21/08/2026
Crianças e adolescentes no mundo digital: como orientar para uma relação mais saudável com a tecnologia?
Descubra como a cidadania digital na escola ajuda a preparar estudantes para lidar com desafios como bullying, cyberbullying e uso ético das redes. Leia!A infância e a adolescência de hoje acontecem em um mundo em que as fronteiras entre o online e o offline praticamente deixaram de existir. As amizades, os conflitos, as descobertas, o lazer e até a construção da própria identidade passam, de alguma forma, pelas telas.
Nesse cenário, a cidadania digital na escola exige o desenvolvimento de competências que ajudam os estudantes a conviver, a fazer escolhas conscientes e a compreender o impacto de suas ações no mundo digital.
Essa preparação é necessária para que as crianças e os adolescentes transitem nesse ambiente de uma forma saudável, mas ela não acontece de maneira espontânea. Se as relações dos jovens também se constroem no ambiente digital, famílias e escolas têm um papel importante na mediação dessas experiências, criando espaços de diálogo e ajudando os estudantes a compreender direitos, limites e responsabilidades.
As reflexões que trazemos aqui fazem parte do nosso novo material, desenvolvido com a juíza e embaixadora do LIV, Vanessa Cavalieri. Ao final desse texto, vamos falar mais sobre esse material e como você pode acessá-lo gratuitamente!
Como garantir uma convivência saudável e segura no ambiente digital?
A convivência nunca foi uma tarefa muito simples, e as divergências sempre fizeram parte das relações humanas. O que mudou foi a velocidade, o alcance e a permanência que esses conflitos ganham quando acontecem no ambiente digital.
Hoje, as situações de bullying não ficam restritas ao espaço físico da escola. Elas continuam em grupos de mensagens, redes sociais, jogos online e diferentes plataformas frequentadas pelos estudantes, alcançando um número muito maior de pessoas em poucos minutos.
Além disso, o cyberbullying não envolve apenas quem agride e quem sofre a agressão. Elas atravessam toda a comunidade escolar e são influenciadas pelas relações construídas entre os estudantes, as famílias e a escola.
Os comentários, compartilhamentos e outras interações podem ampliar uma violência, mas a construção de um ambiente digital mais seguro não pode ser atribuída somente às escolhas individuais dos adolescentes. Ela também passa pela mediação dos adultos, pelo acompanhamento das famílias e pela criação, na escola, de espaços em que o respeito às diferenças, o diálogo e o acolhimento façam parte da convivência cotidiana.
Como destaca Vanessa Cavalieri em nosso novo material:
“Mais importante do que punir quem está fazendo uma coisa errada, é a gente criar um ambiente de convivência que seja saudável, alegre, em que todo mundo seja respeitado e se sinta bem, para conviver, ter amizade, lidar com as diferenças e aprender”
Nesse sentido, enfrentar o cyberbullying não significa apenas reagir quando uma violência acontece. Mas aponta para uma construção coletiva de uma cultura de convivência em que crianças e adolescentes encontrem referências, apoio e espaço para aprender a lidar com as diferenças.
De que forma a identidade das crianças e dos adolescentes é afetada pelas redes sociais?
A adolescência sempre foi um período de descobertas sobre quem somos, mas hoje essa construção também acontece no ambiente conectado.
As redes sociais fazem parte desse processo. Os conteúdos, as referências e as interações estabelecidas nesses espaços influenciam a maneira como os jovens se apresentam aos outros e como se percebem.
Nesse processo, o desejo de pertencimento também ocupa um lugar importante. É justamente essa necessidade de conexão que também precisa ser acolhida fora das telas. Ao falar sobre o papel da escola, Vanessa Cavalieri reforça a importância de criar espaços em que o adolescente “seja visto” e tenha sua “necessidade de pertencimento, de conexão com outro ser humano” atendida.
Por isso, discutir a influência das redes sociais sobre a identidade não significa apenas falar sobre o que acontece nas plataformas, mas também fortalecer relações e espaços de pertencimento que ajudem crianças e adolescentes a construir referências mais saudáveis sobre si mesmos.
Ao mesmo tempo, os algoritmos, as comparações constantes e os padrões de beleza influenciam diretamente a autoimagem dos jovens. Essa busca por pertencimento nas redes sociais afeta as emoções e a forma como as crianças e adolescentes enxergam a si mesmos.
É por isso que iniciativas como o ECA Digital surgem para ampliar a proteção desse público nas redes. O objetivo não é impedir o acesso ao ambiente conectado, mas sim garantir segurança durante essa etapa do desenvolvimento e mitigar os riscos específicos dessa fase.
