A importância do limite no desenvolvimento das crianças

Por Raul Spitz, psicólogo e psicanalista

Um tema que costuma chamar muita atenção e que diz respeito a pais e cuidadores durante boa parte dos primeiros anos da vida da criança é saber como balancear os famosos “nãos” e “sins” no processo educativo. Normalmente, sabe-se, no senso comum, que dar limites é algo importante para os pequenos, mas aplicar isso no dia a dia parece uma tarefa complicada. Vamos, a partir deste artigo, apresentar um pouco do desenvolvimento da vida da criança, desde seus primeiros momentos, para tentar criar possíveis entendimentos sobre a importância do limite e da frustração para o seu amadurecimento. Além disso, tentaremos apresentar formas que possam ser utilizadas pelos responsáveis para que realizem tal feito. 

 

A vida da criança 

 

É importante que se diga que as crianças não nascem tendo consciência sobre elas e sobre o mundo. Logo, assim que nascem, os bebês iniciam uma longa jornada de experiências que vão envolver a formação do seu mundo interno, dotado de uma energia que pulsa de forma bastante desorganizada, e o ambiente que os cerca. Utilizando como base a teoria de Donald Winnicott, compreendemos que o desenvolvimento cerebral e emocional da criança está relacionado intimamente com a forma como o ambiente (leia-se mãe, pai, cuidadores) se apresenta para o bebê desde suas primeiras experiências de vida pós-nascimento.

 

Segundo o autor, esse ambiente faz toda diferença no sentido de viabilizar um desenvolvimento emocional saudável para o bebê, fazendo com que ele possa, aos poucos, experimentar uma maior segurança, uma continuidade de ser e uma maior integração de si. Porém, é fundamental ressaltar que a sustentação desse ambiente não se faz de forma linear e sem falhas. Esse, inclusive, é um tema bastante trabalhado por Winnicott por meio das observações das primeiras relações mãe-pai-bebê: a importância que as faltas do ambiente possuem no processo de elaboração e entendimento das crianças. Durante o estágio da gestação, a criança, ou, ainda, o feto, já começa a ter seus primeiros impulsos afetivos. Ela começa a sentir aquilo que acontece com a mãe por meio de sinais fisiológicos, aumento da frequência cardíaca, movimentação corporal e liberação de hormônios. 

 

A conexão entre feto e mãe já começa a se fazer presente, mas limitada a um espaço único de exploração. Durante esse momento, a existência desse ainda “ser em formação” encontra-se, de certa maneira, estabilizada e plena; a alimentação se dá quase que automaticamente por meio da placenta, e a temperatura parece estar sempre constante, não variando muito de frio para calor. A partir do nascimento, a vida do bebê ganha outros contornos. O residir em um espaço equilibrado e pequeno (limitado) dá lugar a viver em um mundo novo, cheio de estímulos inéditos. Com isso, a capacidade de adaptação do recém-nascido a essa nova vida seguirá a maneira como o ambiente funciona em sua tarefa de acolhê-lo. 

 

Sendo portador de características bem específicas, o bebê humano é o único animal que, a partir do nascimento, não se sustenta apenas pela alimentação ou por ter um lugar para dormir. Ele precisa de alguns outros investimentos para poder se desenvolver orgânica e emocionalmente. Dar colo, tocar a pele, “olhar no olho”, dar carinho e propiciar atenção. Esses são alguns dos estímulos que o ambiente precisa oferecer ao bebê para que ele possa, por meio das experiências, tornar-se capaz de se sentir seguro e dar continuidade em ser. É importante frisar que, durante esses primeiros momentos de vida, ainda não há um “eu” definido no bebê. Esse “eu” vai se criando ao longo dessa experiência. Até mais ou menos seis meses de vida, a criança ainda é totalmente dependente de sua mãe, ou cuidador, vivendo uma espécie de fusão com ela (ambiente). “O primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe: a sua expressão, o seu olhar, a sua voz […]. É como se o bebê pensasse: ‘Olho e sou visto, logo, existo!’” (Donald Winnicott). 

 

De acordo com a teoria winnicotiana, prover um bom ambiente para o bebê é fazer com que ele experimente sentimentos de ilusão. O que isso quer dizer? A ideia seria, mais ou menos, como se, quando ele estivesse com fome, magicamente viesse um peito ou uma mamadeira para satisfazer sua necessidade. Passar por essa experiência onipotente seria um importante estágio para que o bebê conseguisse, pouco a pouco, organizar-se internamente. 

