Entrevista do Mês: “Pertencimento só se constrói a partir de vínculos”, com Gina Vieira Ponte

30 de julho de 2020

Durante essa pandemia, muito do que pensávamos sobre educação vem sendo colocado à luz de inúmeras questões. Afinal, que educação estávamos oferecendo às crianças e aos adolescentes antes dessa situação se estender pelo mundo e, principalmente, que educação continuaremos a oferecer quando isso passar?

Na Jornada do Selo Azul (para saber mais clique aqui), tivemos a chance de trocar muitas ideias com educadores de todo o Brasil, que nos ajudaram a refletir sobre essas questões e sobre o que desejamos manter quando a pandemia passar. 

Em uma dessas conversas, a professora da Educação Básica Gina Vieira Ponte nos trouxe a oportunidade de pensar sobre a identidade da educação e o impacto das desigualdades sociais sobre elas. Gina é uma referência nacional na área da docência, tendo sido ganhadora de prêmios por sua atuação, que inclui a docência e a formação de professores em diversas redes de ensino, além de pertencer atualmente ao coletivo “Professoras e professores do Brasil”, formado por mais de 200 docentes das cinco regiões brasileiras. 

Na conversa que você lerá a seguir, ela defende a necessidade de se pensar sobre quão profundas foram as mudanças trazidas pela pandemia e o quanto a crise endossou aspectos que, na realidade, desejaríamos mudar. Com certeza não conseguiremos dar conta de debater todo os aspectos ao redor desse assunto ou chegar a conclusões finais – nem é esse o nosso objetivo! Queremos que este papo possa ajudar na reflexão sobre o tema, tendo como base 4 perguntas preparadas pela equipe LIV para a educadora. Esperamos que esse debate possa se estender para outros espaços!

Confira a entrevista completa:

 

LIV – Do seu ponto de vista, em quais aspectos a pandemia afetou e ainda está afetando a educação no Brasil? 

Gina – Afetou em todos os aspectos. A pandemia escancarou o fato de que a gente tem uma educação abandonada pelo poder público em vários aspectos. Hoje faço parte de um coletivo que reúne 219 professores de 24 unidades da federação e nos aproximamos muito porque a gente percebeu, em nosso grupo de WhatsApp, uma angústia muito grande, um sofrimento psíquico e professores expostos a assédio moral e à uma lógica em que chegaram a ouvir que não eram suficientemente bons para atender os estudantes nesse contexto por não dominarem as novas tecnologias. Nós nos reunimos para fazer a interlocução e um vídeo-manifesto sobre essa questão, pois acreditamos que não se faz inclusão digital sem política pública, intencionalidade e planejamento a médio e longo prazo. 

Nesse sentido, o primeiro ponto que a pandemia mostrou é que a escola continua se comportando como uma tecnologia de uma outra época, como diz uma pesquisadora argentina, Paula Sibilia, que vem fazendo pesquisa sobre a educação brasileira há anos, a escola corresponde a uma outra época, ela têm dificuldade de se conectar com seu tempo, com a juventude, e não é por falta de esforços dos docentes, é por questões estruturais. 

A pandemia escancarou nossas desigualdades sociais e estruturais, pois ficou mais evidente como a gente tem estudantes com a vida completamente precarizada, sem conectividade, sem dispositivos e, em casos mais extremos, crianças que tiveram dificuldade de serem alimentadas minimamente. Para muitas crianças, a escola pública é um espaço de refúgio e proteção. Um lugar onde ela consegue garantir minimamente seus direitos. A pandemia mostrou o quão relevante é o papel social da escola, em um país marcado pelas desigualdades sociais e o quanto a inclusão digital é uma urgência inadiável, que precisa ser feita de maneira qualificada a médio e longo prazo, com o investimento no tripé formação docente, conectividade e utilização de dispositivos, e sem perder de vista o fato de que não basta levar a tecnologia para a escola, ela precisa estar pactuada com a garantia de aprendizagem e com o respeito à autonomia dos docentes e ao protagonismo dos estudantes.

Outro perigo que a gente corre é, de nesse momento, as pessoas se deslumbrarem com a tecnologia e acharem que ela é a panaceia. Ela é fundamental e indispensável porque o mundo digital e tecnológico já se impôs e não promover a inclusão digital, em grande medida, é colaborar com a produção da exclusão social. Se eu vou ter um mundo profundamente digital e o estudante não tem a chance de se aproximar dessas tecnologias de forma qualificada e crítica, estamos produzindo a exclusão dele. Como diz o professor Antonio Nóvoa, se a gente continuar com essa escola apartada das novas tecnologias, estaremos preparando os estudantes esplendidamente para um mundo que não existe mais.

