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Educadores e familiares em círculo conversando acolhedoramente em uma sala, ilustrando a saúde mental no Setembro Amarelo através de relações de afeto e escuta.

Setembro Amarelo: cuidar da saúde mental também é cuidar das nossas relações

Entenda como a saúde mental no Setembro Amarelo se constrói na presença e no afeto, e como as escolas e famílias podem criar espaços de escuta de forma coletiva. Leia!

Em uma sociedade cada vez mais conectada e, ao mesmo tempo, atravessada pela solidão, é muito válido entender a importância dos vínculos. A saúde mental no Setembro Amarelo é definida como uma responsabilidade coletiva fundamentada na presença, no afeto e na construção de espaços seguros de fala e escuta ativa para o acolhimento do sofrimento humano. 

Vivemos em uma época cheia de contradições: a tristeza faz parte da vida, mas parece que precisamos estar bem sempre; somos incentivados a desenvolver independência e aprender a ficar sozinhos, mas o ser humano ainda precisa do outro; e, em um momento em que nunca tivemos tantas possibilidades de contato, ainda nos sentimos sozinhos. 

Nesse artigo, vamos falar um pouco mais sobre esses temas e como eles estão ligados ao Movimento LIV pela Saúde Mental, que acontecerá ao longo do mês de setembro. Para isso, contaremos também com o apoio de Renata Ishida, gerente pedagógica do LIV, que dará seu olhar de especialista sobre e começa já deixando evidente a importância dessa campanha:

“O fato de existir um mês inteiro dedicado a uma campanha, que pressupõe a participação de muitos atores, já indica que o cuidado com a saúde mental não é exclusivamente individual. A saúde mental é multifatorial e depende também de práticas, políticas e iniciativas coletivas”, diz Renata..

Saúde mental não significa estar feliz o tempo inteiro

A saúde mental não consiste na ausência de sentimentos difíceis, mas na capacidade de desenvolver recursos socioemocionais para lidar de forma saudável com os altos e baixos cotidianos. 

Existe uma imagem bastante comum do que seria uma pessoa mentalmente saudável: alguém disposto, alegre, produtivo e capaz de lidar bem com o que acontece.

Mas a própria experiência humana contradiz essa ideia. As perdas, os conflitos, as frustrações, as mudanças e as inseguranças fazem parte da vida. Diante delas, podemos sentir tristeza, medo, raiva ou ansiedade sem que essas emoções sejam, por si só, sinais de adoecimento. 

É justamente um dos pontos que Renata procura desconstruir ao falar sobre o tema: “saúde mental não é sinônimo de felicidade”. Ela explica que:

“A felicidade, assim como tristeza, raiva e medo são sentimentos que fazem parte da experiência e do desenvolvimento humano. Sentir cada um deles nos faz aprender sobre o mundo e sobre nós mesmos. Por isso, a felicidade não é um lugar de chegada nem uma conquista permanente. O que podemos viver são momentos de alegria, assim como vivemos os de tristeza e de outras emoções”

A saúde mental, portanto, não é alcançar um estado permanente de bem-estar, mas desenvolver condições e recursos para atravessar as diferentes experiências da vida. 

Afinal, ficar triste é normal. E se sentir sozinho em alguns momentos também pode fazer parte da vida. Mas, quando o sofrimento se torna persistente, intenso ou começa a interferir de maneira significativa no cotidiano, é importante procurar apoio.

A questão central aqui não é eliminar os sentimentos difíceis da vida, mas sim perceber quando aquilo que era um momento passa a ocupar um espaço constante na experiência de alguém.

Nunca tivemos tantas formas de nos conectar. Por que ainda nos sentimos sozinhos?

Essa pergunta ganhou uma dimensão ainda maior nos últimos anos.

Segundo relatório publicado pela Organização Mundial da Saúde em 2025, cerca de uma em cada seis pessoas no mundo relata sentir solidão. Entre adolescentes e jovens, essa proporção chega a aproximadamente uma em cada cinco. O documento chama atenção para a conexão social como uma dimensão importante da saúde e para os impactos que a solidão e o isolamento podem ter sobre diferentes aspectos da vida. 

E existe uma diferença importante entre estar sozinho e sentir-se sozinho.

A OMS define a solidão como uma experiência dolorosa relacionada à distância entre as relações que uma pessoa gostaria de ter e aquelas que efetivamente possui. Já o isolamento social diz respeito à ausência objetiva de contatos e interações suficientes. 

Isso ajuda a explicar um dos grandes paradoxos do nosso tempo: podemos enviar uma mensagem para alguém do outro lado do mundo em segundos, conversar durante o dia inteiro, acompanhar centenas de pessoas pelas redes sociais e estar sempre disponíveis por alguma tela.

E, ainda assim, podemos sentir falta de vínculo, intimidade, pertencimento e presença. 

A questão vai além de quantas conexões temos, mas toca mais na qualidade das relações que estamos conseguindo construir. 

Ter com quem falar também é uma forma de cuidado

Ao falar sobre saúde mental, é muito comum encontrarmos recomendações individuais: dormir melhor, descansar, praticar exercícios, organizar a rotina, reservar um tempo para o lazer. 

Tudo isso pode fazer parte do cuidado. O problema aparece quando colocamos exclusivamente sobre cada pessoa a responsabilidade por estar bem.

