27/05/2026
Cyberbullying: qual é o papel da escola diante dos conflitos no ambiente digital?
Hoje em dia, as discussões sobre bullying e cyberbullying precisam levar em conta o ambiente digital. A vida dos estudantes não ocorre em dois mundos diferentes, o “real” e o “virtual”. Essas esferas se entrelaçam, formando uma única experiência marcada por relações, vivências e conflitos que acontecem entre as telas e os corredores escolares.
Recentemente, o IBGE lançou uma nova edição da Pesquisa Nacional da Saúde Escolar (PeNSE). De acordo com o levantamento, que incluiu adolescentes de 13 a 17 anos, 27,2% dos estudantes relataram ter sofrido bullying recentemente, enquanto cerca de 12,7% foram vítimas de cyberbullying nas redes sociais. Isso evidencia que estamos diante de um fenômeno que não é isolado, mas que se torna cada vez mais uma parte do cotidiano escolar.
Essa realidade nos convida a uma reflexão importante: qual é o papel da escola na mediação desses conflitos?
O cyberbullying acontece só fora da escola?
Durante muito tempo, foi comum tratar o que acontece no ambiente digital como algo externo à escola. Mas, é importante lembrar que as interações nas redes sociais também compõem a experiência escolar dos estudantes.
De acordo a pesquisa, 92% dos adolescentes têm celular próprio e 96,6% têm acesso à internet em casa. Ou seja, o digital não é mais um “lugar à parte”, é um espaço de convivência. E, como todo espaço de convivência, ele também envolve conflitos, disputas, pertencimento e exclusão.
Sendo assim, o que acontece online não fica só no online. Um comentário, uma exposição ou uma humilhação nas redes atravessam o dia seguinte na escola e podem afetar vínculos, impactar a aprendizagem e, muitas vezes, causar diversos tipos de sofrimento.
Qual o papel da escola?
Existe, sim, uma dimensão jurídica que orienta limites e deveres. Mas reduzir essa discussão ao campo legal pode limitar o olhar que devemos ter a essas questões.
A escola é um espaço de formação. E formar não diz respeito apenas ao conteúdo acadêmico, envolve também ensinar a conviver, a respeitar, a se posicionar e a lidar com conflitos.
Nesse sentido, o cyberbullying não é apenas um problema a ser “resolvido”, mas uma oportunidade de atuação pedagógica. Isso não significa culpar a escola, mas sim reconhecê-la como parte importante da construção de caminhos e de enfrentamentos possíveis.
Só punir é a solução?
Diante de situações de bullying ou cyberbullying, é natural surgir a busca por responsabilização: quem errou? O que deve acontecer com quem agrediu?
Mas focar apenas na punição não resolve o problema e, muitas vezes, nem toca na raiz dele. Se existe uma palavra central nesse cenário, ela é: cuidado.
Esse cuidado deve incluir quem sofre, acolhendo com escuta ativa e apoio emocional. Mas também precisa ser direcionado a quem agride, compreendendo que o comportamento precisa ser trabalhado (não apenas punido).
Os dados de saúde mental reforçam essa urgência. Entre adolescentes:
- 28,9% relatam sentir tristeza com frequência
- 26,1% sentem que ninguém se preocupa com eles
- 32% já sentiram vontade de se machucar
E há uma forte correlação entre sofrimento emocional e experiências de bullying. Ou seja: estamos lidando com dores reais, que pedem atenção, sensibilidade e presença.
Como a escola pode ajudar?
O ambiente escolar não só pode, como deve, ser esse espaço seguro onde os estudantes encontram escuta, pertencimento e apoio. Algumas possibilidades incluem:
- Incentivar a convivência no dia a dia: a empatia, o respeito e a responsabilidade não se aprendem em um único momento, são construídos nas relações cotidianas.
- Criar espaços de diálogo sobre o digital: falar sobre redes sociais, exposição, limites e consequências ajuda os estudantes a elaborarem suas experiências.
- Desenvolver a cidadania digital: ir além do uso técnico da tecnologia e incluir reflexões sobre ética, convivência e responsabilidade no ambiente online.
- Envolver as famílias: o diálogo com responsáveis amplia o cuidado e fortalece a rede de apoio aos estudantes.
- Preparar educadores: oferecer formação e suporte para que professores se sintam mais seguros ao lidar com esses conflitos.
Essas ações não eliminam o problema de forma imediata, mas constroem, ao longo do tempo, uma cultura de convivência mais saudável.
Um desafio coletivo
O cyberbullying é um fenômeno complexo. Ele envolve tecnologia, relações, emoções e contextos sociais. Por isso, não existe uma única solução e nem um único responsável.
É justamente nesse cenário que iniciativas como o ECA Digital se tornam grandes aliadas. Mais do que uma lei, ele veio para reforçar que a proteção e a convivência no ambiente online são construções coletivas.
Pensando nisso, o LIV desenvolveu uma cartilha exclusiva sobre o ECA Digital, com a participação da juíza e embaixadora Vanessa Cavalieri, para apoiar as escolas e as famílias na tradução desse novo marco em práticas concretas de cuidado, escuta e formação.

O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.