A pandemia mostrou ainda que o Brasil precisa investir com seriedade na educação, trazendo-a para o século 21, investindo na formação dos docentes, e apontou o quanto nós ainda temos uma educação bancária e instrucionista. Na minha conexão com docentes, notei que, a um primeiro momento, só se falava sobre entrega de conteúdo e muitas redes começaram a fazer o atendimento pedagógico remoto como se fosse uma corrida de curta distância, em uma perspectiva de produtivismo, reduzindo o professor a um burocrata do currículo e o estudante a um tarefeiro, no qual as escolas depositam tarefas para que os alunos executem. 

Nem sempre se falava em acolhimento, em apoio. Muito do que era dito focava apenas no atendimento remoto, sem falar sobre escuta das famílias e escuta dos docentes, olhando apenas a entrega de tarefas e “salvar o ano letivo”. Fiz um artigo sobre isso no qual digo, ao final, que “minha esperança é que, em um momento crítico como esse, a escola se apresente como um ponto de apoio para a família e o estudante, porque é isso que vai garantir a manutenção dos vínculos com a escola. Não é tornar a escola e a educação parte do problema que estamos enfrentando”. 

 

LIV – Esses aspectos possibilitaram aprendizados e reflexões para as escolas? Se sim, quais foram esses aprendizados e reflexões? 

Gina – Sim, muitas possibilidades de aprendizado. A pandemia trouxe a certeza e a convicção de que escolas e professores são indispensáveis, não só para transmitir conhecimento, mas para promover a atividade significativa de uma perspectiva integral. As crianças não aprendem apenas com os docentes, elas aprendem nas interações. O que está fazendo falta às famílias é a criança estar em um espaço social no qual ela possa ter uma ocupação qualificada do seu tempo em contato com outras crianças. 

O grande aprendizado foi a gente entender o quanto a escola faz parte da nossa vida e o quanto a sociedade se movimenta em torno da escola, e não tinha consciência disso. Há pais e mães que precisam fazer teletrabalho e olham para filho ao lado, afundado com a cara no computador, e sentem uma angústia muito grande. Antes a criança estava na escola, aprendendo, mesmo que estivesse com a cara no computador, mas dentro de uma conjuntura social, no meio de outras crianças interagindo, pois tudo isso a humaniza.

O segundo aprendizado foi saber que professoras e professores estão abertos a aprender sobre as tecnologias. Esse discurso do senso comum de que professor tem medo de tecnologia é uma falácia que impede o investimento mais sério. Os professores foram atrás, se reinventaram, não estava faltando vontade, o que estava faltando eram as redes de ensino inserirem isso em seus planos de trabalho e em suas políticas de maneira mais consistente. 

A gente também está entendendo como mais profundidade como as escolas estão conectadas a outras estruturas sociais, como parte de uma rede de apoio que atua em defesa dos direitos da infância e da adolescência. Como aparelho do estado mais próximo às crianças, a escola tem a prerrogativa de acionar o conselho tutelar, a delegacia de proteção da criança e do adolescente, ou até o centro de referência social para que a criança receba apoio, etc. Criamos nosso coletivo com o raciocínio de não deixar nenhum estudante para trás por falta de tecnologia e internet. A escola está em contato privilegiado com a criança, na melhor acepção da palavra, porque nós chegamos antes dos demais aparelhos do estado, e temos o dever não de resolver o problema, mas de se reportar, como instituição organizada e parte do estado, a quem compete resolver o problema.

O terceiro grande aprendizado é refletir como poderemos, a partir de uma crise profunda como essa, alinhar a escola, os docentes e os estudantes a seu tempo. Todos nós fomos obrigados a usar a mesma linguagem, que é a linguagem da tecnologia, em função dessa crise. Então, a partir dessa situação, como aprendemos a incorporar as tecnologias ao fazer pedagógico de maneira qualificada, de forma a gerar mais engajamento dos estudantes? 

Muitas vezes o abandono escolar vem de outras prioridades que se impõem sobre a educação, que não permite a muitos jovens o direito de estudar. Mas outra pergunta que precisamos fazer sobre esse abandono escolar é: Será que não foi o modelo de atendimento pedagógico que afastou o estudante, esse modelo que privilegia a entrega de tarefas, que não pressupõe momentos para a manutenção dos vínculos nem momentos de escuta para que o estudante possa falar sobre suas experiências na pandemia? 

Temos que conectar o aprendizado a esse momento, não dá para trancar o menino em um quarto estudando fotossíntese quando o mundo enfrenta uma pandemia. […] Eles estão sendo bombardeados por uma série de informações pesadas sobre esse contexto, mas será que eles têm alguém disposto a escutá-los e saber como estão se sentindo, qual está sendo a experiência de cada um e de suas famílias? Isso é aprendizado, garantir espaços para falar e elaborar. A gente não fica na escola porque estamos apenas atrás de conteúdo. Ficamos na escola porque queremos ser parte, pertencer, e esse pertencimento só se constrói a partir de vínculos. 