Renata chama atenção justamente para essa dimensão. As condições como acesso à educação, moradia, alimentação, trabalho e outros direitos também atravessam a saúde. Em determinados contextos, simplesmente recomendar que alguém encontre mais tempo para descansar ou desacelerar pode ignorar as condições concretas em que aquela pessoa vive. Nas palavras de Renata:

“O cuidado também precisa ser construído coletivamente. Ter com quem compartilhar o que sente, sem julgamento, com presença e tempo de qualidade é o ponto central de cuidado. Práticas que abrem espaço para o encontro e a escuta são o segredo para esse cuidado.”

Isso não significa que amigos, familiares ou educadores devam ocupar o lugar de profissionais de saúde mental quando o acompanhamento especializado é necessário. Mas significa reconhecer que ninguém deveria precisar atravessar sozinho todas as experiências difíceis da vida. 

Outro ponto importante que Renata explica muito bem é que a saúde mental é atravessada por diversos fatores e, justamente por isso, não pode ser colocada sob responsabilidade de uma única pessoa ou instituição:

“Não existe uma única pessoa ou instância responsável pela nossa saúde mental. Não podemos cuidar sozinhos dela, nem acreditar que a família ou a escola darão conta de tudo, por exemplo.”

Isso também significa reconhecer um limite importante: não somos responsáveis pela saúde mental das outras pessoas e não devemos assumir que somos capazes de resolver o sofrimento de alguém. O cuidado coletivo não é tomar para si essa responsabilidade, mas entender que nossas relações e os espaços que construímos também podem contribuir para que alguém encontre acolhimento e apoio.

É nesse sentido que criar espaços de fala e escuta se torna tão importante. Eles não são uma solução em si mesmos, nem substituem acompanhamento profissional quando ele é necessário. São, antes, uma maneira de praticar esse cuidado: oferecer presença, levar o sofrimento do outro a sério, favorecer vínculos de confiança e ajudar a construir caminhos para que ninguém precise lidar sozinho com aquilo que está vivendo.

A escola também faz parte dessa rede

A escola atua como um espaço essencial de convivência e acolhimento, capaz de desenvolver competências relacionais e socioemocionais em ambientes seguros para o diálogo. 

É nesse ponto que a escola assume um papel importante. 

Ela não substitui profissionais e serviços especializados de saúde mental, mas é um dos principais espaços de convivência de crianças e adolescentes. É ali que amizades se formam, conflitos aparecem, diferenças se encontram e experiências de pertencimento (ou de não pertencimento) acontecem todos os dias. 

Para Renata, “as escolas podem contribuir criando ambientes seguros para a fala e a escuta e promovendo o desenvolvimento de recursos como comunicação, autoconhecimento e pensamento crítico”. Essa construção passa também pela formação das equipes escolares para lidar com questões que atravessam a experiência dos estudantes. 

Há uma dimensão coletiva importante nisso: não basta esperar que individualmente uma criança saiba se comunicar, lidar com conflitos, reconhecer o que sente ou procurar ajuda. É preciso que o ambiente ao redor dela ofereça condições para que essas aprendizagens aconteçam. 

É também por isso que questões como bullying, racismo, violência, padrões estéticos ou exclusão precisam encontrar espaço para serem discutidas coletivamente na escola. Afinal, silenciar assuntos difíceis não faz com que eles desapareçam. 

Setembro Amarelo: reaprender a estar junto

O Setembro Amarelo propõe um convite para desacelerar, escutar sem julgamentos e fortalecer relações reais onde seja possível acolher e pedir ajuda mutuamente. 

Não existe uma receita que ensine alguém a viver. A gente aprende ao longo do caminho quando convivemos, erramos, nos frustramos, conversamos, ouvimos outras pessoas e descobrimos, aos poucos, quem somos e como queremos estar no mundo. 

Por isso, neste Setembro Amarelo, falar sobre saúde mental também pode ser um convite para olhar para aquilo que construímos entre nós. Porque, diante de uma sociedade cada vez mais conectada e, ao mesmo tempo, mais solitária, precisamos reaprender não apenas a estar conectados, mas a estar juntos. 

E essa conversa continua no Movimento LIV Pela Saúde Mental

O Encontro com Especialista LIV oferece uma oportunidade gratuita para aprofundar as discussões sobre saúde mental, relações e conexão com a presença de especialistas renomados da área. 

E na edição especial do Setembro Amarelo, vamos aprofundar reflexões sobre saúde mental, relações, escuta e as diferentes formas de construirmos conexão e pertencimento em um mundo cada vez mais acelerado. 

O encontro contará com a presença de Nanda Perim, a PsiMama, que vai nos ajudar a ampliar o olhar sobre esses temas e sobre os desafios que atravessam as relações com crianças e adolescentes. 

Quer participar dessa conversa? Inscreva-se no Encontro com Especialista LIV e venha refletir com a gente sobre como podemos reaprender a estar juntos. 

[BOTÃO COM O LINK DO ENCONTRO]

Precisa de ajuda?

Se você ou alguém próximo estiver enfrentando sofrimento intenso ou uma situação de crise, procure ajuda especializada. O CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. Também é possível buscar atendimento na rede pública de saúde, por meio de UBS, CAPS, UPAs e serviços de emergência.



O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.