08/06/2026
A “adolescentização da sociedade”: adultos estão abrindo mão do papel de autoridade?
“Eu devo ser amigo dos meus filhos?”. É muito provável que você já tenha escutado de alguém essa pergunta. A verdade é que nos últimos anos, estamos discutindo cada vez mais as formas de educar crianças e adolescentes. Isso porque muitas famílias passaram a questionar modelos rígidos e autoritários, buscando relações mais próximas, afetivas e abertas ao diálogo.
Esse movimento representa um avanço importante. Mas, junto dessa transformação, surge uma pergunta necessária: ser próximo significa abrir mão da autoridade?
Essa reflexão ganha força quando olharmos para um dos principais desafios contemporâneos: a chamada “adolescentização da sociedade”.
O que significa “adolescentização da sociedade”?
A ideia de adolescentização da sociedade propõe uma reflexão sobre como certos comportamentos associados à adolescência passaram a marcar também a vida adulta.
Estamos falando de características como:
- busca por gratificação imediata;
- dificuldade de lidar com frustrações;
- necessidade constante de validação;
- impulsividade;
- resistência a conflitos e limites;
- dificuldade de sustentar desconfortos emocionais.
Isso não significa infantilizar ou culpabilizar pessoas adultas. A proposta é outra: refletir sobre o contexto em que vivemos e sobre como nós, adultos, também estamos sendo atravessados por uma cultura do imediatismo, da hiperconectividade e da evitação do desconforto.
Quando o medo de frustrar ocupa o lugar da autoridade
Desde 2024, o Brasil passou a reconhecer legalmente (Lei nº 14.826/2024) a parentalidade positiva como estratégia de prevenção da violência contra crianças e adolescentes, incentivando práticas baseadas em acolhimento, diálogo e respeito. Esse movimento também reflete uma transformação que já vinha acontecendo em muitas famílias, que têm revisado a educação baseada no medo e no autoritarismo
No entanto, na tentativa de não repetir essas práticas, alguns responsáveis acabam associando autoridade a autoritarismo e, com isso, passam a evitar limites, conflitos e frustrações. Em muitos contextos, surge uma tentativa de ocupar um lugar mais próximo do “melhor amigo” do que de uma figura de referência. Mas existe uma diferença importante entre vínculo e ser a autoridade que as crianças precisam.
Crianças e adolescentes precisam de conexão e relações próximas, sim. Precisam de escuta, acolhimento e espaço para falar sobre sentimentos. Mas também precisam de pessoas adultas capazes de sustentar decisões difíceis, estabelecer limites e exercer um papel de orientação.
Afinal, amizade pressupõe uma relação entre iguais. Já a relação entre responsáveis e filhos envolve algo fundamental: responsabilidade pelo desenvolvimento emocional, social e ético de alguém que ainda está aprendendo a lidar com o mundo.
A frustração como parte do desenvolvimento
Sabemos que os avanços tecnológicos mudaram diversos aspectos das nossas vidas. Em um cenário marcado pelo imediatismo, nos acostumamos a ter acesso rápido a informações, respostas e soluções. O desafio é que a vida real nem sempre acompanha esse ritmo. Talvez por isso, uma das maiores dificuldades da vida adulta hoje seja sustentar o desconforto do “não”, da espera e da frustração.
Muitas vezes, evitar frustrações parece uma forma de proteger crianças e adolescentes. Evitamos conflitos, flexibilizamos combinados, cedemos rapidamente para evitar crises ou culpa.
Foi justamente nesse ponto que a juíza Vanessa Cavalieri trouxe uma reflexão importante sobre a dificuldade crescente de frustrar:
“Essa falta de autoridade eu vejo passar também muito por uma grande dificuldade das famílias de frustrar. E isso toca uma habilidade essencial que precisa ser desenvolvida: a resiliência. A gente passar pela frustração, não ter o que quer, sobreviver a isso e continuar motivado.” — Vanessa Cavalieri, Juíza e embaixadora LIV
Por isso, vale uma reflexão importante: frustrar e dar limites não transforma os adultos em responsáveis ruins.
A frustração faz parte do desenvolvimento, ela é muito importante para os pequenos desenvolverem habilidades essenciais para suas relações com eles mesmos e com os outros, como a capacidade de lidar com perdas, desenvolver autorregulação, construir repertório, comunicação.
O exemplo também educa
Existe outro ponto essencial nessa conversa: crianças e adolescentes também aprendem observando. Aprendem sobre emoções observando como pessoas adultas lidam com as suas próprias questões. Aprendem sobre conflitos vendo como resolvemos divergências. Aprendem sobre limites observando como nos relacionamos com as regras, a espera, o tédio e as responsabilidades.
E vale a pergunta: como nós, adultos, temos lidado com as nossas emoções e desconfortos?
Vivemos em um contexto que favorece respostas rápidas, prazer imediato, excesso de estímulos e baixa tolerância ao incômodo. Muitas vezes, com as crianças, também temos dificuldade de esperar, de lidar com o silêncio, de sustentar conversas difíceis ou de tolerar frustrações. Assumir as nossas próprias vulnerabilidades é uma oportunidade para olharmos para as crianças e adolescentes com mais empatia.
E onde entra a escola nessa conversa?
A escola ocupa um papel importante porque é um dos espaços onde crianças e adolescentes convivem, testam limites, constroem vínculos e desenvolvem habilidades socioemocionais.
É também um espaço de cuidado onde os sinais de sofrimento podem ser percebidos.
Além de ensinar conteúdos acadêmicos, a escola pode ajudar a ampliar reflexões sobre convivência, responsabilidade, autorregulação emocional e uso consciente da tecnologia com as famílias e responsáveis.
Quando há diálogo entre ambos, crianças e adolescentes encontram algo essencial para o desenvolvimento: coerência, segurança e referência.
Vamos conversar mais sobre isso?
As reflexões que atravessam este texto não terminam aqui. Este conteúdo faz parte de um material exclusivo e gratuito que preparamos a partir da conversa entre Caio Lo Bianco e Vanessa Cavalieri sobre alguns dos temas mais urgentes da atualidade: violência entre jovens, frustração, cidadania digital, inteligência artificial, exposição nas redes e os desafios da convivência.
Organizamos os principais aprendizados do encontro em 4 tópicos-guia, com conteúdos de apoio e reflexões para ajudar escolas a aprofundarem esse debate e construírem caminhos possíveis.
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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.