Se a escola não tiver investido, nesses últimos quatro meses, em fortalecimento de vínculos com os estudantes, eles vão evadir, porque não há motivo para ficar. […] Somos seres de afetos, pois o que eu faço afeta o outro e o que o outro faz, me afeta. Como disse o professor e psicólogo Marcelo Cunha Bueno, em um artigo publicado no contexto da pandemia, “a identidade da educação é o vínculo que conecta todo o aprendizado”. Quem não pensou nisso está amargando dois problemas: professores adoecidos porque foram soterrados por uma lógica produtivista e estudantes evadindo porque começaram a ver que o volume de trabalho é descomunal.  

Há outra oportunidade que eu considero um tesouro, que é entrar na casa das crianças, estreitar o laço com as famílias, conhecer a história da criança profundamente. Isso é tão precioso! Há professora e professor descobrindo que seus estudantes vivem em condições tão precárias, mas tão precárias, que ir para a escola todo dia é um ato de coragem. Tem gente que para estar na escola não precisa fazer esforço nenhum, pois os pais que fizeram curso superior, já viajaram para Europa, tem o próprio quarto, computador, etc. Mas há criança que para estudar tem que ir com uma roupa furada, sapato puído, barriga roncando. Quando eu entro na casa dessa criança, eu vejo isso. Há adolescentes que se recusam de ligar a câmera porque têm vergonha de que os professores vejam suas casas. O que fazer com todas essas possibilidades e oportunidades que a pandemia está trazendo? Como disse a professora Ângela Dalben, secretária de educação de  Belo Horizonte, se eu tiver a sensibilidade de olhar para isso com sabedoria, não será um ano perdido. 

 

LIV – Considerando esses aspectos citado acima, o que você acredita ser essencial na educação escolar? Ou seja, do que a escola não pode abrir mão? 

Gina – Essa pergunta pode trazer uma falsa dicotomia com a qual lidamos o tempo todo. Como professora da educação básica há 29 anos, eu levei alguns anos para entender por que as pessoas se separavam em grupos comprometidos com a aprendizagem de conteúdos e grupos comprometidos com a formação integral. Como pensar que são coisas diferentes? É justamente porque eu sou uma professora profundamente comprometida com a aprendizagem e com a garantia do direito à aprendizagem e aos conteúdos que eu defendo uma educação integral. 

Se eu não olho para o sujeito integralmente, compreendendo que ele não é só uma cabeça que pensa, mas uma pessoa que tem uma relação com o território e uma identidade, e que tudo isso entra no processo educacional, ele não vai aprender. O conteúdo não pode ser mais importante que o sujeito, porque um sujeito violado não se abre para o conteúdo. Para que o fluxo de aprendizagem continue e para que possamos vislumbrar bons resultados nas avaliações daqui a um ou dois anos, eu tenho que olhar para esse sujeito na integralidade e perguntar: “Ele sofreu perdas? Foi submetido a estresse tóxico? Voltou para a escola com um quadro de estresse pós-traumático?”. Como diz o professor César Nunes, professor da UNICAMP, não é o conteúdo que a gente está criticando, mas o conteudismo, a relação pedagógica autoritária, bancária e unilateral.

Há estudos mostrando que um dos fatores que pioram a possibilidade de aprendizagem é justamente o estresse. Não adianta começar o ano letivo agora dizendo: “Gente, estamos atrasados no conteúdo, temos que correr porque tem vestibular”. Esquece! Tem um turbilhão de coisas no estudante que ele precisa elaborar, colocar para fora e, em alguns casos, ele pode precisar de acompanhamento especializado, pois algumas pessoas vão adoecer tão profundamente que a escola não vai dar conta de resolver com rodas de conversas, e vamos precisar de um trabalho mais sistematizado e profissional. É fundamental preparar os docentes para ter um olhar ainda mais atento a isso.

Recentemente saiu uma reportagem sobre a síndrome da cabana, fenômeno recorrente em situações nas quais, depois de um longo período de isolamento, a pessoa tem medo de enfrentar a sociedade. Vamos ter que trabalhar para entender quais são os processos psíquicos que podem se apresentar depois de um longo período de exposição ao estresse tóxico. Os professores vão precisar estar muito atentos à pressão […]. Muitos pais vão dizer: “Meu filho vai fazer Enem e vestibular, eu quero que ele esteja preparado”. 

