Aprendizados que queremos manter na educação quando a pandemia passar

30 de julho de 2020

Este material foi produzido pelo LIV como a quinta etapa da Jornada do Selo Azul, que auxilia gestores e coordenadores no retorno à escola para que, além dos protocolos de proteção, haja um cuidado com a saúde mental de toda comunidade escolar, independente de quando essa volta aconteça.

Caso você ainda não esteja participando, inscreva-se e participe da Jornada completa para ganhar o Selo Azul que simboliza que a sua comunidade escolar reconhece a importância de um olhar consciente para o acolhimento e para a saúde mental na volta às aulas presenciais. Receba também um kit de materiais LIV para ambientação, possibilitando que todo o conhecimento seja replicado na própria estrutura da escola.

Se a sua escola já está participando, fique atento(a) a sua caixa de e-mails, pois iremos seguir essa jornada com você por lá!

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Estamos chegando ao final da nossa Jornada do Selo Azul, que realizamos virtualmente no último mês junto a centenas de educadores de diferentes regiões do país com o propósito de auxiliá-los a repensar nos fatores socioemocionais envolvidos na educação escolar. Para nós, esse foi um grande ciclo de aprendizagem, no qual contamos com ensinamentos não apenas dos especialistas que nos ajudaram na construção dos conteúdos relacionados à jornada, mas de todos aqueles que participaram das atividades e nos enviaram seus relatos.

Embora esta seja a última fase de nossos encontros virtuais dentro da jornada, sabemos que não se trata de uma conclusão. Na verdade, é um convite para que uma nova porta se abra, possibilitando mudanças para uma escola mais atenta ao desenvolvimento socioemocional de seus alunos e professores. Nesse sentido, trazemos uma questão para embasar nosso último conteúdo: Que aprendizados queremos manter quando essa pandemia acabar?

Quando fizemos essa pergunta para a professora da educação básica, Gina Vieira Ponte, ela nos disse que, em seu ponto de vista, a pandemia trouxe a certeza e a convicção de que escolas e professores são indispensáveis. Gina é uma referência nacional na área da docência, tendo sido ganhadora de prêmios por sua atuação, que inclui a docência e a formação de professores em diversas redes de ensino. Em uma entrevista exclusiva ao LIV (clique aqui para ler a conversa completa), ela defendeu que a escola tem papel não apenas de transmitir conhecimento, mas de promover a atividade significativa de uma perspectiva integral. “As crianças não aprendem apenas com os docentes, elas aprendem nas interações. O que está fazendo falta às famílias [na pandemia] é a criança estar em um espaço social no qual ela possa ter uma ocupação qualificada do seu tempo em contato com outras crianças”, disse.

A educadora também ponderou que o grande aprendizado desse momento na educação é entender o quanto a escola faz parte da nossa vida e o quanto a sociedade se movimenta em torno da escola. “Tem pai e mãe que precisa fazer teletrabalho e olha para filho ao lado, afundado com a cara no computador, e sente uma angústia muito grande. Antes a criança estava na escola, aprendendo, mesmo que estivesse com a cara no computador, mas dentro de uma conjuntura social, no meio de outras crianças interagindo, pois tudo isso a humaniza”, destaca. 

A ancorada na prática

Para contribuir com essa reflexão, selecionamos a seguir um vídeo no qual Márcia Frederico, psicóloga e consultora pedagógica do LIV, fala sobre como ancorar as questões relacionadas ao acolhimento e à saúde mental e oferece também ideias práticas para contribuir com o retorno às aulas presenciais, independente de quando aconteça. O conteúdo é todo baseado no nosso Guia de Acolhimento LIV. Após o vídeo, você confere um relato de como esse material tem ajudado profissionais da educação a planejar suas atividades neste momento tão difícil. Confira:

 

 

 

Guia de Acolhimento LIV nas escolas

“Estamos aprendendo a lidar com as incertezas, entendendo que o ser humano não possui controle de tudo, como procura acreditar”. A frase, dita pela psicóloga, especialista em Educação e Tecnologias e coordenadora do Projeto Socioemocional do Colégio Sarah Dawsey, Renata Baccarat Ramos, resume bem o momento atual de todos os educadores. Membro do Comitê de Crise formado pelo colégio durante a quarentena com a presença de uma equipe multidisciplinar para realizar o planejamento estratégico que o momento requer e responsável pela elaboração do plano socioemocional de retorno às aulas presenciais dentro das três unidades do colégio na cidade do Rio de Janeiro, ela conversou conosco sobre como a Educação como um todo vem repensando seu papel e sobre como os materiais oferecidos pelo programa, como o LIV em Casa, o Guia de Acolhimento LIV e a Jornada do Selo Azul, vêm contribuindo com seu trabalho durante a pandemia.

