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Responsáveis e educadores conversando amigavelmente em uma reunião escolar, simbolizando a saudável relação entre família e escola.

Quais são os limites da relação entre família e escola?

Entenda os limites e desafios na relação entre família e escola com reflexões da psicanalista Vera Iaconelli no podcast Sinto que Lá Vem História. Leia!

Nunca se falou tanto sobre parentalidade. Os livros, podcasts, influenciadores, cursos e especialistas oferecem, dia após dia, orientações sobre como educar uma criança. Ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil ocupar esse lugar.

Enquanto muitas famílias sentem a pressão de acertar sempre, as escolas convivem com um movimento crescente de expectativas, de cobranças e de interferências sobre aquilo que acontece debaixo de seus olhos. Nesse cenário, uma pergunta se torna inevitável: onde termina o papel da família e começa o da escola?

A relação entre família e escola é uma parceria de cooperação e de corresponsabilidade, estabelecida para garantir o pleno desenvolvimento cognitivo, social e socioemocional dos estudantes, por meio do diálogo mútuo e do respeito aos limites institucionais de cada espaço.

Essa foi uma das reflexões centrais do episódio do podcast Sinto que Lá Vem História, em que a psicanalista Vera Iaconelli conversa sobre os desafios da relação entre família e escola em uma sociedade marcada pelo excesso de informação, pela busca por desempenho e pela dificuldade de lidar com os próprios limites.

Existe uma família ideal para estabelecer essa parceria?

Não, não existe um modelo único ou ideal de família. O que sustenta o desenvolvimento de uma criança são as relações reais de cuidado, de proteção e de pertencimento, independentemente de sua configuração.

Antes de pensar na relação com a escola, é preciso reconhecer que não existe uma única forma de ser família. Esse é um dos pontos centrais na fala de Vera ao longo do episódio. Ela nos lembra:

“Não tem uma história que não passe pela presença ou ausência de uma família. A gente se constitui dentro de uma família e não escapamos desse núcleo inicial para se tornar humano.”

É esse núcleo inicial, como diz Vera, que pode assumir configurações muito diferentes — formado por avós e avôs, mães solo, dois pais, duas mães, famílias recompostas ou extensas. Nenhuma dessas formações determina, por si só, a qualidade do desenvolvimento de uma criança. 

Quando deixamos de buscar uma ideia de “família ideal”, abrimos espaço para enxergar aquilo que realmente importa: as relações que, de fato, sustentam o crescimento de uma criança.

Como a busca por performance afeta o papel da parentalidade contemporânea?

O excesso de informações desautoriza a espontaneidade dos responsáveis, transformando a educação em uma performance de resultados, e a infância, em um projeto de produtividade artificial.

Se antes educar era uma experiência construída principalmente dentro das famílias e da comunidade, hoje muitos pais vivem sob a sensação de que existe uma resposta correta para tudo.

Cada comportamento infantil parece exigir uma pesquisa, e cada dificuldade que surge indica que alguém falhou. Esse excesso de informação produz um efeito curioso: quanto mais orientações existem, menos confiança as famílias têm na própria capacidade de educar.

Ao comentar esse fenômeno, Vera observa que esta talvez seja uma das primeiras gerações de pais completamente desautorizada na própria espontaneidade. Entre especialistas, algoritmos e redes sociais, educar também passou a ser uma performance.

Essa lógica acaba transformando a infância em um projeto de alta performance. Em vez de acompanhar o desenvolvimento da criança, muitos adultos se concentram em administrar seus resultados: as notas, as habilidades, os idiomas, os esportes, o comportamento e, até mesmo, a felicidade.

Mas as crianças não são projetos de produtividade. Elas não existem para cumprir metas, para atender às expectativas ou para validar o sucesso de quem as educa. A infância não é uma corrida por desempenho, mas um tempo de descobertas, de experimentações e, inevitavelmente, de erros. Quando tudo precisa se transformar em resultado, corremos o risco de perder de vista aquilo que é mais importante: o próprio processo de crescer.

O erro e a frustração são fundamentais na educação das crianças

O erro e a frustração são essenciais para o aprendizado e para a inteligência socioemocional, pois ajudam a criança a nomear afetos, elaborar dificuldades e construir resiliência para a vida.

