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Um pai e uma professora conversam com um menino na escola.

Estamos criando meninos que sentem?

Imagine uma cena que costuma ser comum: um menino cai, se machuca, e antes mesmo de chorar, ouve alguém dizer “engole o choro. Homem não chora”. Essa frase, repetida por gerações, carrega um peso. Quando meninos manifestam o que sentem, podem ser vistos com estranhamento em muitos espaços.

Ela não somente reprime o choro, mas também pode ensinar que sentir é fraqueza. E assim, acabamos formando meninos que não falam sobre o que sentem, que aprendem a esconder a dor atrás de silêncios.

Diante disso, é bom refletirmos: será que estamos oferecendo aos meninos a chance de se conectarem com suas emoções? A escola tem sido um espaço onde eles podem se expressar sem medo de julgamento? Ou ainda estamos reforçando, mesmo sem querer, a ideia de que o sentimento masculino deve ser contido?

Essas perguntas não têm respostas simples. Mas elas nos convidam a olhar com mais cuidado para como educamos, acolhemos e escutamos os meninos todos os dias.

A escola como espaço de escuta e acolhimento

Na escola, no recreio, nas rodas de conversa, os meninos continuam sendo cobrados por uma postura de aparente força. Os professores e gestores, que acompanham o dia a dia escolar, sabem o quanto essa cobrança pode se manifestar de forma sutil e persistente. 

Na sala de aula, esse padrão se revela em comportamentos que desafiam a escuta. Meninos que não conseguem nomear o que sentem podem acabar expressando suas emoções por meio da agitação, da agressividade ou do isolamento. E, muitas vezes, são rotulados como “difíceis”, quando, na verdade, estão somente tentando lidar com sentimentos que não sabem como verbalizar.

É nesse ponto que o papel da escola se torna essencial. Os educadores têm a oportunidade de abrir caminhos para que esses meninos possam sentir, falar e elaborar suas emoções. Isso significa reconhecer que o desenvolvimento socioemocional é parte do processo educativo.

Quebrar o ciclo exige escuta

Um dos episódios mais impactantes da série Adolescência nos apresenta Jamie (um menino criado com afeto, atenção e presença). Seus pais, Eddie e Manda, fizeram o que muitos considerariam o ideal: acompanharam de perto sua rotina, ofereceram limites, evitaram repetir os erros do passado. Ainda assim, foram surpreendidos por uma tragédia que parecia impossível em um lar amoroso.

Esse episódio nos convida a olhar para além da superfície. Jamie não cresceu em um ambiente negligente. Ele estava em casa, sob o mesmo teto, mas emocionalmente isolado. Passava horas trancado no quarto, imerso em conteúdos online que seus pais não conseguiam acessar, nem perceber. 

E é aí que a série toca em um ponto sensível: o que acontece quando o vínculo físico não é acompanhado por uma escuta verdadeira? A história de Jamie não é sobre culpa, mas sobre complexidade. Ela mostra que proteger não é o mesmo que se conectar. 

Que estar por perto não garante presença emocional. E que, mesmo em contextos de cuidado, meninos podem se perder quando não encontram espaço para falar sobre o que sentem, para elaborar dúvidas, medos, raivas e frustrações.

Hoje, o acesso à informação é ilimitado — e isso inclui também discursos de ódio, intolerância e violência. Uma criança emocionalmente isolada, mesmo que bem cuidada, pode ser capturada por essas narrativas. 

E quando não ensinamos os meninos a nomear o que sentem, eles podem buscar respostas em lugares onde o acolhimento não existe, mas somente a promessa de pertencimento.

Por isso, criar meninos que sentem é também ensinar a filtrar ideias, a questionar influências, a reconhecer quando algo machuca por dentro. É abrir espaço para conversas difíceis, mesmo quando tudo parece estar bem. Porque o silêncio, muitas vezes, não é paz — é ausência de escuta.

O papel dos programas socioemocionais

Nesse contexto, iniciativas como o programa socioemocional ganham relevância. Eles não oferecem fórmulas prontas, mas sim caminhos para a escola poder acolher os sentimentos de todos, inclusive dos meninos. 

Ao trabalhar habilidades como empatia, autorregulação e escuta ativa, esses programas ajudam a desconstruir a ideia de que o sentimento masculino deve ser contido.

Mais do que ensinar sobre emoções, eles criam uma cultura de cuidado. E quando essa cultura é vivida no cotidiano escolar, os meninos começam a entender que sentir não é errado. É humano.

Paternidade: o afeto que educa

Falar sobre meninos que sentem também é falar sobre os homens que os acompanham na jornada da vida. A forma como os meninos aprendem a lidar com suas emoções está profundamente conectada à presença emocional e afetiva de figuras paternas que se permitem escutar, sentir e estar.

Muitos homens crescem sem referências de afeto e proximidade, carregando a ideia de que ser pai significa apenas prover ou corresponder a estereótipos de masculinidade. Essas construções equivocadas reforçam o silêncio sobre sentimentos, a dificuldade de chorar, de buscar ajuda ou de admitir a dor.

Refletir sobre paternidade é perceber que ser pai não é sobre perfeição, mas sobre presença. É sobre tempo compartilhado, escuta verdadeira e afeto que se constrói no cotidiano. O que os filhos muitas vezes desejam é convivência real: conhecer quem os acompanha, viver momentos de qualidade e também de quantidade, porque vínculos profundos não se criam na ausência.

A criação de meninos não precisa seguir um roteiro rígido. Ela pode ser feita de encontros, de tentativas e de descobertas. Quando convivem com adultos que se permitem sentir, aprendem que também podem fazer o mesmo com leveza, coragem e afeto.

Para continuar refletindo…

Se esse tema te tocou, vale se aprofundar. O episódio do Videocast LIV Sinto Que Lá Vem HistóriaMeninos não choram: um novo olhar sobre a infância e a masculinidade”, com Emanuel Aragão, é uma excelente porta de entrada para essa conversa. 

Ele traz uma perspectiva sensível e potente sobre o que significa ser menino hoje, e como podemos construir uma infância mais livre e acolhedora. Porque, no fim das contas, criar meninos que sentem é criar um mundo mais humano. E isso pode começar com cada um de nós.




O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.