Deixar de ser o centro das atenções

Por Dahlia Dwek, Psicopedagoga

A alegria é um sentimento fácil de explicar e de ser sentido. Nosso corpo se expande, nosso sorriso se alarga, nossos braços abrem para fora. Quando estamos maravilhados ou entusiasmados, é possível perceber do menor detalhe ao mais profundo, desde o brilho no nosso olho até um coração que acelera. Por isso que existem poucos prazeres mais saborosos do que sermos o motivo de alegria de um/a filho/a. Gostamos de vê-lo/a maravilhado/a e entusiasmado/a, mas principalmente gostamos de saber que nós fomos aquela pessoa capaz em proporcionar esse sentimento nele.

Do mesmo modo, quando somos o motivo do descontentamento de um/a filho/a, parece que surgem dentro de nós diversos sentimentos desagradáveis. O primeiro e mais flagrante é a culpa: “Será que precisava ser tão duro?”. Quando a criança nos vence pelo cansaço, o remorso é outro: “Por que eu fui tão mole?”.

Esses pensamentos são comuns e compartilhados, ao menos 300 dias por ano em um percentil de 99,9% dos pais e mães. Essa estatística não tem valor científico, mas traduz o argumento de que, dentro de um núcleo familiar, as crianças exercem um poder imenso sobre a estabilidade emocional dos adultos ao seu redor. Nós festejamos suas glórias e compadecemos pelas suas quedas.

Somos aquela torcida incondicional pelo sucesso e bem-estar dos nossos pequenos. Porém, nós não podemos prover apenas prazer aos nossos filhos e isso é ótimo, pois é educativo e formativo.

Para apropriar-se da função educativa de ser pai ou de ser mãe é importante assumirmos que teremos que frustrar a criança de alguns de seus desejos e que a nossa vontade de adulto irá imperar naquele momento. Uma boa referência é a experiência da jornalista estadunidense Pamela Druckermann em “Crianças Francesas Não Fazem Manha: os segredos parisienses na arte de criar filhos” (2012, Ed. Fontanar). Druckerman relata como a autoridade dos pais franceses não é autoritária, pois delimita de modo claro o que é negociável com o que é uma regra, embasada por motivos ditos e intransponíveis à deliberações. O principal retrato da cultura francesa sob a perspectiva da jornalista deixa um preceito muito claro: a criança não é o centro da dinâmica familiar.

É de suma importância que os pais tenham suas atividades de lazer e outras responsabilidades para gerar no núcleo doméstico um ambiente saudável. Ou melhor, é imprescindível que o casal tenha seu próprio espaço com o intuito de que a criança descubra o dela. O/A filho/a que nasce evidentemente precisa de cuidados e de toda a atenção possível, mas gradativamente, ao crescer, é necessário fazer novos ajustes. É reconhecido o fato que as crianças aprendem imitando o que vêem no seu círculo mais próximo. Quando um pequeno identifica que seus pais lhe dão atenção, mas também têm uma vida para si, ele rapidamente compreende que, ao crescer, ele poderá se ocupar de si mesmo e de seus desejos, sem depender de outrem.

Por exemplo, é comum que as crianças queiram interromper a fala dos pais com outros adultos para expressar o que quer que seja. Se a interrupção é bem-sucedida, a criança pode acreditar que sua necessidade prevalece sobre qualquer contexto. Quando o adulto consegue dizer “- Agora não”, de modo firme porém respeitoso, o pequeno perceberá que suas vontades tem hora para acontecer. Neste momento, o valor que a criança está aprendendo na prática é a do respeito.

Respeitar o tempo do outro e do mundo corresponde a um fator primordial para desenvolver outros valores mais complexos como a empatia.

Em seguida, quando o pai ou a mãe estiverem de fato disponíveis para atender ao desejo do filho, essa conversa se dará de modo mais autêntico, a atenção não terá sido dada de modo fragmentado e picotado entre os afazeres diários. Estar 100% em cada lugar viabiliza o aprendizado para quem observa do que é ter foco e dedicação. Por isso, compreender que outros têm outros focos de atenção ensina a criança a olhar para si, a construir estratégias para lidar com tédio ou frustração e abrirá um espaço de um diálogo interior. Desse campo fértil, chamado de vazio mas preenchido de significado, é que surgirá o início da responsabilidade, como uma semente que germina dentro de cada um de nós. Algumas atitudes práticas para exercitar o senso de autonomia da criança foram desenvolvidas em uma tabela Montessori do que os seus filhos podem fazer sozinhos de acordo com sua idade ou desenvolvimento neuromotor.

Finalmente, somente ao estabelecer uma conversa interna com nossos desejos, é que nós poderemos negociar com nossas emoções, ao invés de sermos vividos por elas. E o mais maravilhoso é que isso pode ser aprendido e ensinado, pois a criança é um ser inteligente. Não existe menino/a muito novo/a para aprender limite, regra ou contorno. Cada pequeno/a é um/a adulto/a em potencial, que amadurece em franco movimento diante dos nossos olhos. Ao deixar de ser o centro das atenções dos pais, a criança desenvolve a atenção para si e consolida um pouco mais sua maturidade emocional para a relação com seus pares e seu futuro.