E a juíza Vanessa Cavalieri é uma das principais vozes na defesa e explicação dessa lei, que entrou em vigor em março de 2026. E apesar do ECA Digital ser um passo muito importante na proteção das crianças e dos adolescentes, ele não resolve todos os problemas sozinho. Vanessa explica que:
“Da mesma forma que a rua sempre será um lugar perigoso, com alguns riscos, por mais cuidados que a gente tome, a mesma coisa é a internet. Ela nunca será um lugar 100% seguro”
Por isso, continua sendo fundamental um trabalho conjunto entre a família e a escola para apoiar crianças e adolescentes na construção de uma relação mais consciente com a tecnologia. Essa responsabilidade, quando compartilhada, aumenta as oportunidades de diálogo, fortalece os vínculos de confiança e ajuda os jovens a desenvolver critérios para fazer melhores escolhas no ambiente digital. Afinal, nenhuma legislação substitui a importância da escuta e da orientação.
Os desafios que as novas ferramentas de inteligência artificial trazem para as escolas
As novas ferramentas de inteligência artificial já fazem parte da rotina estudantil e podem apoiar processos de aprendizagem, pesquisa e criatividade. Ao mesmo tempo, seu uso também traz desafios importantes para as escolas.
Um deles diz respeito à chamada atrofia cognitiva, que pode acontecer quando os estudantes passam a recorrer à IA para executar tarefas no lugar de desenvolver, por conta própria, processos de reflexão, elaboração e construção do conhecimento.
Por isso, mais do que restringir o uso dessas ferramentas, é importante ensinar crianças e adolescentes a utilizá-las como apoio à aprendizagem, e não como substitutas do próprio pensamento.
Outro desafio está relacionado à segurança e à convivência. Afinal, as ferramentas de inteligência artificial também podem ser utilizadas para criar imagens manipuladas, áudios falsos e conteúdos de desinformação capazes de expor estudantes.
Mesmo diante de materiais fabricados, os impactos sociais, emocionais e psicológicos sobre as vítimas são reais e de difícil contenção.
Diante dessas situações, é ainda mais importante que as crianças e os adolescentes tenham adultos de confiança e saibam pedir ajuda sempre que necessário.
Por isso, discutir as tecnologias exige abordar temas de ética, responsabilidade e segurança de forma contínua com os alunos. Porém, esses diálogos não podem surgir apenas de forma reativa, ou seja, depois que situações problemáticas já se manifestaram na comunidade escolar.
A escola deve promover uma educação socioemocional em que haja espaços seguros de fala, escuta e acolhimento para esses temas complexos. O trabalho focado na prevenção é muito mais eficaz do que agir apenas diante das consequências dos problemas.
É possível separar a vida real da vida digital no cotidiano escolar?
A resposta mais simples é que não. Isso porque as experiências vividas nas telas impactam diretamente a autoestima, a saúde mental e as relações cotidianas construídas fora delas.
Ou seja, dividir as experiências em “vida real” e “vida digital” perdeu o sentido prático para as novas gerações. E essa continuidade entre os dois espaços torna ainda mais importante refletir sobre as consequências das nossas ações na internet. Publicações podem permanecer circulando por muito tempo, alcançar pessoas inesperadas e produzir impactos que ultrapassam o momento em que foram feitas.
Entender os direitos, deveres e responsabilidades associados ao uso da internet constitui a base do aprendizado do comportamento digital. O grande desafio contemporâneo não reside nas telas em si, mas em saber utilizá-las com consciência e respeito pelo outro.
Talvez o ponto mais importante seja compreender que cidadania digital não diz respeito apenas ao que fazemos na internet, mas também ao tipo de pessoa que estamos nos tornando enquanto a utilizamos. Como resume Vanessa:
“É nossa responsabilidade cuidar para que esse ambiente digital seja seguro, agradável, bacana para todo mundo, assim como a gente também cuida quando estamos convivendo presencialmente”
Levando essa conversa para a sala de aula
Pensando nesses desafios, nós desenvolvemos, em parceria com Vanessa Cavalieri, um material inédito focado na educação socioemocional e digital. A proposta visa subsidiar professores na condução de debates sobre a importância do uso saudável dos ambientes digitais.
A iniciativa reúne uma série de quatro vídeos acompanhados de roteiros pedagógicos com temas recorrentes no cotidiano de crianças e adolescentes. As discussões englobam convivência, cyberbullying, identidade digital, inteligência artificial e os impactos dessa rotina conectada.
O objetivo do material não é oferecer respostas prontas, mas sim mobilizar a reflexão e o desenvolvimento socioemocional dos estudantes. Queremos convidar crianças e adolescentes a reconhecerem seu papel ativo nas relações presenciais e virtuais e na construção de ambientes de acolhimento. O material é gratuito, aproveite!
O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.