Diversidade na escola

As relações entre diversidade e escola

Por Phelipe Ribeiro, consultor pedagógico do LIV!

 

Vamos conversar sobre um tema importante: as relações entre diversidade e escola.

 

Primeiro, o que é diversidade?

Diversidade diz respeito à condição própria de nós seres humanos de sermos diferentes e, portanto, diversos. Na vida em sociedade, expressamos nossa diversidade de religiões, crenças, raça, visões de mundo, entre outras. Diversidade é um traço estruturante da nossa identidade, de quem somos. E somos todos diversos. Apesar de a palavra hoje nos remeter a exemplos contemporâneos de pautas políticas diversas tais como as questões de orientação sexual e identidades, trata-se de algo extremamente amplo. 

 

E por que esse conceito importa?

Do ponto de vista do desenvolvimento psicossocial, o contato com e a reflexão sobre a diferença oferece às crianças materiais para entender os limites que existem entre quem elas são e quem são os outros. Sujeitos conscientes do limite de suas interpretações de mundo e da realidade, por via do reconhecimento da diferença, se mostram mais empáticos com os outros e mais respeitosos consigo mesmos.
Para além deste aspecto, o conceito de diversidade é algo que vai se tornando cada vez mais importante na medida em que vamos avançando enquanto um país democrático. A partir da consolidação dos nossos direitos fundamentais, dentre eles a liberdade de nos expressarmos, nossa diferença começa a aparecer cada vez mais. Com isso o convívio com a diferença se torna uma condição da vida em sociedades modernas. E é aí que entra a relação entre escola e diversidade. Justo nesse entrelaçamento em que, pela função que a escola exerce, ela acaba sendo pautada pelas mudanças que ocorrem no mundo.
Abordar diversidade na escola em um mundo cada dia mais diverso remete a um dos mais frequentes objetivos que nós temos quando enviamos nossas crianças para a escola: o de prepará-las para o mundo, para a vida em sociedade e para o trabalho. 
Vale lembrar que é esperado que em todos esses âmbitos haverá diversidades de vários tipos. Independente da interpretação que venham a fazer da realidade quando adultas, importa que nossas crianças possam, desde agora, transitar pela vida em sociedade respeitosamente em relação aos outros e a elas mesmas. 
É essa a educação que servirá definitivamente para maiores possibilidades de êxitos profissionais, pessoais e coletivos.

 

 Atenção! Fazer isso não é fácil!

Lidar com a diversidade é um processo que toca a todos nós. Confundir a diversidade com adversidade é algo frequente. Aquilo que nos é estranho ou diferente produz sentimentos, frequentemente, desconfortáveis. Mas superar esse desconforto em prol de um compromisso em oferecer às nossas crianças a educação mais excelente e útil possível deve nos aparecer como uma possibilidade interessante de motivação. 
Oferecer às nossas crianças espaço para que possam fazer o mesmo é algo que pode passar inclusive por um exemplo humanizado no qual não escondamos delas o quão difícil pode ser, mas se preocupando de igual maneira em expressarmos o quão recompensador e importante para a vida delas também será.
  Tratar da diversidade no ambiente escolar pode passar por muitos momentos, desde os mais sutis aos mais explícitos. Pontos alarmantes são que não invisibilizemos aqueles que são diferentes em nome “da maioria”, porque a maioria é sempre fictícia. 
Suponhamos uma turma de alunos de maioria cristã, entretanto, temos um aluno budista. Não dar espaço a essa diferença e pasteurizar a turma de modo a tratá-los como se a diversidade não existisse furta aos alunos a possibilidade de discutir, refletir e encenarem as reações que possam ter frente à diferença. Além disso, pensar que os alunos da maioria cristã são todos iguais em suas concepções de mundo e maneiras de interpretar uma mesma mensagem, se é que é a mesma mensagem, é um equívoco. A diversidade é regra. 

 

Mas como fazer isso de modo prático? 

No material do LIV buscamos, de modo convidativo, construir espaços para o contato e a reflexão com a diversidade, seja nas narrativas propostas ou nas atividades que convidamos os alunos a participarem. A diversidade presente frequentemente se aponta sem muito esforço. Mas tal iniciativa não está limitada ao desenvolvimento das habilidades socioemocionais propostas nas aulas de LIV. Ela pode ocorrer em outras disciplinas tidas como tradicionais, e de maneira não necessariamente trabalhosa do ponto de vista prático, mas sim subjetivo. Para pensarmos nelas precisamos “sair do que nos é familiar”, nos comprometermos com uma educação pautada pela realidade. 
Imagine que uma professora de matemática escreve no quadro um problema matemático que aborda a quantidade de incensos acendidos por um monge budista e quanto tempo cada incenso levará para ser queimado. Por que usar exemplos em problemas matemáticos nos quais o engenheiro é sempre um homem, a enfermeira é sempre mulher, o cenário é sempre a grande cidade do sudeste? 
Ou ainda, um professor de redação que propõe uma tarefa na qual os alunos devem dar continuidade a uma história de uma aluna que mora com seus avós e não com seu pai e sua mãe, como usualmente pensamos ser a realidade da (fictícia) maioria de nossos alunos. Por que pedirmos para nossos alunos dissertarem ou imaginarem apenas no terreno do familiar e do conhecido, quando escrever pode ser um exercício de projeção e de produção de novos conhecimentos? São detalhes que podemos usar para trazer a diversidade para dentro da sala de aula. 
Queremos que nossas crianças possam ir além do que fomos, que sejam melhores do que somos e mais capazes do que seremos. Queremos que, por meio de nossas crianças, o mundo do futuro seja melhor, mais harmonioso e com menos problemas. Para isso, precisamos nos comprometer com uma educação igualmente melhor. E lidar com a difícil tarefa de acolher a diversidade fará, de maneira irremediável, parte desse compromisso.