 

Entendimento por meio da falta

 

Contudo, ultrapassar essa experiência de onipotência é algo fundamental para a sequência do desenvolvimento saudável da criança. Para isso, entra em cena, na relação mãe/pai/cuidadores/ bebê um conceito muito conhecido, criado por Winnicott: a mãe suficientemente boa. Mas o que seria isso? Sendo representante do ambiente, a mãe, ou seus substitutos, é responsável por apresentar ao bebê um “ambiente bom”, aquele que seria capaz de suprir as necessidades básicas dele. Com isso, todas as demais ações e explorações que os bebês podem vivenciar nas relações com seu meio estariam abertas para que ele pudesse experimentar por conta própria. Isso quer dizer que o ambiente, em muitas ocasiões, necessariamente apresentará faltas ou falhas no atendimento a esse bebê. 

 

Usando o exemplo da alimentação, aquele bebê que teve a capacidade de desenvolver a ilusão de que cria o peito para se alimentar, agora começa a perceber que nem sempre que tem fome o peito aparece, como ele gostaria. Ou nem sempre que tem dor de barriga, aquela “mão mágica” aparece para aliviar seu incômodo. Assim, essa “descoberta” faz com que a criança precise passar por uma desilusão. Ou seja, é como se agora fosse possível à criança pensar “Hum, acho que não era eu que criava o peito. Acho que para me alimentar eu preciso de alguém”. Dessa forma, uma noção de sujeito parece nascer. Um “eu” apresenta-se separado da mãe nesse momento. 

 

O conceito de “mãe suficientemente boa”, que, como já dissemos, não obrigatoriamente se faz pela figura da mãe, pode nos apresentar, então, algo muito importante: a mãe que tenta suprir a todo custo TUDO de que seu filho precisa pode estar causando um mal tão grande a ele quanto a mãe (ambiente) que negligencia seus cuidados. Então, podemos concluir que as imperfeições que o cuidado materno inexoravelmente proporciona aos filhos são significativas para fazer emergir uma criança com capacidades ativas. Falando de outra maneira, as faltas que o ambiente propicia às crianças, desde que não sejam sobre os cuidados básicos, são aliadas do processo de desenvolvimento. É nessas faltas que as crianças precisam criar soluções próprias para lidar com seus enigmas. “Se minha mãe não pode me dar tudo, preciso aprender a lidar com isso”. Seria como se fosse um impulso para que a criança se movesse para frente, valorizando seus processos criativo e de desenvolvimento cognitivo e emocional. 

 

Limites e frustrações 

 

O pensamento anteriormente citado nos traz um dado de realidade relevante: a vida, de fato, pode nos dar tudo o que quisermos? Essa questão talvez permeie o imaginário de muitos pais e responsáveis. Em termos de fantasia, muitas vezes eles procuram, por meio dos seus excessivos cuidados, evitar que seus filhos tenham medo, sofram reveses, percam o controle, sofram violências ou se frustrem. Porém, uma coisa é o desejo da fantasia; outra é a realidade. Por mais que tentemos proteger nossas crianças de ter de passar por tais sentimentos, a vida se encarregará disso. 

 

Em alguns ou em vários momentos de nossas histórias, medos, insucessos, inseguranças e frustrações vão bater à nossa porta. A frustração ainda possui algo a mais: é ela que nos dá a total noção de que não podemos tudo. Oferecer à criança a experiência de passar pelo sentimento da frustração durante sua infância, de forma acompanhada e mediada por aqueles que cuidam dela, certamente aumentará as possibilidades de que ela crie recursos próprios, mais robustos, no sentido de transformar-se num cidadão mais saudável. É comum que, durante o seu processo de desenvolvimento, a criança não entenda de forma direta o conceito das regras. Se voltarmos ao início do texto, a criança, em seus primeiros momentos, passa por um período no qual se sente autossuficiente, achando-se capaz de poder lidar magicamente com tudo à sua volta. No entanto, é por meio das intervenções apresentadas por esse “bom ambiente” que ela pode perceber que habita um mundo que é, de certa forma, limitado e guiado por regras fundamentais de convivência. 

 

Perder esse sentimento onipotente pode ser algo que a criança demore um pouco para elaborar. Dessa forma, as regras que muitas vezes são colocadas a ela por seus cuidadores podem ser difíceis de aceitar ou assimilar. Esse é um ponto muito delicado da relação entre responsáveis e filhos. Como não perder o controle ou desistir de impor os limites? Primeiro, é fundamental ter a exata ideia de que o que a criança mais necessita ao longo de sua infância é saber que alguém está no controle dela. Isso a faz sentir protegida. No momento em que ela introjeta a ideia de que há alguém que possa ser responsável e fazer coisas que ela ainda não tem capacidade emocional e cognitiva para realizar, a tendência é que essa criança possa se aliviar de forma a dar continuidade ao seu desenvolvimento. 

 

Além disso, as regras são fundamentais para dar uma ideia de coletividade, quando a criança passa a perceber que também tem a utilidade de organizar a convivência dos ambientes. “Com a intervenção dos pais, a criança aprende a se socializar. Começa a ter noções de moral e ética” (Tania Zagury).