A escola do século XXI e a importância das habilidades socioemocionais na formação de nossas crianças e adolescentes

20 de setembro de 2018

“Educar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua própria produção e construção.” Paulo Freire

Fechemos os olhos e pensemos na escola que a maioria de nós frequentou. Imagino que o que deve ter vindo à mente de vocês é a datada imagem de fileiras de alunos sentados quietos em suas carteiras individuais, em frente a um conteúdo estanque no quadro negro, enquanto um professor, provavelmente em cima de um palanque, passa o conhecimento sem questionamento. Acertei? Ou a lembrança pode ter sido, também, de um sinal ensurdecedor tocando, seguido pelo som de passos aflitos correndo para um pátio cinza, onde se daria o momento de recreio, único período de 30 minutos de movimento amplo a que esses corpos aprendizes eram destinados ao longo do dia. Triste é pensar que esse ainda é o retrato da maioria das escolas ao redor do mundo e, principalmente, em nosso país – que ocupa o 63º lugar no ranking de educação no mundo, segundo pesquisa recente do Pisa (Programme for International Student Assessment, ou Programa Internacional de Avaliação de Estudantes).

Essa realidade, porém, já está mudando, na direção de uma educação que faça sentido para nossas crianças e jovens e, principalmente, que extrapole os muros da escola e as mesas individuais. A escola precisa ser essencial e verdadeira, além de oferecer riscos, calculados, aos alunos. Precisa ser espaço de encontro, troca, inventividade, criatividade e, mais do que tudo, de olhar e conexão com o outro, segundo Lourdes Atié, professora que trabalha com formação de educadores pelo Brasil e que esteve com nossa equipe no treinamento de julho.

Já é consenso, também, que a escola do século XXI é aquela que prepara para a vida, e isso requer uma formação integral do ser humano, focada não somente em competências formais, mas também em habilidades socioemocionais. Uma escola que tem o aluno como centro do conhecimento – que respeita seus ritmos e processos e, mais do que isso, seus interesses. Uma escola que tem como ponto de partida e de chegada o exercício da autonomia no campus de aprendizagem. É essa escola que estamos construindo diariamente, com toda dor e delícia inerentes ao crescimento, aqui em nossa casa e junto à comunidade Eleva.

Dentro de uma sociedade cada vez mais conectada e globalizada, é urgente formarmos cidadãos que trabalhem em equipe de maneira colaborativa, pensem criticamente e, mais do que tudo, saibam reconhecer e lidar com suas emoções no mundo real e no virtual. Essas são competências e habilidades essenciais para a vida em sociedade e para o sucesso nas profissões contemporâneas. Por isso, o LIV (Laboratório de Inteligência de Vida) é não só uma aula específica em nossa escola, mas também um pilar que sustenta nossa missão de formar os líderes do futuro. Com currículos desenhados especialmente para cada segmento, o LIV traz para a sala de aula um tempo e espaço para entendermos, nomearmos e dialogarmos sobre nossas emoções. Atravessa todo o processo de ensino e aprendizagem, além de suscitar debates sobre questões urgentes e importantes que permeiam os universos infantil e adolescente contemporâneos.

No último fim de semana de agosto, que antecedeu o dia do Psicólogo, o evento do LIV 2018, iniciativa do Grupo Eleva, reuniu mais de mil professores de todo o nosso país. Com o intuito de trocar informações e repensar práticas diárias na escola, refletimos sobre uma educação que tem em sua centralidade a formação de sujeitos críticos, responsáveis, bondosos e, acima de tudo, comprometidos com a construção de uma sociedade pautada na ética.

No evento, tivemos a chance de nos inspirar com as emocionadas palavras de Lino Macedo, doutor em Psicologia pela USP, que discorreu sobre o que é inteligência. Ele nos levou à etimologia da palavra, que vem do latim intelligentia (capacidade de aprender); ou intelligere, formada por inter (entre) e ligere (que significa escolher, ler). Portanto, podemos dizer que inteligente é aquele que compreende, percebe, sabe ler e escolher no mundo. E, segundo o mesmo pensador, não podemos esquecer que nós, humanos, somos seres da complementaridade; e que as crianças são seres dependentes dos adultos-cuidadores, que irão conduzi-las à liberdade e autonomia.

A função da educação é, portanto, na visão dele, ajudar a criança a se tornar um adulto e, assim, gestor de si mesmo, com autocuidado, e gestor do seu mundo, a partir do cuidado com o outro. A escola, sendo espaço primeiro de exercício da cidadania, deve ser o local onde a criança e o adolescente se entendem como parte de um todo e onde deverão aprender mais do que dados históricos, a tabela periódica ou a tabuada. A escola deve ser o espaço para aprender a ser, a conviver e a cuidar de si, do outro e do bem comum.

Para fechar o evento do LIV, tivemos a honra de receber o professor de Harvard Dr. Howard Gardner, que, há duas décadas, deflagrou a existência das múltiplas inteligências (espacial, lógica, interpessoal, intrapessoal, musical, cinestésica, naturalista e linguística). Hoje, ele se debruça sobre um projeto chamado “Projeto do Bem”, que investiga como as mudanças do nosso tempo, que envolvem tecnologia e mercado, podem formar cidadãos responsáveis, somando mais duas inteligências que seriam filosóficas: a arte de fazer perguntas e a arte de ensinar, sendo essa última também pedagógica.

Todas as colocações dos especialistas, com as quais concordo, falaram, em suma, sobre como o valor de nossos filhos e alunos nunca deveria ser medido, exclusivamente, pelas suas competências acadêmicas. Conteúdos afetivos devem ser tão importantes quanto os matemáticos, físicos ou linguísticos. Fica, então, a reflexão de que, para garantirmos o bem-estar infantil e adolescente, é preciso fortalecermos, psicologicamente, as crianças e jovens, preparando-os para encararem as dificuldades emocionais e interpessoais que acompanham, de maneira intrínseca, a vida cotidiana, e futuramente as frustrações e pressões profissionais, para que possam, sempre, tomar decisões pautadas na ética.

Essa árdua tarefa começa em casa, claro, mas deve se desdobrar na escola, local onde vão experimentar, pela primeira vez, regras de convivência comunitária: compartilhar, se inscrever no mundo e lidar com conflitos – sem a mediação da família. Dentro de nossa Escola, tenho orgulho em dizer que a equipe de Psicologia exerce, em sua prática diária, o acolhimento dos alunos, oferecendo olhar e escuta atentos e, mais do que tudo, ajudando-os no seu exercício de autonomia e mediação de conflitos para que possam ser sujeitos mais éticos, sustentáveis e responsáveis no futuro. Nossa parceria com as famílias é extremamente importante para que possamos, juntos e em sintonia, trabalhar os valores que tanto prezamos em nossa Escola, como responsabilidade, bondade, respeito, entusiasmo e excelência em tudo que nos propomos a fazer. Seguimos acreditando em utopias de um mundo melhor, pois elas nos fazem seguir caminhando em tempos difíceis.

Por Lais Fontenelle, psicóloga da Escola Eleva e parceira de LIV.

Escola LIV

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Comentários
Ana Flávia Lana

Excelentes reflexões.

Jussara

Pertinente!!!!