceber outras referências para sua vida.

NÃO DESISTA!

Passar por todas essas mudanças pode fazer com que os responsáveis tenham muita dificuldade em acompanhar os adolescentes durante essa fase da vida. Essas possíveis desistências, que também podem ser entendidas como um afastamento abrupto emocional ou físico, podem afetar o jovem de diversas formas, muitas vezes dramáticas. O anseio por atenção a qualquer custo, a depressão e a ansiedade podem, muitas vezes, causar danos irreversíveis na vida afetiva dele. Dessa maneira, a participação dos responsáveis durante essa travessia é fundamental para apoiar e ajudar o adolescente a criar soluções próprias e escolhas saudáveis e produtivas. Sem dúvida, eles sempre terão um papel essencial na vida dos jovens.

A adolescência é uma fase de ampliação e alargamento natural das relações sociais para além dos muros da casa e da escola. Mesmo assim, esses dois espaços continuam sendo referências ímpares, porém, agora, acompanhadas por outras, como associações esportivas, comunidades religiosas e grupos definidos por temas de interesse, como estilo de música, dança etc. É uma fase em que a busca por aprovação dos seus semelhantes (outros jovens) se torna bastante relevante. Essa tendência a se aproximar de colegas e grupos não quer dizer que a relação com os adultos (responsáveis e escola) não importa mais. Em muitas situações, as opiniões destes podem ser consideradas mais confiáveis do que as de outros jovens.

Nós, do LIV, entendemos que as pressões sociais e os estereótipos que existem sobre o adolescente inclinam-se a dificultar ainda mais a sua caminhada em direção ao seu desenvolvimento saudável. Porém, o cuidado, o amor, a empatia e uma relação próxima, mesmo com as eventuais dificuldades do cotidiano, de comunicação e de compreensão, certamente são ferramentas de auxílio de grande potencial para o adolescente criar soluções mais robustas e benéficas para suas buscas.

O CÉREBRO DO ADOLESCENTE

A adolescência é um dos períodos em que o nosso cérebro sofre muitas alterações, e novas aquisições são feitas. A plasticidade neurobiológica promove mudanças no comportamento, no humor, no pensamento e nos afetos. Tornamo-nos, muitas vezes, pessoas completamente diferentes do que éramos na infância, o que, assim como já abordamos, pode gerar certo desconforto no âmbito familiar. Por isso, precisamos percorrer novamente certas etapas: aprender a conhecer (e a se conhecer também), a fazer, a ser e a conviver.

Segundo o neurocientista Laurence Steinberg, a adolescência é o último momento na vida de um indivíduo em que o cérebro terá grande plasticidade. Diferentemente do que era trazido nos estudos mais antigos de neurociência, quando a puberdade era tida como um período em que não era possível desenvolver capacidades socioemocionais, o cérebro do adolescente, assim como o da criança, passa por uma reorganização, sendo, portanto, maleável.

Essa é uma boa e má notícia. Se o adolescente é exposto a ambientes negativos, esse período pode se tornar de grande risco para ele. Por outro lado, se exposto a ambientes positivos, com experiências mediadas, os jovens terão uma grande oportunidade de desenvolvimento. Nesse sentido, as escolas e as famílias têm um papel importante de mediar as experiências positivas e apoiar o adolescente no desenvolvimento de suas capacidades.

Avaliando os motivos que levam os adolescentes a se colocarem em situações de risco de maneira corriqueira, Steinberg, por meio de suas pesquisas, traçou uma associação entre o processo humano evolutivo e a forma com a qual o cérebro realiza sua aprendizagem. O pesquisador comenta sobre as vantagens que, no passado, determinadas espécies tinham sobre outras por se colocarem em situações de risco em busca de alimento. Essa busca, atravessada por fortes emoções e pela descoberta do novo, aproximou-se de um sinal de maior capacidade de adaptação dos seres humanos a novos ambientes. A partir disso, nosso cérebro teria aprendido a agir dessa forma e estaria, até hoje, reproduzindo esse mesmo modelo de funcionamento.

Pesquisas atuais apontam para o fato de a constituição cerebral do adolescente possuir características bastante próprias, diferentes do cérebro infantil e do cérebro do adulto. Segundo o neurocientista Jay Giedd, os “tropeços” que costumam acontecer na adolescência são frutos da tentativa do jovem de se adaptar ao ambiente em que se encontra.

Nessa fase, acrescenta ele, há, também, um aumento significativo de conexões neuronais que acarretam maiores intensidades cognitivas e emocionais, ou seja, o jovem se encontra bastante apto a aprender e ávido de agir. Essa é uma possível explicação para os momentos de rompantes emocionais muito comuns nessa fase.

Vocês, da família, continuam sendo a chave primordial para ajudar nessa construção. Por meio do fortalecimento de vínculos, da manutenção da intimidade e da oferta de uma escuta acolhedora e interessada, essa etapa do desenvolvimento do adolescente poderá ser vivida de uma maneira criativa e cheia de descobertas enriquecedoras para a sua vida.

É normal que existam inseguranças e questionamentos. Por isso, o LIV busca ser uma preciosa ferramenta para construir uma relação mais compreensiva.

A seguir, é apresentada uma pequena lista de sugestões a qual os responsáveis poderão recorrer, principalmente quando a situação estiver complicada.

  1. Seja um bom exemplo. Boas atitudes, muitas vezes, “falam mais alto” do que ordens e broncas.
  2. Seja amoroso. Repare bem a forma como fala e o gestual de seu corpo.
  3. Convide o adolescente ao diálogo, mas cuidado com as críticas e com as exigências pesadas.
  4. Acolha os sentimentos do adolescente.
  5. Coloque limites sendo firme, porém justo.
  6. Dê autonomia ao adolescente. Faça isso aos poucos.