O uso dos espaços urbanos para crianças

Por Lourdes Atié, Socióloga


Se esta rua fosse minha… Houve um tempo, e nem faz tanto tempo assim, em que as crianças brincavam livremente nas ruas. Não importava a idade; se soubesse andar sozinha e falar, já ganhava a rua. E, como sempre havia irmãos nas famílias e a vizinhança sempre se conhecia, todos cuidavam dos menores. E a rua era de todos! Era na rua que as crianças aprendiam a ter atenção ao caminhar, protegendo-se dos carros e de todos os perigos. A vizinhança também cuidava. Inclusive, se alguma criança fizesse “arte”, logo tinha uma vizinha contando à sua mãe. Era também na rua que as crianças viviam plenamente seus sentimentos, como, por exemplo, ser escolhida para ser a melhor amiga daquela menina; ou ser reconhecido como aquele que sabia jogar bem; ou ser defendido pelo maior quando algum menino menor queria briga; ou ser rejeitado; ou alguém “ficar de mal” quando só queria sua amizade. Em caso de briga, a filosofia era igual para todas as famílias: em briga de crianças, adultos não se metiam. Enfim, a rua era de todos, e lá se aprendia a viver de verdade. O tempo passou mais rapidamente do que queríamos, e muita coisa mudou. As famílias alteraram suas formações, os adultos passaram a trabalhar mais, as crianças deixaram de ter acesso à rua, que foi ocupada pelos carros e passou a conter cada vez menos gente, tornando-se perigosa.

Com mais da metade da população mundial residindo em áreas urbanas, proporção que deve chegar a 70% em 2050, como informou a Organização das Nações Unidas (ONU) em um estudo de 2019 – índice que chega a 84,3% no Brasil –, as cidades acentuaram situações de discriminação e exclusão de toda ordem: social, econômica, de gênero, étnica, religiosa ou de grupos mais vulneráveis, como as crianças, os idosos e as pessoas com deficiência. A vida das crianças empobreceu. Elas ficaram limitadas aos espaços privados. Nesses espaços – a escola ou as residências –, passaram a ter acesso ao mundo digital e se afastaram do mundo físico. Seria uma falsa questão achar que podemos nos contrapor ao mundo digital; isso não é possível porque é a marca do nosso tempo. A questão é que, em nome de garantir uma segurança para as crianças, inundamos sua rotina com tecnologia, privando-as de ter experiências de liberdade. Mas podemos mudar essa história. Como? Devolvendo a cidade às crianças! A criança urbana é a principal vítima da segregação socioespacial. Por onde andam as crianças que já não mais estão nas ruas do Brasil? Elas estão vendo a vida pela janela de algum veículo, caso não estejam olhando para alguma tela. A cidade é apenas o lugar de passar, e não de ficar. Não existem espaços públicos com segurança adequada para as crianças. Nem nas calçadas, nas praças ou nos jardins. Os espaços destinados a elas as isolam do espaço coletivo.

As crianças brasileiras de classe média e alta têm a marca da crescente falta de autonomia em relação à mobilidade nos meios urbanos. Já as crianças dos grupos socialmente vulneráveis percorrem as ruas e os espaços próximos de suas moradias, que se constituem em territórios infantis por onde elas exercem um significativo domínio; o que só ocorre, porém, nesses espaços mapeados, que são geralmente excludentes. Não é necessário que se criem espaços especiais para elas, da perspectiva do adulto. As crianças têm o direito de ter as próprias experiências em ambientes comuns a todos. Portanto, uma cidade sem crianças nas ruas é uma cidade pior. É uma cidade feia, insalubre e perigosa. A vida da criança contemporânea está homogênea. Tudo igual: mesmos amigos, mesmos lugares, mesmas atividades; tudo monitorado pelos adultos. Não anda na rua sozinha, não descobre o mundo de forma autônoma. Tudo é previsível e “agendável”. Sabemos que a má educação na infância não é apenas a ausência de limites, mas também a falta de autonomia. Agora, imagine se as crianças pudessem voltar a caminhar sozinhas pelas ruas da cidade, se fosse segura e pudesse garantir às crianças o direito de desfrutar dela com autonomia, brincar, circular e ficar na rua. Um sonho? Não; há cidades que conseguem ser assim. E não é uma volta ao passado, nem se trata de localidades provincianas. Estamos falando que isso já acontece em muitas cidades pelo mundo, o que mostra ser possível construir uma diferente dessa em que vivemos. Uma que seja educadora! Indicamos, a seguir, algumas experiências que demonstram que também a cidade é lugar de aprender, e não apenas a escola. Espero que os adultos recuperem a rua da sua infância, e que isso não se dê como um retorno ao passado, mas como um presente possível em que a cidade, em conjunto com a escola, crie, para as crianças, espaços públicos abertos que sejam verdadeiros territórios de aprender para todos. Lourdes Atié

Para saber mais: Cidades Educadoras (www.edcities.org) é hoje uma associação internacional que abrange 478 cidades de 36 países de todos os continentes. No Brasil, são 16 cidades que compõem a rede brasileira. A ideia surgiu em Barcelona, em 1979, com a conquista da democracia municipal, no mesmo ano em que se aprovou o Estatuto de Autonomia da Catalunha. A ideia inicial era criar um ambiente urbano de educação que respeitasse o passado e que projetasse a cidade para o futuro; um ambiente urbano que envolvesse as pessoas e as fizesse sentir orgulho de pertencer a essa cidade. Em 1994, foi criada a Asociación Internacional de Ciudades Educadoras (Aice), durante o III Congresso das Cidades Educadoras, em Bolonha, Itália. São 20 anos de um movimento mundial em busca da construção da cidade que educa, aquela que pode e deve ser, simultaneamente, marco e agente educador. Qualquer cidade do mundo pode se candidatar a ser uma Cidade Educadora, desde que atenda aos pré-requisitos estabelecidos pela Aice.

La Città dei Bambini (www.lacittadeibambini.org) é um projeto criado em 1991, por Francesco Tonucci, desenvolvido em uma comunidade italiana chamada Fano, na região de Le Marche, na Itália. A proposta consiste em adotar uma nova filosofia de governo e de cidade que seja 100% voltada para as crianças. Mas não estamos falando de um parque de diversões ou de um lugar que seja cheio de brinquedos. É uma cidade comprometida em atender às necessidades de todos os cidadãos, ou seja, uma cidade melhor para todos de verdade. Isso significa garantir que as crianças possam ter experiências como cidadãos autônomos e participativos. Lá, a criança é respeitada como cidadã, que tem capacidade de interpretar e de expressar suas necessidades e ajudar a construir a cidade na qual quer estar. Assim, a cidade se transforma também em um laboratório de experiências para aprender para além da vida escolar.

Child Friendly Cities (childfriendlycities.org) é um programa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) que credita cidades que querem se tornar “cidades amigas da criança” (CFCI), levando as diretrizes da Convenção sobre os Direitos das Crianças para o nível local. Significa dizer que, na cidade amiga da criança, esta tem voz, e suas opiniões são levadas em conta para a definição de políticas públicas. Assegura seus direitos de uso e circulação nos espaços urbanos, ou seja, ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, brincar, praticar esportes e se divertir com segurança.