Com quase 750 estudantes e uma centena de adultos entre funcionários e professores no radar, Renata conta que olhar a saúde mental e o desenvolvimento socioemocional da comunidade escolar se tornou ainda mais essencial nos últimos meses. “Eu vejo a saúde mental e a inteligência emocional como a base do desenvolvimento cognitivo e até mesmo da saúde física. Dificilmente o aluno vai ter um bom rendimento acadêmico, se estiver apresentando questões importantes relacionadas à saúde mental. Isso impacta em todas as estruturas. Para pensar o retorno às aulas presenciais no colégio, estamos dando a mesma importância para três pilares: o socioemocional, a saúde física e o desenvolvimento cognitivo, prezando para que tudo funcione em equilíbrio”, conta.

Uma das grandes preocupações da escola nesse sentido são as relações de vínculo entre os alunos, que podem ter sido impactadas com a redução de socialização entre eles. “Cada um está na sua casa, seguindo sua vida e, mesmo tendo acesso a lives que geram interação, eles acabam trocando mais com os professores do que entre eles. Essa socialização entre pares é parte importante do desenvolvimento integral do aluno, por isso estamos atentos para que essa troca seja priorizada no retorno ao presencial, incluindo dentro do planejamento dos professores propostas de atividades que permitam esse tipo de interação, mesmo cumprindo a distância de dois metros entre eles. A troca e o afeto é essencial para a saúde mental, por isso estamos buscando outras formas de demonstração de afeto que causem uma sensação semelhante ao abraço, ou seja, que gere um sentimento de acolhimento, segurança, união e conforto.”

Por isso, outra preocupação da instituição é formar professores e funcionários para que possam estar mais atentos às mudanças de comportamento ocorridas no período de aulas on-line e durante o retorno às escolas, que podem ou não se manifestar. “Me preocupam questões como o estresse pós-traumático, os efeitos causados pelo confinamento (e todas as mudanças envolvidas), como agressividade, irritabilidade, perda de foco, sensação de solidão, ansiedade, depressão, dentre outros. Eles podem ou não aparecer, e cada aluno vai responder de uma determinada forma, mas a gente precisa ter um olhar muito apurado para enxergar o outro, porque muitas vezes um determinado comportamento pode significar um pedido de socorro em termos de saúde mental. Quanto mais alinhada estiver a comunidade escolar sobre a importância de olhar para a saúde mental do aluno, mais poderemos atuar na prevenção em direção à criação de uma rede de apoio ao aluno. Quando me refiro à comunidade escolar, incluo aqui os alunos, todo o corpo de funcionários do colégio e os responsáveis pelos alunos. É preciso que todos caminhem juntos e na mesma direção.”

A psicóloga explica que não há como prever os sintomas de cada faixa etária, pois cada aluno é diferente e passou por questões diferentes, mas aponta algo em comum em termos de atuação para com esses alunos, tanto no ambiente escolar quanto no familiar, para todas as faixas etárias: “É fundamental priorizar a comunicação e o acolhimento. Isso significa estar aberto a escutar, a legitimar os sentimentos sem apresentar juízo de valor, a perceber mudanças de comportamento, a mostrar que a criança/jovem não está sozinho, e saber pedir ajuda profissional, reconhecendo os próprios limites de atuação. Algo importante que vem sendo bastante trabalhado dentro da comunidade Sarah Dawsey é a premissa de cuidar de si para poder cuidar do outro, quando falamos de adultos. Como instituição, precisamos cuidar de nossos alunos, cuidando também de nossa equipe e dos responsáveis por nossos alunos, o que envolve acolhimento e capacitação. Por exemplo, quando o professor está na sala e percebe que o aluno não está bem ou que trouxe um tema importante como a morte ou o luto para a conversa, ele precisa saber o que fazer com isso. Como ele vai conduzir a questão? Quais são seus limites? Ele vai estar bem para conduzir certos temas com o aluno? Para quem endereçar o caso e como levar isso à família do aluno, de forma a orientá-la? São situações que todos os funcionários que têm contato com alunos estão sujeitos a passar, por isso o colégio entende que é essencial uma orientação ao corpo escolar nesse sentido.”

