Desmitificação da infância feliz

Por Renata Ishida, Psicóloga

No poema “Infância”, o autor Guilherme de Almeida parece mergulhar em uma mistura de lembrança e fantasia, que traz à tona o barulho das gargalhadas e a nostalgia do descompromisso. Ser criança não é poder se divertir sem se preocupar com boletos, com o tempo e com o futuro? Não é rir das coisas mais simples e ser feliz com pouco? Quando vemos uma delas com os olhos brilhando e sorrindo, ou simplesmente comportada sem fazer alarde, a sensação é de que ela está bem e de que nós, adultos ao seu redor, estamos fazendo o que deveria ser feito para garantir a infância exatamente como ela deveria ser: feliz. Realmente, para quem cuida, é enorme o alívio de ver os mais novos com ar de satisfação no rosto. Isso traz paz ao coração, uma calmaria, e aquele frequente sentimento de culpa parece dar uma trégua. Estou no caminho certo! No entanto, basta um grito, um choro, uma birra ou um simples olhar de descontentamento para que o pequeno castelo de areia da parentalidade bem-sucedida desmorone mais uma vez. O que será que eu fiz de errado? Será que meu filho não percebe todo o esforço que eu faço por ele? Como ele pode estar infeliz tendo tudo? Para responder a essas questões, vou percorrer dois caminhos. O primeiro é de que a criança pequena é insaciável. Então, mesmo que vocês tenham passado um dia maravilhoso, ela ainda pode se chatear com aquele último pirulito que não recebeu no último segundo da tarde. Mas o parque, o brinquedo, o sorvete e o cinema foram todos em vão? Não, não foram e não terão sido em vão se tudo o que foi vivido junto tenha proporcionado a possibilidade de criar memórias afetivas, mas como o trilho da satisfação da criança é infinito, ela vai querer sempre mais. Então, cabe ao adulto frear e dizer que ela não pode tudo. Afinal, nós também não podemos. 

 

Sim, isso dá um trabalhão. É preciso suportar o choro, a birra, passar por momentos constrangedores em público, ter paciência. Muita paciência. É preciso negociar com a criança. Essa negociação não significa que ela vai ganhar outro presente para compensar ou que será punida se não obedecer, mas que, ao atravessar esse momento, conquistará algo ainda mais interessante: aprender a lidar com suas emoções e frustrações. É bom lembrar que a criança que tem “tudo” pode não ter exatamente aquilo de que realmente precisa, como a segurança do contorno. Como ela vai aprender a lidar com os obstáculos, se os retiramos sempre de sua vista? Vejo muitas famílias esconderem as passagens tristes da vida ou impedirem que os pequenos se deparem com um pouquinho da realidade do mundo. Sei que é difícil, por exemplo, contar para alguém tão pequeno que uma pessoa querida faleceu. Será que a criança vai suportar a dor? Será que não vou traumatizá-la? Mas, pense só: se uma pessoa desaparece de repente e sem motivo, a criança pode se sentir abandonada. Quando mentimos, damos espaços para fantasias muito piores, e a sensação que pode ser criada é a de que a relação não vale nada. Assim, dizer “não” ou falar algo desagradável podem não ser o caminho mais fácil, mas constituem o caminho mais honesto com os mais novos. Trata-se do caminho que diz que “não é possível realizar todos os desejos” e que “o mundo, às vezes, nos decepciona”. É isto, a verdade. Quando podemos ser verdadeiros, é possível abraçar os sentimentos que aparecem e cuidar deles. Inclusive os nossos. Inclusive os deles. Sim, seu pequeno pode sentir outras coisas além de alegria, e é aí que chego ao segundo caminho que queria traçar. 

 

Na nossa fantasia, a infância só pode ser o lugar da felicidade, mas não é bem assim; como qualquer época da vida, a infância tem suas alegrias e tristezas. Como pode uma pessoa que só brinca, come, dorme e recebe carinho ficar triste? Essa interpretação sobre a vida infantil é muito pobre. Quando a criança nasce, já existe um mundo cheio de regras e símbolos, já existem histórias do mundo e da sua família, já existem expectativas sobre ela. Sua tarefa é, então, desbravar esse mundo e entender o que ele quer dela, quais são seus direitos, o que ela pode e não pode. É um árduo e denso trabalho psíquico e emocional. Ao nascer, ninguém está pronto, as conexões não foram feitas, e essas conexões dependem das experiências de vida. Nesse viés, evitar uma experiência triste, por exemplo, é extirpar a possibilidade de sentir e de produzir conhecimento. Ao atravessar uma tristeza, posso produzir algum saber sobre o amor, sobre as relações, sobre a saudade, sobre eu mesma, sobre o quanto eu aguento. Se eu não posso sentir, eu me perco. Fico sem referências. Tiro a possibilidade de construir mais ferramentas para caminhar na vida. Deixar sentir não é desamparar ou abandonar. É permitir que os sentimentos venham à tona para, assim, poder escutá-los. É estabelecer conexão. É tentar não se antecipar. Quando a gente se antecipa, a criança não tem tempo de criar suas próprias imagens e fantasias e, com isso, sua experiência empobrece. Criança sonha com o mundo. E é nessa busca, entre desejo e decepções, que ela cresce. 

 

Com isso, abandono um pouco Guilherme de Almeida, com sua meninice ensolarada, para encontrar Marilene Felinto, cuja memória lhe diz que “infância são ânsias”. Ou seja, é um tanto de desconforto e outro tanto de desejo, anseio. O que a criança quer não cabe. E isso incomoda e faz crescer.