COMO ESTIMULAR O DESENVOLVIMENTO MOTOR E DA FALA?

Por Paloma Bastos Pereira

Antes de tentar responder a essa pergunta, vamos apresentar outra muito comum: meu filho está se desenvolvendo adequadamente?

 

Primeiramente, é de suma importância lembrar que as famílias têm excelentes parceiros nesta jornada de desenvolvimento das crianças: a escola e o pediatra, que estão atentos e cuidadosos às especificidades de cada fase. Manter a relação e o diálogo abertos é fundamental para o acompanhamento desses processos.

 

Na escola, as crianças são recebidas em suas singularidades e costumam ser estimuladas a vivenciar novos desafios, a ir além do que já aprenderam. Todo o planejamento pedagógico é voltado para oferecer os melhores recursos, o ambiente e as práticas apropriados para cada fase. Logo, estar por dentro do que as crianças vivenciam na escola traz, para os familiares, ideias e possibilidades de continuar em casa o que é desenvolvido nas aulas.

 

Percorrendo o ambiente da escola, com pátios, brinquedos, novos amigos, estímulos e aprendizados, as crianças têm grande parte do que precisam para um desenvolvimento integral. Esse processo pode e deve ser ainda mais potencializado quando as colocamos em relações vastas e múltiplas, ampliando os relacionamentos intra e interpessoal.

 

Afinal, cada criança tem seu ritmo e sua forma de aprender; no entanto, isso não quer dizer que não haja janelas de aprendizados em cada fase. A neurociência e a neuropsicologia têm avançado muito, deixando uma contribuição importantíssima sobre os estudos de como as crianças aprendem e se desenvolvem. Como ressaltado por Rochele Paz Fonseca, psicóloga, fonoaudióloga e especialista em neuropsicologia, “nós temos um conjunto de habilidades necessárias para aprender cada etapa e cada disciplina na escola. Essas habilidades têm que ser estimuladas pela vida e pela escola”.

 

Falando em vida, lembramos aqui que ela acontece em múltiplos espaços e ambientes. Quanto maior a riqueza destes na vida das crianças, mais propícias elas estarão ao desenvolvimento saudável. Parque, teatro, música, dança, esporte, as casas de amigos e familiares são imensidões a serem exploradas e vivenciadas em sua amplitude. Quem nunca teve a memória (visual ou sensível) de que a casa dos avós era bem maior do que a que presencia hoje, com o corpo de adulto? A nossa relação com os espaços ganha perspectivas quando crescemos.

 

Sim, os espaços são repletos de novidades, desafios, descobertas e imaginação. Pode ser muito interessante estimular que as crianças desbravem novos ambientes, lidando com medos, curiosidades e movimentos mais amplos, e esse é um exercício que começa em casa.

 

Por isso, permitir a livre circulação pela casa – tomando os cuidados necessários diante dos “perigos” e “armadilhas” – auxilia no desenvolvimento da noção espacial, da percepção do eu-corpo habitante da casa-família. Aquele portãozinho que impede o acesso a determinado cômodo da casa pode virar uma aventura quando a criança cresce. Desafiar e questionar esses portões pode ser um bom passo.

 

Passeando, dançando, subindo e descendo escadas e móveis, as crianças exploram os movimentos e se reconhecem no espaço. Pintar o corpo, marcar as mãos sujas em papéis de diversos tamanhos, rabiscar livremente sem intenção de dar forma a algo, manusear diferentes materiais para escrita ou desenho (lápis de cor, giz de cera, caneta grossa, carvão) e brincar com argila ou massinha são alguns recursos para estimular a percepção do corpo, do tato e para a construção da motora fina (da qual precisamos muito para escrever e cortar, por exemplo).

 

É evidente que eles já estão treinando a motora fina com o celular – pode-se argumentar – mas aqui incentivamos fortemente que os eletrônicos sejam muito pouco ou quase nada utilizados nessa fase inicial da vida. Com tantas novidades e possibilidades para explorar, limitar os estímulos aos eletrônicos é um caminho curto e pobre, sem mencionar os danos causados por esses aparelhos, pois esse assunto já renderia outro texto.

 

Interagir com crianças de diferentes idades também é um importante componente no desenvolvimento motor e da fala. Brincando no parque com crianças maiores, os menores podem aprender novos movimentos e desafios, ouvir palavras que comumente não ouvem em casa, vivenciar novas formas de explorar o espaço e a linguagem. Ver uma criança “grande” no alto do trepa-trepa pode parecer uma ousadia tremenda que um dia poderá ser alcançada. Assim, correr riscos saudáveis faz parte da vida e do processo de amadurecimento, e ouvir palavras diferentes e formas distintas de expressão é importantíssimo para a elaboração da fala. Nessas interações com a diversidade, não busque comparações ou competições; o olhar de curiosidade é mais importante do que encaixar uma criança em uma fase, comparando-a com outras.

 

Em casa, nos parques, nas festas e nos espaços públicos, há muitas linguagens a serem ouvidas e vivenciadas pelas crianças. É uma pena quando os adultos infantilizam a fala e economizam palavras ao se comunicarem com elas. Excelentes comunicações são carregadas de afeto, atenção, contato visual e físico, imagens simbólicas, metáforas e riqueza de palavras. Por que restringir o repertório? Contato com livros, leituras e contação de histórias introduzem os mais novos à linguagem de forma natural e sensível.

 

Estudos já comprovam que crianças que cresceram em ambientes de vocabulário pobre apresentam dificuldades significativas na oralidade e na escrita. Nessa linha, é importante lembrar que os sons e balbucios são formas de comunicação, uma linguagem única que carinhosamente podemos estimular com nossas reações faciais e contato físico com os bebês.

 

Pensando em corresponder à necessidade de estímulos adequados para cada fase do desenvolvimento infantil, devemos nos atentar à forma como colocamos nossas emoções, sensações e sentimentos na relação com as crianças. Aprendizagem e desenvolvimento se dão pela via do afeto. Por isso, finalizo este texto com mais uma contribuição da especialista Rochele Paz Fonseca: “As crianças aprendem reunindo características cognitivas, repertórios emocionais e habilidades comunicativas”.