QUANDO OS FILHOS CRESCEM…

Por Márcia Frederico, Psicóloga e consultora pedagógica do LIV

 

Criar filhos para o mundo. Será que estamos mesmo criando filhos para o mundo? Será que queremos mesmo que eles ganhem o mundo e saiam de perto de nós? Qual é esse perto, e esse longe que suportamos? Que independência é essa que queremos que tenham de nós? A independência financeira com certeza. Se bem, que conhecemos muitos pais que justamente mantém uma certa dependência econômica de seus filhos, para assim poderem controlar, decidir, e enfim terem a sensação de que estão mais próximos e inseparáveis.

 

Essa contradição entre prender e deixar ir, começa a acontecer quando eles vão se tornando mais independentes, vibramos e incentivamos quando começam a andar, mas quando correm demais estamos ali para dar um freio. Se correm pra longe então, entramos em desespero. E quando vão crescendo essa independência maior está sempre nos colocando em cheque. O que podemos e devemos permitir, e o que temos ainda que proteger?

 

Vamos definir aqui sobre que faixa etária estaremos refletindo com esse texto. Vou focar aqui naquela idade de anos finais do Ensino Médio, e ida para o mundo, seja através de uma faculdade ou não. Emprestarei aqui uma mistura do meu olhar como mãe, como tia, como professora e psicóloga de famílias. Buscarei trazer as experiências e aflições percebidas neste meu entorno, de forma bem realista.

 

A ARTE DE CRIAR EXPECTATIVAS

Pais e mães são verdadeiros artistas quando o assunto é projetar um futuro para seus filhos. Aliás, alguns começam ainda crianças, nas brincadeiras infantis em que fazemos de conta que temos uma família, filhos (bonecas, gente, pelúcias, cachorros, gatos…), ali começamos a criar uma fantasia sobre esse ser que será a nossa “extensão”, que será tudo que não conseguirmos realizar.

Depois crescemos, e quando de fato concretizaremos o fato de termos os “nossos” filhos, a fantasia volta à tona, só que agora potencializada por nossas frustrações, que terão que ser “sanadas” por este novo ser. Mesmo, quando escutamos alguns adultos dizendo que não esperam nada de seus filhos, que não criaram expectativas, que o que quiserem ser e fazer da vida será bem-vindo, mas, que SÓ desejam que eles sejam felizes.

Como se SÓ ser FELIZ fosse pouca coisa.

A realidade vai se impondo, e quando eles aprendem a dizer não pra gente, a os contrariar nas pequenas coisas, começamos a perceber aí que temos um OUTRO ser humano em nossas vidas, em nossas casas, sob os nossos cuidados e orientações.

O pediatra do meu filho costuma dizer que enquanto eles tem bochechas costumamos ser mais tolerantes e amigáveis, mas quando nascem as espinhas nós também nos afastamos dos nossos filhos, e que isso faz parte de um processo de amadurecimento e de autonomia necessária alcançada por eles. Escuto muitas vezes no consultório falas de mães, principalmente, se queixando assim: “não reconheço mais meu filho!”, “parece que algo se rompeu, ele era uma pessoa quando criança e agora tem atitudes e pensamentos tão estranhos, nem parece mais a mesma pessoa!”, “criei um monstro!”, “onde foram parar os valores, a educação que eu dei pra ele?!”.

Esse assombro, apesar de corresponder a uma etapa mesmo de mudanças, físicas, hormonais etc, refletem muito também a qualidade da relação que foi construída com esses filhos. Se mantemos um laço de intimidade, de conversas, de acompanhamento com eles, o susto será bem menor. Mas, se nos afastarmos demais, se pararmos de observar e prestar atenção a eles, a situação piora muito.

Temos que ir adaptando a forma de falar, de tocar de nos relacionar com cada idade de nossos filhos. Assim como as roupas, muitas atitudes não cabem mais. Observo que muitos responsáveis não conversam sobre seus medos, desejos, sonhos, limites para essa nova etapa da vida. Nem sobre os seus e nem sobre os de seus filhos. Geralmente, a conversa gira em tom de um interrogatório, de perguntas, de pressão, de cobrança.

Como é difícil abrir espaço para escutar que os sonhos e desejos de nossos filhos nem sempre batem com os nossos sonhos e desejos para eles, e que muitas vezes eles ainda nem conseguem ter sonhos e desejos pra eles próprios, como lidar com essa angústia? Procuramos logo preencher os seus vazios com ideias e sugestões de coisas pra fazer, pois “o ócio é oficina do diabo”, acreditam alguns. Não damos tempo e nem espaço para o vazio, para a dúvida, para a busca. Queremos logo que encontrem, que definam, que trilhem em direção a uma meta.

E, para surpresa de muitas famílias, apesar de tanto orientarem, oferecerem etc, seus filhos acabam se somando à triste estatística de que temos uma adolescência estendida até uns 29/30 anos…Como lidar com esse eterno estudante? Ou com esse eterno dependente financeiro? Ou com esse jovem adulto que mora conosco, traz seus parceiros sexuais e/ou amorosos, com quem já não cabe mais certas broncas, limites…?

Quanto a este tema: trazer namorada(o) pra casa, muitas famílias têm dificuldades em lidar com a sexualidade dos filhos, primeiro com o fato de que sim, ela existe, a sexualidade. Depois de lidar com as escolhas, e parcerias, e aí cabe também as escolhas de amizade. É difícil mesmo lidar com aquela ideia de que seríamos pais e mães diferentes dos nossos, que não seríamos caretas, ou hipócritas, que teríamos diálogo, respeito às escolhas de nossos filhos, lógico que se essa escolha não oferecesse riscos ao nosso rebento. Estamos falando aqui, de algo bem mais simples, e que vira um bicho de sete cabeças.

Cresci escutando de algumas mães, que a casa da gente deve ser o lugar mais seguro para viver experiências de risco: beber, fumar cigarro (fora de moda agora, ainda bem), experimentar uma maconha… E que é melhor levar namorados, amigos e etc para dentro de casa, do que ficar exposto em lugares perigosos…Mas, como lidar com isso na prática? Como aguentar conviver com pessoas que não escolhemos? É um exercício de muitas negociações, e que precisa ser enfrentado com muita clareza e honestidade, mas também com muito respeito e carinho pelos nossos filhos.

Sem dúvida os desafios em lidar com esses filhos que crescem e estão se tornando adultos não é fácil. Não temos receitas, mas para mim gosto muito de usar uma percepção que alguns psicólogos falam recorrentemente em muitos artigos, que devemos lembrar que nós também já fomos adolescentes, e que entre nós (pais e mães) e nosso filho(a), existe o nosso adolescente interferindo nesta relação. Esse “fantasma” ressurge principalmente nos momentos de conflito e confrontos. Portanto, dê uma pausa, converse com esse seu adolescente interior antes, e volte a olhar para o seu verdadeiro adolescente que é o seu filho. E, por favor, faça também uma revisão nos seus preconceitos, contradições, se atualize e pare de repetir antigas fórmulas para novos tempos e novos desafios…