CORPO, IMAGEM E TRANSTORNOS ALIMENTARES NA ADOLESCÊNCIA

Por Beatriz Klimeck, antropóloga do Instituto de Medicina Social (UERJ)

 

A sociedade em que vivemos associa cada vez mais os nossos corpos com o nosso sucesso pessoal, e essa expectativa é sentida por adolescentes e crianças cada vez mais novas. No caso das meninas, há uma grande pressão para emagrecer e se parecer com as “musas” (sempre magras) das redes sociais; no dos meninos, a pressão é para aumentar os músculos e aparentar mais força.

Poucos são aqueles que conseguem se enquadrar nos “requisitos”, e a fase escolar é especialmente cruel com os que não se encaixam. Muitas vezes, a pressão dos colegas é internalizada e se transforma em insatisfação com o próprio corpo.

Essa insatisfação com o corpo é vista como um dos principais indicadores que podem levar a um transtorno alimentar, como anorexia nervosa, bulimia ou compulsão alimentar.

A OMS divulgou que 4,7% dos brasileiros são afetados por transtornos alimentares. Além disso, um levantamento da Secretaria de Estado da Saúde mostrou que, em São Paulo, 77% das jovens entre 10 e 24 anos possuem propensão a desenvolver algum transtorno alimentar. Entre as entrevistadas, 46% afirmaram que mulheres magras são mais felizes, 55% gostariam de acordar magra e 85% acreditam que há um padrão de beleza estabelecido na sociedade.

O que são transtornos alimentares?

De maneira bem resumida, são comportamentos em relação à comida considerados “fora da norma”, e que, de alguma maneira, prejudicam a vida de uma pessoa. Os transtornos mais conhecidos são a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno da compulsão alimentar.

O primeiro, mais difundido, tem como principal sintoma a recusa do indivíduo em se alimentar, ingerindo quantidade insuficiente de comida por dia, com períodos de jejum. Apesar do estereótipo que projetamos em nossas mentes quando pensamos em pessoas com anorexia, nem todas emagrecem drasticamente, e o transtorno não deve ser considerado menos grave por esse motivo.

Já a bulimia nervosa envolve episódios de grande ingestão de comida seguidos de compensações, como provocar o vômito logo após a refeição, adotar períodos de jejum ou usar laxantes e diuréticos.

A compulsão alimentar, por sua vez, é a ingestão de grande quantidade de comida em curto período de tempo, de até duas horas, sem sentir fome, tendo a sensação de perda de controle. Na teoria, diferentemente da bulimia nervosa, não haveria compensação posterior, mas só um profissional adequado pode diagnosticar corretamente, já que nem sempre esses comportamentos estão tão delimitados assim.

Muitos outros comportamentos regulares também são considerados transtornos (e têm tratamento), então não deixe de procurar a ajuda de um profissional de saúde adequado caso desconfie de que o seu filho não está se alimentando corretamente.

A ortorexia, por exemplo, é a obsessão por uma alimentação “saudável”, sem aditivos ou grupos alimentares específicos, chegando a prejudicar o convívio social. Já a alotriofagia é caracterizada pela ingestão regular de não alimentos, como algodão, tijolo, cabelo, papel, cola, entre outros.

A princípio, podem até parecer inofensivos, mas não se engane; a anorexia nervosa, transtorno alimentar mais conhecido, tem taxa de mortalidade mais alta do que qualquer outro transtorno mental, maior até do que a depressão.

São transtornos mentais altamente complexos, causados por fatores biológicos, psicológicos e socioculturais; portanto, não podem ser resolvidos com brigas, obrigando a pessoa a comer ou a se restringir. Não são uma escolha dos pacientes nem culpa dos pais, muito menos “frescura”, “futilidade” ou “coisa de mulherzinha”.

É importante, portanto, ficar atento aos sinais de que seu filho pode estar sofrendo com um transtorno alimentar, pois, quanto mais cedo o diagnóstico, mais eficaz é o tratamento.

Quais são os possíveis sinais de que o jovem precisa de ajuda?

Alguns sintomas são mais evidentes, como grande perda de peso, evitar comer e/ou ir ao banheiro logo após as refeições. Mas outros se confundem com o nosso cotidiano, e é preciso prestar atenção a eles.

Precisamos treinar nosso olhar para enxergar alguns comportamentos que podem ser vistos como absolutamente normais. A contagem de calorias ou nutrientes que leva a

evitar totalmente alguns alimentos – cada vez mais comum – pode ser indício de um “comer transtornado”, ou seja, de uma relação não saudável com a comida.

O exercício físico em excesso, como passar muitas horas na academia, ou em momentos como ao acordar, antes de dormir ou após as refeições, pode ser indício de uma compensação pelo que foi comido, assim como o consumo frequente de laxantes e diuréticos e a indução do vômito.

A organização estadunidense National Eating Disorders Association reporta que 35% daqueles que “estão sempre de dieta” progridem para uma alimentação transtornada, e que de 20% a 25% desses indivíduos desenvolvem transtornos alimentares. Desse modo, incentivar dietas e restrição em crianças e adolescentes pode ser muito prejudicial, principalmente quando isso é acompanhado de frases como “Você precisa emagrecer!”, “Você está muito gordo!”, “Você não para de comer!”. Por mais que a intenção seja incentivar e proteger a criança ou o adolescente, a culpa comprovadamente pode gerar episódios de compulsão alimentar. Gail Saltz, professor de psiquiatria do New York’s Presbyterian Hospital, ao falar sobre uma imagem corporal saudável para crianças, afirma que a vergonha é um dos sentimentos mais debilitantes.

O que fazer para prevenir?

O acolhimento da família é parte fundamental desses processos, com ou sem um diagnóstico de transtorno alimentar.

Incentivar as crianças e os adolescentes a se sentirem bem com eles mesmos e com seus corpos leva a inúmeros benefícios, como maior autoconfiança nos estudos, nas relações sociais e, futuramente, no trabalho. Rosa Cataldo, médica e diretora do Centro de Peso Saudável e Bem-Estar no Brook Children’s Hospital, em Nova York, diz não usar as palavras “acima do peso” e “obeso” com seus pacientes, pois, tenham eles 6 anos ou 16 anos, rótulos podem magoá-los. Ela prefere falar sobre saúde e pensar em propostas para melhorar a alimentação, colocando a mudança de peso em segundo plano.

Apesar de ser algo muito comum, recomenda-se evitar conotações morais para corpos e comidas, como “Pizza é pecado!” ou “Gordo é horrível!”. Da mesma forma, comentários sobre os corpos das outras pessoas – “Fulana está magra demais!”, “Fulano engordou muito, você viu?” – aumentam, nas crianças e nos adolescentes, a sensação de que o corpo deles é mais importante do que o bem-estar, a generosidade ou a inteligência.