Talvez uma das maiores armadilhas da parentalidade contemporânea seja acreditar que proteger significa evitar qualquer sofrimento. Quando um filho erra, tira uma nota baixa ou enfrenta uma dificuldade, isso pode despertar nos adultos a sensação de fracasso. Como explica Vera Iaconelli:

“O erro da criança e do adolescente, que faz parte do processo de aprendizagem, acaba revelando o que a família não quer: ‘eu falhei’.”

O erro, no entanto, não é um sinal de que a educação deu errado, ele faz parte do próprio processo de aprender.

O mesmo vale para os sentimentos considerados como tristeza, medo, raiva e frustração, muitas vezes, vistos como algo a evitar. Eles não precisam ser eliminados da experiência infantil, precisam ser reconhecidos, uma vez que fazem parte desse desenvolvimento socioemocional. É o que Vera destaca: 

“Os afetos estão aí desde que o mundo é mundo. O que a gente precisa fazer com eles é nomear.”

Quando acolhemos os sentimentos e ajudamos a nomeá-los, estamos mostrando às crianças como compreender suas emoções, como elaborar experiências difíceis e como construir recursos para lidar com elas ao longo da vida.

O que acontece quando a escola passa a ser tratada como prestadora de serviços?

Tratar a escola como prestadora de serviços rompe a parceria com as famílias, ignorando que o ambiente escolar é o espaço coletivo onde a criança aprende a lidar com regras e convivência social.

E essa pressão também chega às escolas.

No episódio, Vera compartilha uma percepção recorrente em suas conversas com educadores: quando perguntadas sobre seus maiores desafios, as escolas raramente apontam os alunos como principal dificuldade. O desafio costuma estar na relação com as famílias.

Isso não significa que as famílias participem demais. O problema está na forma como essa participação acontece.

Em uma sociedade orientada pela lógica do consumo, é comum que a escola passe a ser vista como uma empresa responsável por entregar resultados personalizados. Nessa perspectiva, qualquer conflito, frustração ou dificuldade tende a ser interpretado como falha do serviço.

Mas a escola ocupa um lugar muito diferente.

Ela representa, para muitas crianças, a primeira grande experiência de convivência com o coletivo. É onde surgem as regras compartilhadas, as diferenças, as negociações e os conflitos que não podem ser resolvidos apenas a partir dos interesses individuais.

Por isso, proteger a escola também significa preservar esse espaço coletivo.

A família e a escola têm responsabilidades distintas, mas complementares: enquanto a família oferece pertencimento e vínculos afetivos, a escola amplia o horizonte da criança, apresentando novas formas de convivência, conhecimento e participação social.

Quando um desses espaços tenta ocupar completamente o lugar do outro, ambos se enfraquecem.

Como construir uma escuta revolucionária na relação entre família e escola?

A construção dessa parceria depende de uma escuta madura, capaz de acolher perspectivas diferentes e de compartilhar a corresponsabilidade pelo crescimento saudável dos estudantes.

Talvez a resposta esteja em uma habilidade que parece simples, mas que exige enorme maturidade: escutar. Como diz Vera Iaconelli:

“Escutar é a coisa mais revolucionária que ainda pode existir nas relações humanas.” 

Escutar não significa concordar com tudo, mas sim estar disposto a ouvir algo que talvez nos desestabilize, que coloque nossas certezas em dúvida ou que revele perspectivas diferentes das nossas.

É esse tipo de escuta que fortalece a relação entre famílias e escolas.

Quando existe confiança, ambas deixam de disputar quem tem razão e passam a compartilhar uma mesma responsabilidade: oferecer às crianças e aos adolescentes condições para crescer, para aprender e para construir relações saudáveis com o mundo.

Afinal, a educação nunca foi um trabalho solitário. É uma construção coletiva, feita de diálogo, de limites, de confiança e de coragem de reconhecer que ninguém precisa dar conta de tudo sozinho.

Onde assistir ao debate completo sobre a relação entre família e escola?

O episódio completo do podcast Sinto que Lá Vem História está disponível no Spotify e no YouTube, reunindo as especialistas Vera Iaconelli, Joana London e Renata Ishida.

As reflexões deste artigo são apenas uma parte da conversa. O episódio aprofunda temas como os desafios da parentalidade atual, os limites da relação entre famílias e escolas, a importância da escuta e o papel da educação na formação das crianças e dos adolescentes.

O episódio completo está disponível no YouTube e no Spotify. Vale a pena assistir (ou ouvir) essa reflexão.

Assista ao episódio de podcast “Sinto que Lá Vem História” no YouTube para conferir o debate completo



O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.