Renata conta que para preparar a comunidade escolar em relação ao cuidado com a saúde mental, ela também conta com o apoio da equipe pedagógica do LIV, que contribui com a elaboração de materiais em texto e audiovisuais que atendam às necessidades da escola:

Pensando nos alunos, utilizamos e adaptamos o material do LIV para a realidade da escola. Também fizemos um alinhamento de todos os funcionários para falar sobre a temática socioemocional, construída em parceria com a equipe pedagógica do LIV. Explicamos sobre essa escuta ativa, sobre olhar para si próprio e o autocuidado. Foi um treinamento que eu montei com base no Guia de Acolhimento LIV. O guia foi essencial, pois quando eu estava esquematizando o que fazer, ele me ajudou a organizar o raciocínio. O material colocou as temáticas de forma didática e me ajudou a elencar as prioridades, além de contar com o apoio da consultoria pedagógica. Nesse sentido, destaco que a parceria do LIV é uma parceria de verdade, pois quando precisamos de qualquer apoio, como oferecer uma capacitação de equipe ou uma live aos pais em um momento complexo como esse, a equipe nos ajuda a adaptar o material, produzindo juntos um conteúdo adequado ao contexto, e que é muito bem recebido pela escola. Tenho na equipe do LIV uma parceria constante”.

 

Aprendizados que ficam

Renata destaca ainda que, embora o momento seja de crise, também é importante observar os bons aprendizados. Para ela, um dos principais avanços da educação nesse sentido foi destacar a importância de desenvolver competências socioemocionais dentro das instituições de ensino. “O Colégio Sarah Dawsey já tinha essa cultura e já vinha trabalhando esse aspecto em parceria com o LIV, mas agora a necessidade desse trabalho e o impacto positivo se tornou ainda mais evidente. Nas escolas, em geral, isso não é priorizado, sendo o cognitivo o grande foco do olhar de gestores educacionais. A mobilização gerada pela crise em direção à contribuir com uma cultura de olhar para o aluno como cidadão, para que seu desenvolvimento seja integral e não apenas cognitivo, na área da Educação como um todo, foi um ganho. Já tínhamos visto isso em destaque com a BNCC [Base Nacional Curricular Comum], mas acredito que as pessoas vão passar a enxergar e valorizar mais a importância das competências socioemocionais a partir de agora. Espero que isso permaneça na educação”, afirma.

Outro aprendizado positivo visto pela psicóloga foi o estreitamento de laços entre a equipe escolar e com as famílias. “É um momento difícil e, quando você está junto nesses momentos, geralmente o vínculo cresce. Aprendemos muito sobre tolerância, compreensão, colaboração e empatia. Apesar da distância física, sentimos uma aproximação de todos os membros da comunidade escolar, aumentando a intimidade, a empatia, o cuidado com o outro e consigo mesmo”, acredita Renata.

Renata destacou, por fim, como a necessidade de trabalhar à distância contribuiu para diminuir as resistências diante das ferramentas tecnológicas, “mostrando que não temos mais como descolar a tecnologia da Educação, mas sim usá-la a favor da Educação.”

“De modo geral, tivemos um desenvolvimento importante em termos de flexibilidade, criatividade, tolerância à frustração, adaptabilidade, colaboração e empatia”, pondera.

Para o futuro, a psicóloga espera que o trabalho com a educação socioemocional possa prevenir possíveis danos na saúde mental, contribuindo para que a comunidade esteja, na medida do possível, mais saudável. “Somos todos seres humanos e temos altos e baixos, não tem como garantir que todos estejam bem, mas a gente pode dar o máximo possível de acolhimento para as pessoas saberem que podem contar com a rede de apoio escolar e que ninguém está sozinho ”, completa.

 

A Jornada ainda não terminou

Se você chegou até aqui por meio da Jornada do Selo Azul, muito obrigado! Esperamos que os materiais divulgados tenham contribuído para a reflexão sobre a atuação de sua escola neste momento de pandemia e no retorno às atividades presenciais. Essa jornada, contudo, não termina aqui. 

Ao longo das últimas semanas conversamos com centenas de educadores e famílias, que disseram abertamente sobre o quanto sentem necessidade de um espaço onde possam falar sobre os aspectos socioemocionais do fazer educacional. Por isso, continuaremos a divulgar conteúdos exclusivos a respeito desse tema aqui no site e em nossos canais. Além disso, continuaremos a oferecer por mais algumas semanas a Jornada do Selo Azul e quem ainda não se inscreveu terá a chance de participar desse ciclo de aprendizagem coletiva. Basta clicar aqui para fazer a inscrição gratuitamente

 

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Comentários
Margarida Maria de Aquino de Sousa Lima

Dúvidas com esclarecimento favorável,nos mostra que tudo pode acontecer dentro das normalizadas