Mas talvez a própria escola tenha que conversar com esse pai, que é leigo, dizendo: “Pai, mãe, seu filho tem que estar bem, equilibrado, aberto à aprendizagem, caso contrário, passar os conteúdos irá se tornar um processo violento. Talvez ele passe na prova, mas a gente não vai saber os desdobramentos mais para frente”. Professores e professoras universitárias têm percebido que os jovens estão chegando cada dia mais quebrados psiquicamente  à universidade e não à toa, registramos um alto número de suicídio entre universitários. Nesse sentido, que educação a gente quer: uma educação que vivifica e que propõe uma vida vibrante e plena, ou uma educação que precariza a existência em nome de uma vaga na universidade? Precisamos pensar em tudo isso no retorno para que a educação não se torne parte do problema. 

 

LIV – Após realizar o acolhimento da comunidade escolar e a elaboração dos sentimentos causados pela pandemia, como os gestores podem agir para não voltar ao “antigo normal” da vida escolar? Que aprendizados queremos manter quando a pandemia passar?

Gina – Minha ideia é sempre no caminho de pensar quão profundas foram as mudanças trazidas pela pandemia e o quanto ela endossou aspectos que a gente queria mudar. Infelizmente, eu vejo que, principalmente nas escolas privadas, há casos como o da filha de um colega meu, que completou 7 anos de idade durante a pandemia e que vem sendo exposta a cinco horas ininterruptas de aula virtual todos os dias. Essa, que é uma escola conteudista, instrucionista e bancária, não repensou seus paradigmas, pelo contrário, colocou o atendimento pedagógico remoto a serviço de concepções tradicionais. Então, quando você me pergunta que aprendizados a gente vai manter, eu te devolvo com outra pergunta: “O que cada unidade de ensino fez nessa pandemia?”. 

Talvez não tenha havido o aprendizado novo que a gente precisava, mas sim escolas que pegaram as tecnologias e as colocaram a serviço dessa educação bancária que reduz o estudante a uma gaveta onde se depositam planilhas. Eu falo isso porque sei que mudar essa concepção é muito complexo. Esse é o paradigma hegemônico da escola há pelo menos três ou quatro séculos, ou seja, essa escola conservadora, que acha que o sentido do fazer pedagógico é meramente transmitir conhecimento, ignora a integralidade do aluno, se orienta por uma lógica competitiva, reduz toda a educação a passar na prova do vestibular e nega quantas outras dimensões a gente pode trabalhar nesse percurso. 

Para mudar essas concepções mais profundamente, a gente precisaria que as próprias redes estivessem colocando esse momento a serviço desse debate com os docentes. Em formações, quando falo sobre isso, tento conectar nossa história como país e a historicidade do sujeito para compreender por que, como têm apontado muitos, alguns estão atravessando essa tempestade em um iate e outros estão agarrados a um pedaço de madeira, quase se afogando, e discuto também os paradigmas da educação bancária e da educação como prática da liberdade. […] Para mudarmos profundamente nossas concepções e parir uma nova escola após a pandemia, a gente vai ter que pensar mais sobre a escola que temos. Como diz o professor Cesar Nunes, a escola a nascer dessas cinzas tem que ser sustentável, amorosa, crítica e reflexiva. 

A gente pode sair dessa pandemia com uma educação ainda mais tecnicista ou com uma educação mais humanizada e alinhada a seu tempo. […] O que vai acontecer depois depende tanto do que éramos antes da pandemia como do que estamos sendo agora. A pandemia não torna ninguém mais humano, necessariamente. Eu acho que pode ser um momento muito precioso para a gente. […] O que aprendemos foi que viver dentro de um país desigual traz profundos impactos para o processo educacional e entender que nosso primeiro problema não é pedagógico, é o problema da desigualdade social, pode ser uma oportunidade de discutir isso. Vai depender se as redes vão ter coragem de olhar para isso francamente ou se vão continuar na mesma toada.

Em analogia com a minha própria experiência, o meu processo de transformação como educadora, começou com uma crise, um adoecimento, e eu poderia ter passado por ele e ter ficado exatamente a “professaura” que eu era. Mas decidi que uma dor tão grande tinha que me trazer um grande aprendizado. As dores só valem a pena para nos jogar para frente. Se for para deixar na inércia, qual o sentido de sentir tanta dor? Estamos todos sentindo muitas dores nesse momento. A dor da perda, do luto, da incerteza, da sensação da vida em suspenso. A pergunta é o que eu vou fazer com isso, o que as escolas vão fazer com isso? O meu desejo é de que todos os docentes, estudantes, famílias, escolas sintam-se apoiados e acolhidos de forma tal que possam elaborar essas dores, nomeá-las e transformá-las em algo que as fortaleça e lhes permita seguir em frente.

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