Blog
Todas as publicações

Inteligência artificial e o aumento de casos de exposição nas escolas: como lidar com esse cenário?

Passamos um bom tempo discutindo os impactos das mídias sociais e do uso do celular dentro das escolas. Mas, com o avanço das tecnologias, especialmente da inteligência artificial, novos desafios começam a surgir.

Se antes o debate girava em torno do tempo de tela ou dos riscos das redes sociais, hoje a conversa ficou mais complexa. A inteligência artificial introduz algo novo: velocidade, realismo, facilidade de produção e, muitas vezes, anonimato.

“Antigamente você conseguia descobrir: olhava para a mão, para os dedos, a imagem vinha pixelada. Hoje, a realidade é outra”, explica Caio Lo Bianco, CEO e idealizador do LIV.

O desafio é que, conforme a tecnologia avança, ela não muda apenas as possibilidades de uso, mas também aquilo que precisamos aprender. Afinal, não é só sobre como utilizar as novas tecnologias, mas sobre as habilidades que precisamos desenvolver para utilizá-las com senso crítico e responsabilidade.

Como a IA gera novas formas de violência?

A inteligência artificial já faz parte da vida cotidiana e, naturalmente, também passa a ocupar espaço na educação. As ferramentas baseadas em IA podem apoiar no planejamento de aulas, personalizar trilhas de aprendizagem para os alunos, facilitar pesquisas e tornar algumas experiências mais interativas.

Porém, existe um outro lado dessa tecnologia que tem gerado muitas discussões: ferramentas capazes de manipular imagens e simular nudez com alto grau de realismo.

“Se antes a questão era o vazamento de um nude, hoje a questão é outra”, diz Caio. “São aplicativos chamados de nudefy, capazes de despir uma pessoa em segundos, com um nível de realidade muito alto.”

Esses aplicativos estão contribuindo para episódios graves de exposição, constrangimento e violência no ambiente escolar. Segundo estimativas recentes da UNICEF, pelo menos 1,2 milhão de crianças relataram ter tido suas imagens manipuladas por inteligência artificial para a criação de conteúdos de nudez no último ano.

Ao mesmo tempo, muitas escolas já estão lidando com situações em que imagens manipuladas circulam em grupos de WhatsApp, corredores e redes sociais, atingindo diretamente estudantes.

“A tecnologia reproduz características reais do corpo da pessoa. Então, para aquela menina que está sendo exposta, a vergonha é real — porque, no final das contas, é a imagem dela que está sendo compartilhada”, afirma Vanessa Cavalieri, juíza e embaixadora LIV.

O que esses casos revelam sobre violência de gênero?

Esse cenário se cruza com outra realidade preocupante: um estudo feito pelo King’s College mostra que a adolescência concentra o maior índice de comportamento misógino entre meninos, superando outras faixas etárias.

“As vítimas são meninas”, explica Vanessa Cavalieri. “Muitas vezes, os meninos escolhem justamente as meninas mais populares, mais desejadas da escola, quase como uma forma de punição.”

Infelizmente, algumas violências são antigas, mas, quando encontram tecnologias recentes, podem ganhar novas proporções. A misoginia, a objetificação do corpo feminino, a tentativa de humilhar meninas e exercer controle sobre elas não nasceram com a IA. O que muda agora é a escala, a velocidade e o alcance.

Só a punição resolve?

Então, quando episódios de exposição acontecem, a escola enfrenta um enorme desafio: como responder de forma responsável a algo tão grave?

Punir é necessário? Em muitos casos, sim. Afinal, é importante responsabilizar comportamentos violentos e mostrar que determinadas atitudes têm consequências. Mas a punição, sozinha, resolve? Talvez não. Isso porque interromper um comportamento não significa, necessariamente, compreender ou impedir que ele volte a acontecer.

Como lembra Vanessa Cavalieri, citando Marshall Rosenberg, “a violência é uma forma trágica de reagir a uma necessidade legítima não atendida”. Isso não significa justificar comportamentos violentos ou relativizar o impacto causado. Significa reconhecer que a responsabilização e a educação precisam caminhar juntas.

É nesse ponto que entram a convivência escolar, a justiça restaurativa e o desenvolvimento socioemocional, não como substitutos da responsabilização, mas como caminhos complementares para evitar que a violência continue se repetindo. Porque olhar para as consequências dos casos não basta. Também é preciso discutir prevenção.

O desafio não é apenas ensinar a usar IA

Como vimos, a IA já é uma realidade nas escolas. Diante desse cenário, o letramento digital e as habilidades socioemocionais ganham ainda mais força: não basta saber usar a tecnologia, é preciso compreendê-la, refletir sobre seus impactos e fazer escolhas conscientes.

“Hoje quase 70% dos alunos de 9 a 13 anos já utilizam IA no Brasil. Ou seja: a questão não é se a inteligência artificial fará parte da vida escolar. Ela já faz”, lembra Caio Lo Bianco.

A pergunta agora não é sobre usar ou não IA; ela passa a ser outra: como alfabetizar crianças e adolescentes para conviver criticamente com essa tecnologia?

É justamente nesse ponto que a educação ganha um papel essencial. Mais do que aprender a usar ferramentas isoladas, precisamos garantir que essas tecnologias sejam utilizadas de forma ética, crítica e responsável — e que realmente contribuam para o processo educativo.

Nesse cenário, habilidades como pensamento crítico, empatia, interpretação de contextos e tomada de decisão consciente tornam-se ainda mais importantes.

Em um mundo em que a tecnologia avança rapidamente, talvez o maior desafio da educação não seja apenas acompanhar as ferramentas — mas formar pessoas capazes de usá-las com responsabilidade, senso crítico e cuidado com o outro.

Vamos conversar mais sobre isso?

As reflexões que atravessam este texto não terminam aqui. Este conteúdo faz parte de um material exclusivo e gratuito que preparamos a partir da conversa entre Caio Lo Bianco e Vanessa Cavalieri sobre alguns dos temas mais urgentes da atualidade: violência entre jovens, frustração, cidadania digital, inteligência artificial, exposição nas redes e os desafios da convivência.

Organizamos os principais aprendizados do encontro em 4 tópicos-guia, com conteúdos de apoio e reflexões para ajudar escolas a aprofundarem esse debate e construírem caminhos possíveis.

Inscreva-se gratuitamente e acesse o material completo aqui: https://digitaliv.com.br/EducaçãoDigitalNovaGeração



O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.