Blog
Todas as publicações
adolescente isolado

O que pode estar por trás do aumento de comportamentos violentos na adolescência?

Nos últimos anos, a sensação de que estamos vendo mais episódios de violência envolvendo crianças e adolescentes tem se tornado cada vez mais presente. Casos de agressão nas escolas, discursos de ódio, misoginia, cyberbullying, automutilação e até episódios de violência grave passaram a ocupar espaço nas notícias, nas conversas entre famílias e no cotidiano escolar.

Mas o avanço de comportamentos violentos entre jovens é um fenômeno complexo, atravessado por diferentes fatores sociais, emocionais, culturais e relacionais. Diante disso, talvez a  perguntas mais importantes não seja “como punir?”, mas: “o que aconteceu?”

O que aconteceu antes do comportamento violento?

Na maioria das vezes, quando algo extremo acontece, buscamos respostas rápidas. Procuramos culpados, uma explicação simples ou uma única causa. Seria mais fácil se pudéssemos afirmar que a causa do aumento da violência entre os jovens está na internet, na escola, nas famílias ou no uso das tecnologias, não é mesmo? Mas a realidade costuma ser mais complexa do que isso.

Esse aumento não tem uma única explicação. Ainda assim, especialistas têm chamado atenção para algo que aparece com frequência nessas trajetórias: o sentimento de invisibilidade, a ausência de pertencimento e a fragilidade dos vínculos.

Durante uma conversa sobre a influência da tecnologia no comportamento de crianças e adolescentes, realizada na Bett Brasil 2026, a juíza e embaixadora LIV, Vanessa Cavalieri, trouxe uma reflexão importante:

“Mas o que aconteceu antes? Porque não dá para a gente querer solucionar o problema, mudar, prevenir ou reduzir o número de violências atacando apenas o sintoma. É como dar remédio para a febre de alguém que está com uma infecção. A febre pode até baixar no primeiro momento, mas a pessoa não melhora se a causa não for cuidada.” — Vanessa Cavalieri

O que esse comportamento pode estar tentando comunicar?

Pode soar desconfortável pensar nisso, mas, em alguns casos, comportamentos violentos também podem funcionar como um pedido de socorro. Não como justificativa para o ato, mas como sinal de um sofrimento que não encontrou outra forma de aparecer.

Isso não significa minimizar os impactos e consequências ou relativizar a violência. Ela precisa ser interrompida, responsabilizada e enfrentada. A questão aqui é olhar para a raiz do sintoma, numa tentativa de compreensão das causas do fenômeno.

Talvez exista uma pergunta importante a ser feita: por que alguns adolescentes encontram caminhos de elaboração para o sofrimento, enquanto outros acabam sendo capturados por discursos violentos, grupos extremistas ou formas não saudáveis de lidar com a dor?

Embora não exista uma resposta única, muitos comportamentos extremos parecem estar relacionados a experiências anteriores de invisibilidade. Aquele adolescente que não encontra lugar, que sente que ninguém percebe seu sofrimento, que não encontra pessoas adultas de referência ou espaços seguros para ter seus sentimentos reconhecidos e acolhidos.

Durante a conversa com o Caio Lo Bianco, CEO e idealizador do LIV, Vanessa Cavalieri fez um alerta importante sobre esse cenário: comunidades online, fóruns extremistas e grupos organizados, muitas vezes, oferecem algo que faltava antes: pertencimento e conexão.

Qual é a importância do vínculo, da escuta e da presença?

Crescer envolve experimentar independência, construir identidade, testar limites e ganhar espaço para tomar decisões. Ao mesmo tempo, também envolve ter pessoas adultas por perto: pessoas que ofereçam segurança, vínculo e referência. Pessoas capazes de escutar, acolher, perceber mudanças de comportamento, sustentar conversas difíceis e construir caminhos juntos. 

Por isso, embora seja comum associarmos a prevenção da violência entre jovens à fiscalização ou à punição, existe uma dimensão igualmente importante: a construção de relações de confiança. Porque adolescentes que se sentem acolhidos, escutados e pertencentes tendem a encontrar caminhos de apoio antes que o sofrimento se transforme em isolamento, conflito ou violência.

O papel do “não”: limites também fazem parte do cuidado.

Ao falar sobre violência entre jovens, talvez seja inevitável chegar a uma conversa delicada: o lugar dos limites.

Precisamos entender que existe uma diferença importante entre autoritarismo e autoridade. O autoritarismo silencia, controla e impõe pelo medo. Autoridade, por outro lado, ajuda a sustentar caminhos, oferecer contorno e criar segurança.

Crianças e adolescentes precisam de autonomia, mas também precisam de pessoas adultas capazes de sustentar decisões difíceis, que as auxilie a nomear emoções, oriente e, às vezes, diga “não”. Porque crescer também envolve aprender que nem tudo acontece no próprio tempo, que a convivência exige negociação e que nem todos os desejos podem ser atendidos. 

Talvez o desafio não seja simplesmente dizer mais “nãos”, mas refletir sobre como esses limites são construídos e sustentados dentro de relações de confiança.

A importância da parceria escola e família.

A escola ocupa um lugar importante nessa conversa. Muitas vezes, é um dos primeiros espaços onde mudanças de comportamento aparecem: isolamento, agressividade, dificuldade nas relações, o desinteresse repentino ou sinais de sofrimento que, aos poucos, começam a se tornar mais visíveis.

Durante a conversa na Bett Brasil 2026, Vanessa Cavalieri trouxe uma reflexão importante sobre esse cenário:  

“Então a violência, de novo, é um pedido de socorro. ‘Eu não aguento mais estar sozinho, tendo que cuidar de mim. Eu preciso de um adulto me dando limite, contorno.’ E, às vezes, a escola é o lugar onde essa família vai conseguir escutar isso e talvez ser levada a uma reflexão que possa mudar essa configuração de convivência.” 

A fala nos convida a olhar para algo importante: nem sempre é possível expressar o sofrimento em palavras de imediato. Em alguns casos, ele aparece primeiro no comportamento, nos conflitos ou em atitudes que desafiam pessoas adultas ao redor.

Quando escola e família conseguem atuar juntas, crianças e adolescentes encontram algo essencial para o desenvolvimento: referência, segurança e a sensação de que não precisam enfrentar tudo sozinhos.

Vamos conversar mais sobre isso?

As reflexões que atravessam este texto não terminam aqui. Este conteúdo faz parte de um material exclusivo e gratuito que preparamos a partir da conversa entre Caio Lo Bianco e Vanessa Cavalieri sobre alguns dos temas mais urgentes da atualidade: violência entre jovens, frustração, cidadania digital, inteligência artificial, exposição nas redes e os desafios da convivência.

Organizamos os principais aprendizados do encontro em 4 tópicos-guia, com conteúdos de apoio e reflexões para ajudar escolas a aprofundarem esse debate e construírem caminhos possíveis.

Inscreva-se gratuitamente e acesse o material completo aqui: https://digitaliv.com.br/EducaçãoDigitalNovaGeração



O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.