Não proteja os jovens da internet. Ajude-os a navegar

Por Guilherme Cintra, Assessor para Transformação Digital Sec Municipal RJ

A educação é uma atividade que pressupõe um conflito intergeracional. Explico-me. Esse texto foi feito para pessoas que, ao nascer, não tinham a internet como um elemento básico da existência. Diferente dos jovens atuais. Estes nunca viveram em um mundo onde, para fazer pesquisa, precisavam pegar uma Enciclopédia Barsa de uma prateleira pesada no topo de uma escada, correndo risco de queda eminente. A única queda que tem em mente é a da internet.

E essa gera um desespero imediato. E aí entram as preocupações dos responsáveis. Afinal, seus filhos e filhas vivem em um mundo completamente distinto do que o de sua própria infância. E, muitas vezes, veem esses jovens passando uma fatia enorme de sua existência mergulhado nos bytes que estão na ponta de seus dedos.

A primeira dúvida que surge é: com quem será que minha filha/filho está falando? Outra que tem surgido é se o cérebro em formação não será afetado por esse comportamento quase obsessivo com tecnologia.

São preocupações totalmente razoáveis. Mas a internet está aí e apresenta oportunidades incríveis de aprendizado. Logo, será usada. Como lidar?

Com quem meu filho/filha está falando?

Se a sua preocupação é com a segurança deste jovem, afinal, nunca sabemos com quem ele pode estar falando, lembre-se que a sua família já disse para você algum dia nunca falar com estranhos. Porém, de fato na internet, o acesso a estranhos é muito mais simples.

Com isso, algumas famílias buscam “proteger” esta criança ou adolescente da internet. O problema disso é que, como qualquer outra medida de superproteção, este ser humano em formação não aprenderá a tomar decisões por si mesmo do que é correto.

Assim, como qualquer outra atividade social ensinada, no início do processo há de se ter uma vigilância maior. Conversar constantemente sobre com quem aquele jovem está falando. Os riscos de determinados sites. Em alguns casos podem ser usados aplicativos para monitorar o uso da internet.

Mas o fundamental é uma boa conversa sempre. Um jovem que acredita que está sendo espionado sem uma conversa sobre o porquê de você estar interessado na sua atividade na web pode se isolar. E esse isolamento é muito mais perigoso porque é invisível. Um jovem digitando pode estar falando com um amigo mas também com alguém completamente estranho, algumas vezes com más intenções.
A internet está em toda parte. Ele encontrará uma forma de se logar. E o fará sem sua supervisão. E aí o risco é maior. E lembre-se, eventualmente precisamos deixar esse jovem usar a internet sozinho. Você não estará no escritório em seu primeiro dia de trabalho para garantir que ele não esteja falando com estranhos…

Será que o meu filho/filha não vai se desenvolver com tanta internet?

Uma preocupação que surge cada vez mais é que o jovem tenha problemas pelo excesso de uso de tecnologia. Um exemplo é a visão de que cada vez menos essas crianças e adolescentes têm atenção.

O que pesquisadores têm teorizado é que em realidade, a forma como nosso cérebro tem processado informações é a mesma. Porém, temos menos paciência. Com toda informação do mundo literalmente na ponta dos dedos, porque eu devo esperar alguém me explicar?

Precisamos portanto, entender que esta é a realidade atual. Se antes era fundamental que nossos jovens desenvolvessem a capacidade de memorizar conteúdo de forma massiva, hoje isso é no mínimo anacrônico. Existem conteúdos que devem ser memorizados para serem de acesso imediato, porém, a vasta maioria o Google resolve (afluentes do Rio Amazonas, alguém?)

Assim, nosso papel muda. E também o do jovem. Se continuarmos cobrando os mesmos processos dos alunos, temos risco de aliená-los e de fato, suprimir seu desenvolvimento. Cada vez mais deixamos de ser meros consumidores de conteúdo para produzi-lo. E precisamos adaptar a realidade de nossa cobrança para os alunos de acordo.

Se queremos que o jovem leia e se informe, podemos pedir para que ele faça um resumo de algum livro. Excelente, desenvolve a capacidade de síntese. Porém, hoje é simples encontrar resumos na internet, adaptá-los e… problema resolvido em 2 minutos. Hora de ficar entediado e procurar a próxima conversa no WhatsApp.

Agora, uma escola que demande de um jovem a busca por mais de uma fonte de informação sobre um assunto, com vieses políticos diferentes para que possa analisá-los e produzir sua visão da verdade, estará de fato preparando o jovem para um mundo onde Fake News abunda. E você, responsável, pode se engajar, discutindo essas questões com sua filha/filho, deixando claro como preza por suas capacidades e sua evolução. Suas provocações em uma boa conversa trarão um desafio adicional para um jovem que está acostumado a encontrar “verdades” na primeira linha da pesquisa do Google.

Com isso, onde ficamos?

A internet está aí para ficar. Como responsáveis preocupados com o bem-estar e desenvolvimento destes jovens, precisamos ser capazes de entender este novo mundo e nos adaptar a ele.

Lembremos que, como sempre, autonomia deve ser conquistada pelos jovens e ensinada pelos adultos. Isso não muda. Mudam apenas os desafios que se impõe. Mas a exposição dos riscos e a busca pelo diálogo são e sempre foram a forma de levar um jovem a se tornar um adulto autônomo.

E lembremos ainda que, se a internet parece tornar muito simples a busca pelo prazer, precisamos mostrar que as coisas não são tão simples quanto a internet faz parecer. Acesso a informação é diferente do encontro da verdade. E o que a web mostra como maravilhoso muitas vezes esconde riscos ou ilusões.

Existe um mundo fora dos bytes para ser vivido. Mas o jovem só perceberá isso quando o ajudarmos a entender quão maior é o prazer quando aprendemos a lidar com as frustrações na busca pelo que nos faz feliz.