Quantidade e qualidade de tempo na convivência familiar: uma questão de atenção, afeto e vínculo

Por Renato Fonseca Psicólogo, Mestre em Filosofia e autor do perfil @paternidade_afetiva no Instagram


Muitos responsáveis se perguntam o que é mais importante: quantidade ou qualidade de tempo na relação com as crianças. Em uma época na qual o tempo é um bem escasso, a ideia de que qualidade basta é cada vez mais corrente. Mas a resposta não é tão simples e está na particularidade de cada criança, de cada família, e na análise sobre as necessidades de desenvolvimento da criança serem correspondidas ou não.Para entendermos melhor essa ideia, primeiro precisamos refletir sobre as necessidades de uma criança. O Estatuto da Criança e Adolescente, na perspectiva de garantir o desenvolvimento integral, nos diz em seu Art. 4o que toda criança tem “direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”.Parece óbvio quando falamos em direito à alimentação, por exemplo, que a criança precisa de uma certa quantidade de comida por dia. Mas não só; também sabemos que essa comida precisa de qualidade nutricional, caso contrário, trará desequilíbrios para seu desenvolvimento e sua saúde. No entanto, a questão da quantidade ou qualidade não parece tão óbvia quando falamos no direito à convivência familiar. Quantidade de quê? De tempo cronometrado? Qual é essa qualidade? Vem da intensa diversão na quebra da rotina?

Na convivência com os mais novos, é preciso que haja quantidade e qualidade, em uma relação capaz de garantir atenção, afeto e vínculo. A quantidade desses elementos não se mede com um relógio, mas na pluralidade de experiências compartilhadas, permeadas por sentimentos como felicidade, empatia, raiva, tédio… A presença dos cuidadores, em quantidade, é necessária na medida em que a atenção oferecida a essas experiências não se faz possível em poucas horas por dia ou em atividades não compartilhadas (por exemplo,quando cada um está conectado com seu celular). No tempo dos afetos, no qual a criança flutua desavisada, estar junto em uma pluralidade de experiências cotidianas é o que favorecerá o vínculo entre adultos e crianças, permitindo ao responsável a conhecer melhor em suas necessidades particulares.Nessa perspectiva, a quantidade de experiências compartilhadas é potencializada pela qualidade do tempo vivido. É nela que habilidades de vida e de repertório socioafetivo serão construídos. Um tempo de tédio vivido com qualidade leva à criatividade e à paciência; um tempo com a frustração pode levar à resiliência; um tempo de amor gera segurança e capacidade de amar, de empatizar, de construir o mundo. A qualidade não se restringe a momentos de prazer, diversão e alegria. Existe a fantasia, entre muitos responsáveis, de uma busca por uma “qualidade excessiva”, que passa pelo excesso na quantidade de atividades, de estímulos e bens materiais que podem oferecer. Porém, a quantidade ou mesmo a qualidade de coisas não implicam necessariamente na qualidade das relações. O que faz uma convivência ganhar em qualidade é o coprotagonismo da família que enfrenta unida tanto os momentos bons como os ruins. Quando a criança recebe atenção, com responsáveis capazes de acolher e escutar seus sentimentos e necessidades, afetos vindos de momentos de dor e tristeza também são fundamentais para seu desenvolvimento pessoal. Nesse sentido, atenção, afeto e vínculo são tão básicos como água limpa e comida de qualidade.Na balança entre quantidade e qualidade, a dinâmica familiar e o contexto social não podem ser ignorados. Qualquer peça que falte pode desequilibrar a convivência da família. Pergunta-se: a família é capaz de nutrir a criança de afeto? Os adultos podem se sentir cansados e sobrecarregados, sem amor para dar, o que nos leva a refletir se a dinâmica familiar segue capaz de nutrir os próprios adultos de atenção, afeto e vínculos. A desnutrição afetiva pode levar à diminuição de quantidade e qualidade da convivência familiar. Portanto, escutar as crianças ajuda a reconhecer a quantas anda a dinâmica da família; comportamentos como agressividade, carência ou insegurança não são um problema exclusivo da criança, mas um chamado para rever as relações em casa, que podem sinalizar tanto excesso ou falta de quantidade, como qualidade insuficiente. Por vezes, o simples estar com as crianças, se disponibilizar a sentar no chão e brincar – embora dificultoso para responsáveis com pouco repertório de troca com o mundo infantil – pode ser o suficiente para criar experiências plurais, para escutar e nutrir a família de afetos.

O contexto social em um país desigual como o Brasil também pode desfavorecer a convivência em família. Muitas delas precisam trabalhar várias horas por dia para garantir parte das necessidades básicas, de modo que são levadas a um cotidiano limite de estresse. Cabe ao poder público investir em iniciativas que promovam, além da melhoria de renda, o lazer, o esporte e outros direitos, visando oferecer espaços à convivência familiar.Para lidar com essas dificuldades, o que pode ajudar é a construção, em conjunto, de uma rotina transparente, com tarefas, deveres e encontros positivos entre todos, garantindo um tempo diário (alguns dias mais, outros menos) ao qual se dedique com atenção e se compartilhem experiências. Não existe um modelo para todas as famílias, mas brincar, jogar e passar um domingo de sol em praças, assim como perguntar como a criança está está, como foi o seu dia, se ela precisa de ajuda para algo, ou oferecer colo podem ser momentos de qualidade que alimentam afetivamente uma família, reforçando seu vínculo. Por isso, pergunte a si mesmo: “Passo o tempo que quero/posso com minhas crianças?”. A resposta não está fora, mas dentro.